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Os muitos apagões do Brasil

Um dos grandes temas da informática brasileira é o apagão de mão de obra, nome atribuído à falta de recursos humanos qualificados, que incomoda fornecedores e usuários da tecnologia de informação (TI). Neste artigo, saliento a gravidade do fenômeno, que mesmo não sendo exclusivo da TI, nem do Brasil, tem um impacto especialmente perverso na TI brasileira.

Nos últimos anos, entramos num ciclo de prosperidade raro em nossa história. O crescimento acelerado sempre esbarra em gargalos. Já conhecíamos os problemas de infraestrutura, como transportes e energia. Já estávamos habituados à ineficiência da máquina pública. Porém, entre todas as dores do crescimento, talvez a mais relevante seja o imenso déficit educacional gerado após longos anos de dificuldade ou descaso.

O apagão não é um fenômeno da TI. Ele está em todos os lugares. Faltam garis, engenheiros, garçons e domésticas. Nós, profissionais da TI, observamos o mundo que nos cerca, daí a insistência no famigerado apagão de TI, quando há tantos outros.

O apagão não é um fenômeno brasileiro. Os Estados Unidos e Europa vivem seu apagão de TI há décadas. Resolveram seus problemas de outras maneiras: tecnologia, produtividade, imigração, offshoring, etc. Se não for solucionado, o apagão pode ser contornado.

Está claro que existem apagões mais importantes do que o nosso.

A sociedade brasileira fará a suas escolhas. Até hoje, ser uma potência do software ou dos serviços de TI nunca foi prioridade nacional. Pelo contrário, o setor corre riscos de competitividade semelhantes à parte da indústria nacional. O crescimento do Brasil não é homogêneo em todos os setores. Há privilegiados e sacrificados.

Nosso lamento deve-se, em especial, à considerável janela de oportunidade que se abriu e fechou há alguns anos, quando ainda podíamos sonhar com um naco do mercado dos indianos. Felizmente por um lado e infelizmente por outro, hoje, a luta é para atender a demanda interna.

A capacitação de dezenas de milhares de recursos para zerar o déficit exige uma ação coordenada das empresas, das várias instâncias governamentais e do mundo acadêmico. Uma das nossas frustrações é que o mundo da TI não requer muito mais do que uma formação técnica básica e uma pitada de inglês. Mesmo assim, pouco foi feito. Entre esforços públicos e privados, o ônus pende para o último.

O apagão sozinho seria administrável. Entretanto, a sua combinação com a valorização da moeda e a nossa complexidade regulatória agravam a situação.

A valorização do Real pode ser transparente para alguns, mas é mortal para outros. Restringe os prestadores de serviços ao mercado interno e ameaça os poucos centros de competência de empresas globais. No curto prazo, encarece a TI do Brasil. No médio e longo prazo, alivia o problema do apagão da pior maneira possível, nos impelindo a comprar serviços do exterior.

O ambiente regulatório do Brasil dispensa comentários. Falo da legislação trabalhista e do sistema tributário, complexos e anacrônicos, desprovendo nossos fornecedores de flexibilidade e até mesmo de uma segurança institucional básica para alavancar suas atividades.

Dentro desse quadro, o termo apagão denota certo otimismo. Quem se inspirou nos apagões de energia para aplicá-lo à falta de mão de obra presumiu que seria momentâneo. Será?

A combinação de inúmeros fatores políticos, econômicos, sociais e legais produz um quadro difícil de prever. Se o artigo mostra uma visão um pouco sombria, trata-se apenas de um dos cenários. Assim como o Brasil, que saiu do quadro hiperinflacionário para ser “a bola da vez” em uma década, a TI nacional poderá encontrar caminhos para fazer a sua virada.

  • http://pulse.yahoo.com/_L4FW6Y23GE5CNYCCJYZC556ZZI Luiz

    “é que o mundo da TI não requer muito mais do que uma formação técnica básica e uma pitada de inglês. ”Pois é, acho que o texto todo pode ser resumido nesse parágrafo. Enquanto os empregadores tiverem na cabeça essa idéia que qualquer um com um treinamento básico e um salário de subsistência pode ser profissional de TI continuará havendo falta de de mão obra especializada. E as que entrarem terão um nível técnico muito baixo. É isso que vejo hoje. Fim.

  • http://twitter.com/mds123mds123 MDS

    Não tivemos nunca um apagão de gestão, pois nunca tivemos sequer um relampejo de gestão.
    Temos muitos impostos, mas a legislação trabalhista é justa.

  • http://twitter.com/mds123mds123 MDS

    Não tivemos nunca um apagão de gestão, pois nunca tivemos sequer um relampejo de gestão.
    Temos muitos impostos, mas a legislação trabalhista é justa.