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Telecomunicações

Tereza Porto é Analista de Sistemas formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e ocupa o cargo de presidente do Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (Proderj) desde janeiro de 2003.

Por uma Web 2.0 e para todos

Potencial democrático e economicamente pujante da nova internet depende de maiores esforços em prol da acessibilidade digital e da interoperabilidade.

22 de novembro de 2007 - 16h11
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O fato do Brasil atrair eventos de importância mundial como a reunião do Fórum de Governança da Internet (IGF, da sigla em inglês) – grupo resultante da Cúpula Mundial da Sociedade da Informação de Túnis-2005 –, no mês de novembro, e de passar a hospedar o primeiro escritório latino-americano de outra organização internacional, o Consórcio World Wide Web (ou W3C), voltado ao desenvolvimento de normas e padrões abertos para garantir o crescimento da internet, mostra o reconhecimento de nossa posição privilegiada na economia digital – ao menos, potencialmente.

O ambiente tecnológico nacional se iguala ao estado da arte encontrado no planeta quando se trata de soluções open source, games, aplicativos de e-gov ou Internet Banking. O mesmo se pode dizer de nossa competência para produzir soluções criativas nas áreas de mobilidade ou da ousadia demonstrada até aqui no planejamento de uma TV Digital interativa, para a qual não faltará diversidade de conteúdo, se considerarmos a pluralidade de expressões culturais verde-amarelas.

O desembarque da W3C em São Paulo confirma a intenção de nossos próprios organismos regulatórios de garantir que essa capacidade de liderança no mundo web tenha vida longa e que o País não apenas incorpore os padrões vigentes, mas aumente sua presença na rede mundial e seja protagonista na criação de aplicações intercomunicáveis e interoperáveis.

Entre as atribuições mais importantes deste consórcio internacional, destaca-se o estabelecimento de recomendações para a construção de páginas acessíveis, missão que justifica plenamente tanto interesse pelo mercado brasileiro: afinal, como estamos lidando com as demandas e necessidades especiais desta nova humanidade 2.0, aqui representada por um universo de quase 37 milhões de pessoas surfando na internet, ou ainda, pelos 112 milhões de donos de aparelhos celulares?

Falamos tanto na web como plataforma, na exploração do software como serviço, no interesse pela colaboração virtual e em como essa nova geração da internet extrapola o campo da tecnologia rumo ao da atitude empreendedora, das idéias simples e revolucionárias, da personalização das interfaces e da produção de informação "ao alcance de todos", que se torna impensável deixar que as preocupações com o bem-estar do usuário fiquem somente no campo do politicamente correto – ou seja, que não se tome a palavra "acessibilidade" pelo seu sentido correto, mais próximo de "facilidade de acesso" e nada a ver com um "favor" que se presta a determinadas minorias.

A discussão atual é que não se trata, apenas, de gerar igualdade de oportunidades para aqueles a quem identificamos tradicionalmente como portadores de necessidades especiais (deficientes visuais, auditivos, físicos) – o que já seria uma tarefa e tanto, absolutamente necessária. O caso é muito mais grave. Como podemos usar o mote de "todo poder ao usuário" e pensar em conceitos avançados como o de geração de inteligência coletiva se estamos excluindo uma parcela considerável da população ao não proporcionarmos flexibilidade no acesso à informação e na interação entre usuários, independente da infra-estrutura de rede, software e hardware que a pessoa utiliza, de seu idioma nativo, do país em que se encontra ou de suas habilidades físicas e mentais?

A lista de possíveis barreiras à interação digital apontada pelo W3C é extensa e inclui: usuários com incapacidade para usar teclado ou mouse (ou que não dispõem deles); pessoas com níveis variados de dificuldade para ler textos ou compreendê-los; usuários com conexão lenta à internet; proprietários de navegadores web ultrapassados ou de navegadores por voz e sistemas operacionais não convencionais; e ainda, pessoas que estejam simplesmente em ambientes de trabalho barulhentos, mal iluminados, ou ao volante, com as mãos, olhos e ouvidos ocupados em outras tarefas.

