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Archive for dezembro, 2011

Como a Nokia pode salvar a Microsoft ou vice-versa

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Não, este artigo não é sobre o uso de patentes para extrair lucros de empresas como Samsung, HTC, Barnes and Noble, etc., pelo uso do Android – sistema operacional do Google que supostamente infringe patentes de design da Microsoft – presente em mais de 50% dos smartphones e numa boa parcela dos tablets do mercado. Um recente artigo revela detalhes de uma estratégia triste utilizada pela Microsoft. Seria muito melhor se toda essa energia fosse colocada no desenvolvimento de novos produtos.

É sobre novos produtos que gostaria de escrever. Estava outro dia relembrando quando, em meados de 2007 eu – até então fiel usuário de celulares Nokia – botei minhas mãos na primeira versão do iPhone. Sinceramente?, apesar da incrível sensação de poder usar gestos e navegar na Internet de uma forma totalmente inovadora, achei o telefone um “lajotão”. Claro que, em pouco tempo, esta sensação mudou para total encantamento, que me levou a comprar todos os modelos lançados até aqui.

O formato do dispositivo trazido pelo iPhone foi literalmente copiado por outros fabricantes e se tornou o padrão do que se espera de um smartphone: tela grande o suficiente para você assistir vídeos, navegar na Internet, ler e responder emails, jogar, usar apps, etc. Em vários momentos, principalmente aqui, nos Estados Unidos, é difícil imaginar que a Nokia ainda venda aparelhos que não são smartphones – e que são a grande maioria do mercado (60% de aparelhos nos Estados Unidos não são smartphones).

A Microsoft publicou recentemente sua visão de futuro para produtividade – mobilidade é, obviamente, parte fundamental disso – através de um vídeo que ficou muito popular na Internet, veja-o aqui e volte a ler depois.

Incrível, não é? Deu vontade de o futuro chegar logo? Confesso que já na primeira vez que vi este vídeo senti algo estranho. Este futuro, cheio de elementos que parecem tablets, de realidade aumentada (informações flutuando no ar), de telas gigantes e conexões instantâneas são, na verdade, o presente esteticamente mais elaborado. Mas a ideia do “lajotão” continua lá.

Em um painel sobre mobilidade que participei recentemente na universidade Temple da Filadélfia, eu disse – para choque de alguns – que para mim, o futuro da mobilidade é conseguir fazer naturalmente qualquer coisa sem perceber que tenho dispositivos conectados ao meu celular. Um exemplo que dei é que não via avanço em tirar meu telefone do bolso para fazer um pagamento, ao invés de tirar meu cartão de crédito da carteira. Avanço seria não precisar tirar o celular do bolso, afinal ele, em teoria, pode me identificar única e totalmente se o tenho junto ao meu corpo.

Procurando na Internet encontrei este artigo (em inglês), que também reagiu ao vídeo da Microsoft. Curiosamente, o autor diz que ficou incomodado pelo fato de que “não há nada de visionário no vídeo”, que “ele apenas incrementa as interações hoje existentes”. Bingo! O conceito da Microsoft ignora a necessidade dos seres humanos de amplificar suas capacidades naturais. Parece ser muito mais natural pensar que, no futuro, é isso que vai acontecer: os dispositivos que carregaremos irão amplificar nossa capacidade de visão, de tato, de percepção, de síntese, de entendimento de contextos, etc., através de uma conexão mais natural com nossos corpos, não apenas com nossos dedos. Eu chamaria esse dispositivo de ‘ultrasmartphone’.

Foi então que encontrei este vídeo aqui, sobre a visão da Nokia do futuro dos smartphones. Fiquei encantado com o conceito. Mesmo que não venha a ser viável neste formato, ele faz absoluto sentido e pode ser estendido para amplificar outras capacidades humanas. Tenho certeza de que a Nokia se inspirou em uma das mais primitivas ferramentas, que o ser humano produziu há um milhão e meio de anos: as bifaces acheulences.

Essas pedras pontiagudas de faces simétricas foram resultado de um aperfeiçoamento de pedras mais rudimentares (olduvaienses). Em nossa fase pré-homo sapiens, moldamos pedras com o objetivo de estender nossa capacidade de caçar e realizar outras atividades, como cortar a pele de animais para produção de roupas. Se bobear, o ‘celular acheulence’ vai encontrar ressonância com nossos genes ancestrais e se tornar o novo padrão de smartphone.

A Nokia ainda é uma gigante que, assim como a outra gigante Microsoft, vê suas margens serem corroídas pelos novos competidores como Apple, Google, Samsung entre outros. Bem, o dinheiro vindo de patentes ainda vai ajudar bastante, mas, em todo caso, a parceira firmada entre Microsoft e Nokia no início de 2011 é um grande trunfo para as duas empresas, e pode trazer a retomada do crescimento – há algum tempo perdido. A Nokia produz celulares desde 1981, a Microsoft produz o Windows desde 1985. São grandes especialistas no que fazem, aprenderam muito com milhões e milhões de usuários em todo o mundo e têm muito a ganhar trabalhando juntas em dispositivos ultrainteligentes que carregaremos no bolso para tornarem nossas vidas melhores, como amplificadores das capacidades de nossos corpos.

Muitos analistas estão céticos sobre a dobradinha. A própria Nokia sabe que vai ter que concorrer com outros celulares rodando o Windows Phone, mas, no oceano que é o mercado de celulares simples transicionando para smartphones, acredito que depois de Apple e Google, chegou a Microsoft, para ficar.

(*) Márcio Cyrillo é head de Mobile da Ci&T.