Carreira
Quem educa também quer aprender
Curso de extensão ministrado pela PUC, com patrocínio da Microsoft, oferece capacitação tecnológica para mais de 30 mil profissionais de educação da rede pública de ensino.
Por Ana Paula Oliveira, do COMPUTERWORLD
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Enquanto alunos de escolas particulares como Objetivo e Dante Alighieri já contam com notebooks que acessam redes sem fio, PDAs, telescópios e aulas de robótica incorporadas a sua grade curricular, a rotina dos estudantes da escola estadual Professor Simão Mathias, localizada no Jardim Iguatemi, na Zona Leste de São Paulo, não difere muito do que acontece diariamente em outras instituições da rede pública – grade curricular tradicional, professores pouco reconhecidos e mal-remunerados e infra-estrutura defasada.
A única exceção encontrada nessa escola é uma sala de 50 metros quadrados, com 10 computadores, que atualmente servem como recurso complementar no aprendizado de matérias como português, inglês, matemática e geografia. Apesar de não conseguir atender totalmente a demanda dos 2,1 mil estudantes da instituição, que ministra aulas de 5ª à 8ª séries do ensino fundamental e dos três anos que compõem o ensino médio, o laboratório de informática já é freqüentado por 800 alunos.
“No início havia um certo receio dos professores em inserir o computador na programação de cada matéria. Mas depois que começamos a aplicar o software, os alunos adoraram e os professores puderam relaxar”, conta Luzia Vieira Silva, coordenadora pedagógica da escola.
Ela explica que o conteúdo teórico é fornecido na sala de aula e, depois disso, cada professor leva sua turma para fazer os exercícios no laboratório. No fim de cada série de exercícios, o aluno consegue visualizar seus erros e acertos. Em matérias como inglês, por exemplo, os estudantes conseguem fazer exercícios de pronúncia e repetição e podem comparar se estão falando da forma correta. Apesar de ser um dos recursos mais básicos encontrados em qualquer escola de idiomas, na rede pública é um grande avanço didático.
Em uma segunda fase, quando o professor já conseguiu detectar as deficiências específicas de cada aluno, ele passa exercícios direcionados. “Cada aluno tem seu disquete, no qual o professor grava os exercícios indicados para ele”, conta Luzia.
O projeto começou com apenas quatro salas de aula e 160 alunos. “Deixamos a proposta em aberto aos professores interessados. Depois, quando todos viram os resultados práticos, a procura foi imensa. Hoje estamos com 800 alunos, mas, pela quantidade reduzida de computadores, não podemos estender a opção para todos os matriculados”, revela a coordenadora pedagógica.
Parceria é fundamental
Apesar de parecer bem simples, esse modelo para utilização dos recursos de informática na escola só conseguiu ser desenhado pela coordenadora pedagógica, em conjunto com a diretora e a vice-diretora da instituição, durante o curso Gestão Escolar e Tecnologia, ministrado pela área de currículos da PUC-SP (Pontifícia Universidade da Católica de São Paulo) com patrocínio da Secretaria de Educação do Estado e da Microsoft.
Lançado em 2004, o curso de extensão é voltado aos gestores de escolas públicas – em média quatro pessoas por instituição – que ao longo das aulas aprendem como usar a tecnologia não só como ferramenta pedagógica, mas também como auxílio na gestão da escola. “Ao fim do curso, a meta é que cada equipe saia com um projeto pronto”, conta Ana Teresa Ralston, gerente de programas educacionais da Microsoft Brasil.
Começando em São Paulo e em Goiás, hoje o curso é oferecido aos gestores do ensino público de 11 estados – Bahia, Distrito Federal, Mato Grosso, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Tocantins entraram em uma segunda fase. “Hoje já finalizamos a formação de 480 orientadores locais nesses Estados”, conta a gerente. “Além disso, temos quatro Estados em plena atividade, com 1.920 gestores em cada um deles”, ela acrescenta.
A expectativa é de que até setembro deste ano 11,5 mil gestores da rede pública de São Paulo e 1,6 mil gestores de Goiás já estejam formados. “Somando com os outros Estados devemos ter 30 mil gestores formados até o fim deste ano”, prevê Ana Teresa. Com uma média de três profissionais por escola, em 10 mil escolas, com 500 alunos cada, a iniciativa pode beneficiar até 5 milhões de alunos da rede pública.
Outros Estados, como Rio de Janeiro e Sergipe, já se interessaram pelo projeto. A gerente da Microsoft explica, no entanto, que antes de incluir outros Estados, é necessário finalizar os que ainda estão em andamento. “Além disso, cada Estado também tem seus custos com o projeto, como o deslocamento, a hospedagem e o tempo dos professores”, ela ressalta.
Mais que a capacitação profissional, a iniciativa tem como meta principal recuperar o papel da escola, sem deixar de lado a parte humana. “É muito importante resgatar a auto-estima desses profissionais que são tão importantes para o desenvolvimento do País e tão pouco valorizados”, enfatiza Ana Teresa.
Os resultados – Na prática, ao que parece, a proposta está dando certo. A coordenadora Luzia conta que a escola agora conta com um site, desenvolvido e mantido por uma professora, por iniciativa própria. Os alunos gostaram tanto da idéia que querem ajudar na manutenção, o que resultou em uma proposta de treinamento de alunos monitores e a criação de uma equipe que cuide só disso. “Agora só precisamos de mais computadores para suprir toda essa demanda”, desabafa Luzia, mais uma dos milhares de profissionais de educação do nosso País que, para conseguir fazer seu trabalho, precisam enfrentar uma corrida de obstáculos todos os dias.
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