Carreira
Habilidades interpessoais transformam o profissional de TI
Boa formação acadêmica é o mínimo. Prepare-se para gerir equipes, liderar e influenciar pessoas. Leia entrevista na íntegra com a headhunter Fatima Zorzato, country manager da norte-americana Russell Raynolds.
Por Luciana Coen, do COMPUTERWORLD
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"Uma boa educação, vinda de berço, desde o ensino fundamental, é o mínimo. Precisamos falar do que diferencia um profissional", acredita a headhunter.
Para ela, country manager da norte-americana Russell Raynolds, habilidades não-acadêmicas é que transformam um profissional em um verdadeiro líder. Saber trabalhar em time, desenvolver outras pessoas, influenciar colegas e superiores e experiência no exterior são qualidades e experiências que podem transformar um profissional em um presidente de uma companhia. Veja entrevista exclusiva ao COMPUTERWORLD.
COMPUTERWORLD - Qual é a formação ideal, em termos formais, hoje para profissionais que queiram ingressar na área de TI?
FATIMA ZORZATO (Russell Reynolds Associates) - Tudo isto é o básico, é o alicerce que ninguém vê e não é o que faz a diferença no mercado de trabalho. Gostaria de falar sobre uma apresentação que eu faço falando sobre este mercado. Mas em princípio é o seguinte. Esta é uma carreira que era basicamente técnica. Agora, a demanda técnica é o pré-requisito. Então não é mais o diferencial. Todas as pessoas devem passar pelos mesmos bancos, ou bancos parecidos, para construir seu alicerce. Mas este alicerce é invisível. É sobre ele que você vai construir uma casa térrea ou prédio de cinco andares.
CW - Você pode explicar melhor?
FATIMA - Estou usando a imagem de alicerce para fazer uma analogia dizendo que a base pode ser fraca ou forte. Se for forte, agüenta quantos andares quiser, sem rachar parede. O que chamo de alicerce são as habilidades pessoais, de análise, de enxergar. E depois disso, há coisas ligadas a hardware e software. Depois, vem a formação, onde fez o primário, o colégio.
CW - Qual é a força que é preciso ter desde o primário, para começar a construir a base de um bom executivo?
FATIMA - Hoje em dia, o que falamos é que eles têm de estudar em lugares que desenvolvem não só o conhecimento básico, mas também algumas coisas que vão usar par ao resto da vida. Um exemplo disto é conseguir estudar cases, analisar cenários, problemas e trazer soluções. Que tipo de estímulo você dá hoje às crianças? As crianças agora vêm de outra era, em que decorava-se a matéria. Hoje, incentiva-se o trabalho em grupo, para começar a aprender o que você na vida adulta vai fazer - trabalhar em time. As crianças têm de aprender o que é dar a bola para o outro e administrar a sensação de que o outro ganhou. Quem ganhou? Quem passou a bola ou quem fez o gol? É preciso aprender desde cedo a jogar em time.
CW - Você valoriza mais habilidades inter-pessoais e menos cursos formais?
FATIMA - Eu fico assustada com a quantidade de cursos que os CIOs fazem. Acho um horror. Se ligar para as pessoas, você nunca acha ninguém, eles estão sempre em palestras, os fornecedores os levam para eventos. E muitas vezes, vejo que eles aprendem muito e não repassam o conhecimento para o time. E nestas horas, vejo o time dele olhando e falando: que inveja... por que tudo para ele? Isto acontece. Tem exceções. E as exceções são as mais brilhantes. Qual é o melhor CIO? Aquele que aparece em todas as fotos? Ou aquele que tem um time mais forte e que deixa emergir os talentos? Então, quando falo com CIOs, convido-os a olhar seus filhos, como está educando, olhar seus funcionários. Então, o primeiro ponto é esta fundação.
CW - E qual é o segundo ponto?
FATIMA - O preparo técnico, em hardware ou software. É preciso estar atento ao que está acontecendo no mercado. E aqui vale dizer que estou falando em camadas. Se você não tem estas bases, você não consegue desenvolver nem 10% do que poderia em uma pessoa. Se ela não tiver uma boa formação, é isto que acontece. Eu diria que os melhores não são aqueles que fizeram um monte de cursos e só. São aqueles que pessoalmente são capazes de interfacear o negócio de um jeito especial.
