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Capacitação: problema sem fronteiras

Conhecem algum lugar, onde a demanda por profissionais de TI é maior do que a oferta? Onde o sistema educacional não consegue suprir as necessidades do mercado? Onde a falta de competências em informática pode comprometer o desenvolvimento e a inovação? Bem, estou me referindo à Europa.

Antes da minha expatriação, estava envolvido numa série de atividades para promover a informática brasileira. Meu foco era a transformação das áreas de TI das filiais de empresas multinacionais em centros de competência mundiais. Na Europa, continuei contribuindo com esse movimento e encontrei outros desafios.

A Comunidade Europeia (CE) percebeu que o déficit de capacitação em TI dos profissionais e dos cidadãos comuns ameaça à sua competitividade. Bruxelas lançou grupos de trabalho e colocou a mão no bolso para atacar o problema. Representando a nossa categoria profissional, estavam os mais renomados fornecedores de tecnologia, o que não é suficiente.

Mais da metade da força de trabalho de informática não trabalha nas empresas de TI, mas nos seus clientes, assim como eu. A CE se deu conta e convidou a EuroCIO, uma espécie de federação das associações nacionais de dirigentes de informática, para integrar os trabalhos. As empresas ligadas, direta ou indiretamente, a essa entidade compram mais de 100 bilhões de euros em produtos e serviços de TI.

Pois é aí que eu entro nessa história. Associado da EuroCIO, faço parte de um grupo de trabalho sobre educação em informática, que se integrou à iniciativa da CE.  A minha maior surpresa foi me deparar com desafios semelhantes àqueles que enfrentara no Brasil.

Há quase 10 anos, num dos artigos para Computerworld, destaquei as dificuldades das empresas americanas na atração de profissionais de TI. A Europa vive problema semelhante, mesmo com tantos milhões de desempregados. A promoção da carreira de TI torna-se uma ação essencial. Precisamos de um verdadeiro plano de marketing. O universo das profissões ligadas à informática e as possibilidades de desenvolvimento de carreira, seja numa empresa de TI ou em qualquer outro ramo de atividade, ainda são pouco conhecidos.

A TI é muito dinâmica. Produtos e conceitos são renovados de forma muito rápida. O mundo acadêmico tem dificuldades para acompanhar essa evolução. A solução envolve o tripé governo, empresas e sistema educacional. O INSEAD desenvolveu para a CE um vasto programa descrevendo como as três entidades devem colaborar para garantir a formação de uma força de trabalho qualificada, capaz de se reciclar e alavancar a inovação no continente.

Dentro desse espírito, a associação de CIO está validando os currículos de renomadas instituições, para assegurar que os formandos tenham as capacitações requisitadas pelo mercado. Alguns dos programas muito solicitados como, por exemplo, arquiteto de negócios ou gestor de demanda, poderão receber o selo de aprovação da EuroCIO. O conceito aplica-se a programas de MBA e afins.

A Europa está trabalhando desde a inclusão digital até a formação de futuros CIOs. Sem dúvidas, um programa ambicioso, cujo sucesso também dependerá do contexto sócio-econômico. Os EUA enfrentam os mesmos problemas, porém conseguem manter uma saudável máquina de inovação graças à economia mais liberal, a cultura empreendedora e a atração de profissionais qualificados, sobretudo da Ásia. O Brasil deve se espelhar em todas essas iniciativas, não só para organizar o seu próprio mercado, mas também para aproveitar a imensa oportunidade. Depois do sucesso indiano, outros países organizam-se para suprir as necessidades da Europa e EUA.

Fernando Birman é Diretor de Estratégia e Arquitetura de TI do Grupo Rhodia e trabalha em Lyon (França).

  • Antonio Carlos

    Fernando, concordo com você quando diz que existem muitas oportunidade de carreira e que as mudanças ocorrem muito rápido, mas não concordo quando diz que falta qualificação.

    Um individuo sem qualificação é um indivíduo inapto e isso não é o caso da maioria dos profissionais, o problema está na definição da vaga, e quem decidi pela contratação. Os gerentes de projetos tem que cumprir prazos e por isso procuram o profissional que já executam as tarefas, como já ter executado uma tarefa nova?

    Outra questão está na mudança do perfil, existe uma grande dificuldade das empresas, os responsáveis, de aceitar os novos modelos colocando barreiras para a contratação de pessoas com um conhecimento que muitas vezes eles próprios não tem, vejo isso diariamente.

    Estou concluindo o meu curso de Gestão de TI, conheço a arquitetura dos sistemas, e isso simplesmente não garante um emprego porque na contratação há a exigência de experiência na função, não importa se você estudou, não será contratado.

    O primeiro passo para mudar este cenário é modificar a forma que as empresas contratam, o processo deve ser renovado. Não se pode apenas colocar a responsabilidade sobre os ombros do trabalhador, afinal ele é apenas um, uma empresa deveria ser uma equipe.

  • Iedakohls

    Concordo com Antonio Carlos em suas considerações.
    Eu mesma tenho 3 pós mais vários cursos da área de TI, todos pagos do meu bolso, e nunca é o suficiente, sempre falta alguma coisa. Não estou desempregada e nem estive, mas chegou o momento de mudar de área, justamente porque quando acho que sei alguma de coisa, já não sei mais. Infelizmente essa área tem um ritmo frenético e as pessoas não estão conseguindo acompanhar, ainda mais quando a contratação está só buscando o profissional ideal para a hiper/mega função a ser assumida. Não é a toa que temos tantos profissionais de TI ficando doentes e morrendo ainda jovens. Será que é só culpa dos profissionais que não estão qualificados à altura ou será que a contratação deve ser revista como coloca nosso colega Antonio? Pensem nisso.

  • Fernando Birman

    Excelentes comentários! Obrigado!

    Há contratações em diferentes contextos, tenho muitos exemplos de empresas que bancaram 100% da capacitação. Por outro lado, reconheço que grande parte das vagas sejam preenchidas como vocês descrevem.

    A boa notícia é que o mercado está COMPRADOR, ou seja, muito mais tolerante à falta de experiência ou capacitação.

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