Como as páginas e outros produtos online precisam dar respostas simultâneas a todos estes grupos, há que se observar recomendações específicas para a superação de tais limitações, conseguidas, por exemplo, através do emprego de equivalentes textuais associados às imagens (o que acelera, inclusive, o mecanismo de indexação pelos sites de busca); de folhas de estilo que eliminam o elemento Font e dão aos autores das páginas um maior controle sobre elas (auxiliando quem tem problemas visuais e tornando a transferência de páginas mais rápida); e de equivalentes alternativos para os textos (como ícones, gravações de voz e vídeos traduzindo o texto para a linguagem de sinais), beneficiando os que têm deficiências cognitivas ou surdez, entre outros.

Como afirmou Tim O'Reilly, co-autor do conceito de Web 2.0, a revolução que vivemos reside no modo como capturamos e coordenamos dados. A etapa seguinte seria disponibilizar estas informações ao maior número possível de indivíduos – inclusive aos heavy users da Sociedade da Informação, aos que usam palmtops modernosos em vez de terminais antigos, ou aos que têm vista cansada ou daltonismo. Sites acessíveis também obtém melhores posicionamentos no Google, carregam mais rápido, são mais baratos de desenvolver e hospedar e simples de atualizar.

Mais interessantes serão as vantagens se eles estiveram baseados em arquiteturas interoperáveis (como a desenhada por nosso projeto federal e-PING, os Padrões de Interoperabilidade de Governo Eletrônico), as quais permitem que sistemas de informação com aplicações diferentes e desenvolvidas em épocas distintas possam gerar e trocar dados em tempo real. Padrões já popularizados por aqui, como o XML (eXtensible Markup Language, que alimenta os "feeds" de notícias, por exemplo) e o CSS (Cascading Style Sheets), são só o começo de uma caminhada rumo à acessibilidade.

Vale lembrar que, segundo a ONU, há 500 milhões de pessoas com deficiência no mundo e que, no Brasil, elas representavam cerca de 14,5% da população em 2006 (de acordo com dados do IBGE). A média nacional de empregabilidade desta parcela é considerada baixíssima e apenas cinco estados superam a cota exigida por lei (de 2%). A população de brasileiros acima dos 60 anos também aumenta, acompanhando a evolução da qualidade de vida, e corresponde a cerca de 9,7% do total de habitantes do país. Em breve, os desenvolvedores web de hoje integrarão este grupo...

Apesar dos muitos pecados ainda cometidos no cenário da acessibilidade digital, há notícias instigantes e animadoras sobre o tema. Uma delas vem da Irlanda, cuja filial da IBM anunciou a realização de um interessante projeto com participação de estudantes e equipes de consultores cegos de Dublin e dos Estados Unidos. A idéia é garantir a presença dos que não podem enxergar em mundos virtuais como o Second Life, desenvolvendo ferramentas para facilitar a navegação, como um sistema de áudio que utiliza sons para dar sensação de espaço (simulando com riqueza detalhes situações como o farfalhar das folhas, quando o internauta se aproxima de uma árvore), informar sobre a presença de objetos e suas posições relativas, informar as inscrições de uma caixa de mensagens (convertendo texto em voz) ou permitir a conversa com outros usuários do sistema.
 
A Itália também vem testando uma solução-piloto de GPS para cegos (o Easy Walk) instalada em celulares com sistema operacional Symbian, que fornece a localização precisa do usuário a qualquer hora do dia com a ajuda de um receptor GPS com conexão Bluetooth e um conversor de textos.

Por aqui, a novidade é o anúncio do Ministério das Comunicações de liberar os primeiros 7 milhões de reais do Fust para projetos de inclusão digital destinados a usuários surdos-mudos, ainda este ano. O sucesso de softwares nacionais como o Letra (Leitura Eletrônica) e o Dosvox, para deficientes visuais, e do projeto DaSilva, que avalia a acessibilidade de sites, também nos enche de orgulho, mas não podemos parar por aí.

E você, profissional da informação, está preparado para construir uma Web 2.0 verdadeiramente inclusiva e democrática?

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