CW - O que quer dizer isso?
FATIMA - É simplesmente a diferença entre os gerentes do passado, que ficavam em uma sala fechada. Hoje em dia, os presidentes, diretores e analistas, entendem tanto do que eles do que está acontecendo. As pessoas são mais abertas. E não é mais preciso ser especialista para entender ou estudar novas tecnologias. Então ele realmente precisa ter preparo. Houve uma mudança de paradigma. Se ele não tiver habilidade para influenciar uma decisão, não adianta.
CW - Comunicação então é a chave para o sucesso de um executivo de TI?
FATIMA - Não é comunicação num sentido simplista. É um componente de atitude, de conteúdo e de credibilidade que você vai desenvolvendo. A influência é um processo em que o outro te dá o direito de ele te ouvir. É complexo. É uma questão de credibilidade, de desenvolver a influência no outro. E não adianta fazer curso, um atrás do outro. Ele tem de aprender a cantar, fazer dança, desenvolver coisas que desenvolvam a sensibilidade, ligadas ao aspecto de como "ler cenas", no sentido de compreender, no sentido amplo, cenários. O conteúdo, neste mundo mais socializado, é preciso se adaptar. O papel dele é olhar o negócio, entender de processo e entender de tecnologia para fazer isto funcionar. Ele precisa gerenciar contratos, definir o que é outsourcing o que vai ficar dentro. E, principalmente, conquistar o convite para ser chamado para participar de reuniões no momento em que as decisões são tomadas.
CW - O que é essencial, portanto, na tua opinião?
FATIMA - As vagas não estão diminuindo na área. O que acontece é que as novas habilidades que não foram desenvolvidas, que não são técnicas e não são conhecimento, vão falar mais alto. Vai ser preciso ter muita capacidade de liderança e equipes muito bem alinhadas.
CW - O que você indica para profissionais que querem fazer carreira no exterior?
FATIMA - Acho que é uma experiência muito boa. Você desenvolve a sobrevivência no ambiente diferente. É preciso aprender muitas coisas novamente. É preciso aprender a influenciar a decisão dos outros em outro ambiente e outro idioma que não são os seus. O fortalecimento psicológico é talvez o ponto mais importante. Agora, se ele quiser ir para fora, ele pode conquistar duas coisas. Se ele tem um nível de coordenação de projetos, ele terá mais chances de ir para fora. Um bom gestor de projetos tem grande chance de ter experiência internacional. E a outra forma de ir para fora é quando ele tem um nível de conhecimento do negócio tão grande, que ele consegue apoiar os níveis de direção de forma diferenciada. Em todos os níveis, o que acontece é que, quando começa a subir na organização, começa a ser mais estratégico, e pode reduzir a técnica.
CW - Como ser um bom profissional fazendo carreira em fornecedor?
FATIMA - O perfil destas empresas é que estão se orientando a serviços e, portanto, querem vendas consultivas. O comprador agora quer soluções. Fornecedores precisam de gente que conseguem entregar soluções. Num momento elas são parceiras, em outro momento são competidoras, em outro momento são sócias e fornecedoras entre si. O estilo "arrasa quarteirão" não tem mais chance. Aquele perfil de vendas agressivo está com os dias contados. Porque em um momento ele pode ser vendedor e vender bem. Em outro, ele será comprador, mas aí o vendedor não senta na mesa com ele. Hoje, o mundo está divido entre grandíssimas contas, grandes contas e o mundo SOHO. E muitas vezes o asset (ativo) de um executivo é o bom relacionamento com determinada empresa. E isto vale para a área de telecom também. Eu diria: o principal é que uma pessoa tem de ter tido capacidade de trabalhar em assuntos de estratégia, mas tem de ter entregue alguma coisa.
CW - Qual é o futuro?
FATIMA - De todas as profissões, acho que a mudança foi tão grande, que estamos vivendo um gap de gerações. As pessoas que vêm agora para esta área cresceram usando o computador em casa. Os executivos que hoje são mais seniores eram testados na técnica até o último minuto. A mudança é muito difícil. De repente, eles foram obrigados a abrir as portas de seu CPD, seu conhecimento técnico deixou de ser valorizado e eles passaram a ser testados por outras habilidades.
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