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Os desafios da TI na saúde

Por Teresa Sacchetta*

O segmento da saúde passa por uma transformação no mundo todo, decorrente da melhoria das condições de vida e dos exponenciais avanços tecnológicos, que, combinados, promovem o aumento da expectativa de vida e consequente envelhecimento da população. Nesse contexto, questões críticas devem ser abordadas, em um modelo de negócio que hoje ainda é, predominante e paradoxalmente, manual, fragmentado e instável.

Essa convivência de opostos – alta tecnologia e processos pouco explícitos – tem forçado o sistema de saúde à sobrecarga, promovendo uma espiral insustentável de custos. Soma-se a esse cenário o fato de a Tecnologia da Informação (TI) no setor de saúde ser área de grande complexidade e algumas incertezas ligadas aos sistemas biológicos, fazendo com que provedores tenham de lidar com inúmeros aplicativos, muitas vezes em sistemas independentes.

Embora muito se discuta a respeito de interoperabilidade, a maioria dos gestores de TI luta hoje para integrar os sistemas dentro de suas quatro paredes. Executivos de saúde são confrontados com os desafios de garantir acesso à informação, quando e onde necessário e de maneira segura, otimizando a área de TI para que ela possa atender às crescentes demandas do setor – incluindo integração de dados – e finalmente encontrar formas de inovar em um ambiente de recursos escassos.

No Brasil, o cenário é agravado pelo crescimento econômico e a decorrente ampliação do emprego formal, que estão provocando um aumento de fluxo sem precedentes no sistema de saúde. O que pode significar uma onda muito favorável de crescimento pode, por outro lado, transformar-se em um pesadelo “ingerenciável”. As expansões necessárias por parte de prestadores de serviços para atender à crescente demanda não acontecem na velocidade necessária, e o que se vê são longos períodos de espera para a realização de procedimentos e exames, hospitais abarrotados de pessoas aguardando por atendimento, e, o mais grave, a queda na qualidade dos serviços prestados.

A informação está “presa no papel”, ou, em alguns casos, “presa em sistemas”, e raramente está interligada aos subsistemas de saúde, o que dificulta a tomada de decisão, hoje frequentemente baseada em informações desatualizadas ou estimativas superficiais. Em artigo da Harvard Business Review, Michael Porter e Robert Kaplan discutem a crise de custos no segmento e mencionam a dificuldade de fazer gestão e prover melhorias do que não pode ser medido.

A análise de custos é complexa e trabalhosa, e hoje é feita de maneira superficial, utilizando premissas nem sempre corretas, impedindo ações certeiras e sustentáveis, o que pode significar risco à sobrevivência do negócio em um ambiente que está se tornando mais competitivo, em processo de consolidação e profissionalização crescentes.

Ao estruturar a abordagem, a posição central deve ser ocupada pelo paciente e a informação relacionada a ele. Ao redor desse núcleo são estabelecidos os processos de negócio. Dessa forma, aumenta-se a facilidade da escolha da tecnologia correta, que passa a fazer sentido por toda a organização, e também o entendimento organizacional acerca do papel da tecnologia como viabilizador do novo cenário, o que cria o ambiente necessário à sua ampla adoção.

Essa abordagem, que transmite coerência e consistência, permite a construção da fundação para um sistema em que a informação é facilmente armazenada, analisada e partilhada, tendo como base uma infraestrutura de TI flexível. E a escolha adequada da tecnologia, em linha com o negócio e com previsão de atendimento da demanda futura, aumenta a eficiência de investimentos e despesas em TI no médio e longo prazo.

A sobra de capacidade e competência permitem que a área de TI passe a apoiar de fato a inovação. Constrói-se, dessa forma, um ambiente em que a informação passa a ser o direcionador dos processos em saúde. O que se observa em decorrência desse ambiente é a informação interconectada, disponível quando e onde necessária, gerando um valioso conhecimento que permite a visão única e integrada da história clínica do indivíduo e é capaz de mover a saúde além do cuidado episódico, oneroso e unicamente terapêutico, em direção à prevenção.

Citando novamente Kaplan e Porter, há um poderoso gerador de valor na saúde em que melhores resultados com frequência acompanham a redução de custos, o que é decorrente da atuação orientada ao diagnóstico precoce e à prevenção – uma transformação teoricamente muito simples, porém hoje difícil de ser evidenciada pelos gestores da cadeia de valor da saúde e que também pressupõe o entendimento de que a área da saúde não poderá nunca ser limitada a uma visão puramente financeira ou tecnicista.

A tecnologia e a busca por uma prática médica viável e sustentável são instrumentos para a realização dos cuidados em saúde e deverão ser sempre conduzidos de acordo com a ética e análise crítica de profissionais capacitados e movidos pela essência da medicina. O que for inserido no contexto da medicina com esse objetivo será naturalmente aceito e trará reais benefícios a todos stakeholders da cadeia de valor da saúde, particularmente para a razão de ser do setor – os pacientes.

*Teresa Sacchetta é diretora de Serviços para Saúde da Dell Brasil

  • http://twitter.com/eduardogula Eduardo A. Gula

    Olá,

    Gostaria de ter a referência do artigo da Harvard Business Review mencionado no texto.

    Grato,
    Eduardo

  • Teresa Sacchetta

    Eduar

  • Teresa Sacchetta

    Eduardo, segue referência: Kaplan, RS and Porter, ME. The Big Idea: How to Solve the Cost Crisis in Health Care. Harvard Business Review. September, 2011, p48-64.
    Abraço,
    Teresa