Jogo também é tarefa séria

(http://computerworld.uol.com.br/carreira/2007/12/26/idgnoticia.2007-12-21.7552761518)
Por Luiza Dalmazo, do COMPUTERWORLD
Publicada em 26 de dezembro de 2007 - 08h05

As vagas nas empresas de games são crescentes no País. Saiba como se preparar para novas funções que surgem no mercado de trabalho

Transformar a brincadeira de infância e adolescência em ganha-pão é o sonho de muitas pessoas. E isso não se resume apenas a música e ao futebol – ou qualquer outro esporte. O sonho de muitos jovens também é atuar com games.

Como o País aumentou seu reconhecimento no setor, despontando principalmente na área de jogos para celulares, a necessidade e as oportunidades de as pessoas realizarem o sonho começam a se aproximar de realidade no País.

O grupo que compõe as companhias do segmento, como Hoplon, Meantime e Tectoy Digital, começam a desenhar o perfil do profissional brasileiro de games e provam que, apesar de o resultado final ser pura diversão, a rotina de trabalho é pesada.

A maioria dos candidatos, entretanto, não se dá conta disso até participar do processo de seleção. Conforme conta Gilliard Lopes, produtor da Hoplon, isso acontece principalmente porque há pouca preparação acadêmica, devido ao baixo número de cursos especializados que estejam sintonizados com os padrões internacionais de ensino de desenvolvimento de games. “No Brasil as instituições tentam reinventar modelos europeus e norte-americanos, mas têm dificuldades por causa da falta de experiência”, denuncia.

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Como os profissionais não podem ser formados em universidades e outros centros e só têm a literatura disponível a recorrer, a alternativa da Hoplon e de outras empresas do setor é procurar profissionais que tenham vivência em áreas correlatas. Segundo ele, para programadores isso significa ter atuado com computação gráfica, inteligência artificial e aplicativos distribuídos.

Para game designers, pode ser atuação em produção de cinema, construção de roteiros de livros de ficção ou até de jogos de tabuleiro. “Para artistas, além de cinema vale a experiência na área de publicidade e também de animações”, conta.


O diretor de desenvolvimento de jogos da Meantime, Ivan Patriota, é ainda mais abrangente quando enumera cursos de onde podem surgir os profissionais de jogos. “Aqui na empresa já tivemos um estudante de letras e até um músico”, revela.

De acordo com o executivo, não existe limite em relação à profissão do candidato, apesar de 90% ser de origem do curso de ciências da computação. “Quem gosta muito de jogos e sabe se expressar bem – principalmente na escrita, para explicar e defender a idéia para os colegas e até clientes – está apto”, resume.

Além disso, também rende pontos à pessoa se ela souber fazer tudo isso em mais de uma língua, já que hoje empresas brasileiras, como a Meantime, vendem jogos para mais de seis países e isso significa necessidade de comunicação com eles.

Entretanto, a principal carência dos profissionais do setor não é criatividade, idioma, ou muito menos formação: é experiência. O presidente da Associação Brasileira de Games (Abragames) e gerente de produção da Tectoy Digital, André Penha, afirma que a faixa etária desses profissionais fica entre 21 e 32 anos e que esse é o principal fator que diferencia essa força de trabalho nacional. “Como lá fora essa indústria é mais antiga, há um maior número de pessoas com essa formação e elas servem de exemplo”, explica.

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O produtor da Hoplon completa que essas características locais fazem com que a nossa mão-de-obra local seja mais versátil, acumulando várias funções por funcionário. Essa necessidade de desdobramento talvez ainda aumente, porque a demanda ainda não é alta, mas é crescente. “A indústria está aumentando em volume e com as plataformas que fogem do problema da pirataria, o mercado tende ao aquecimento”, ressalta Penha.

O salário pode ser um atrativo. Os profissionais iniciantes na grande São Paulo ganham entre 2 mil reais e 3 mil reais e o reconhecimento financeiro melhora para quem tem experiência. Em Recife, cidade sede da Meantime, a remuneração fica entre 1,5 mil reais e 5 mil reais.


A dica das companhias do setor para driblar a questão da experiência não foge do tradicional. O começo pode ser um estágio ou, para quem gosta de desafios, encarar jogos simples, em casa mesmo. Penha diz que há vários tutoriais para a criação de jogos na internet e até kits de desenvolvimento de jogos 3D. “Esses modelos em três dimensões certamente exigirão uma equipe, mas organizar o grupo com os amigos é uma ótima forma de iniciar, até porque envolve outros aprendizados, como o de divisão de tarefas”, diz o presidente da Abragames.

Ivan Patriota, da Meantime, incentiva ainda a participação de grupos de discussão de games e principalmente a reflexão o mais apurada possível de um jogo. “Tem de pensar se um jogo é bom, por que conseguiu ser bem sucedido, avaliar a mecânica que usa, o cenário, a característica dos personagens, tudo o que for possível”, recomenda. Lopes, da Hoplon, acrescenta que ótimos pontos de partida para o aprendizado são os sites da Gamesutra e da Gamedev, ambos em inglês e da Unidev, em português.

Além disso, jogar muito é vital. Mas não com o olhar de infância, baseado no lazer. É preciso acrescentar por quês na experiência. “Por que o controle é desse jeito, por que a câmera acompanha o personagem sempre do mesmo ângulo, por que nem sempre é possível interferir...

A prática se aplica em cada pedacinho do jogo, do menu ao personagem”, diz Penha. Quem já está na área, entretanto, a análise do orçamento e do mercado é o que merece atenção. De acordo com a Abragames, quase todos os profissionais sonham em fazer um jogo como o Halo 3, o GTA ou o God of War, como primeiro jogo.

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Mas é preciso dar cada passo a seu tempo. “Os profissionais também têm de entender que um game AAA (pronuncia-se “triple A”, expressão utilizada para dizer que aquilo é realmente muito bom, dos melhores) custa muitos milhões de dólares e são feitos com equipes de mais de 100 pessoas”.

Portanto, não adianta alimentar ilusões na profissão de que em pouco tempo vão surgir jogos como esse na indústria brasileira, pois falta experiência e escala. Mas isso não significa desânimo. Ao contrário, com regras claras, fica mais fácil atingir o objetivo do jogo.