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Uma empresa com ombro amigo

Mesmo com salários abaixo da média de mercado, funcionários da Kaizen sentem-se felizes na empresa e oferecem ajuda em relação a assuntos corporativos pela simples alegria de colaborar

Por Luiza Dalmazo, do COMPUTERWORLD

30 de novembro de 2006 - 08h00
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Em outubro, o som das guitarras embalou os projetos e negócios da integradora e desenvolvedora de soluções, Kaizen, campeã da dimensão Camaradagem da pesquisa as Melhores empresas para trabalhar – TI e telecom 2006. Durante semanas a fio, os músicos, que também são diretores, analistas e arquitetos de TI, ensaiaram após o expediente para estar preparados para o primeiro KaizenRock. No grande dia, quando foi anunciada a abertura do festival, realizado em Indaiatuba (SP), as estrelas da empresa entraram em cena e encontraram uma platéia uniformizada, usando camisetas preparadas pelos funcionários e se divertindo com videoclips, também produzidos internamente.

O resultado do evento não envolve nenhuma compensação financeira. Mesmo assim, mais de 200 pessoas deixaram suas casas para encontrar e privilegiar seus colegas de trabalho. Ao todo, 25 empregados se envolveram na organização do festival, o que excluiu a necessidade de contratar qualquer serviço externo, inclusive para a criação do logo e dos vídeos apresentados na festa. “Estamos contentes porque a avaliação interna foi bastante positiva, segundo pesquisa realizada na intranet”, conta o diretor de gestão de talentos, Daniel Dystyler.

Atividades paralelas como essa – e não poucos os exemplos –, para o executivo, não afetam o comprometimento com o trabalho. “Acho que, ao contrário disso, a distração ajuda no rendimento e gera um impacto na integração das pessoas, fazendo todos remarem na mesma direção”, revela.

A propósito, a companhia eleita como a mais camarada do setor pelo instituto Great Place to Work é especialista em criar momentos de integração dos funcionários. Ao longo do ano, em diversas ocasiões, todos os mais de 160 funcionários têm diversas oportunidades de se encontrar em momentos não relacionados ao trabalho. Em julho e dezembro, por exemplo, acontecem os ChurrasKaizen. Na primeira edição é feita a apresentação dos resultados, além da revisão e alinhamento de metas e estratégias, enquanto em dezembro a reunião é só de festa e comemoração do final do ano com os familiares.

Além disso, em todas as últimas sextas-feiras do mês acontecem happy hours na própria empresa, sem contar o Kinta na Adega, que é um encontro às quintas-feiras em um bar da região, e o Arraial Kaizen, a já tradicional festa junina. O mais curioso é que não é a companhia quem banca os custos para essas iniciativas – à exceção dos churrascos com foco na apresentação de resultados. “Alguns dias, lá pelas três da tarde, alguém se levanta e passa o chapéu arrecadando fundos para comprar os itens da festa. E cada um contribui com o que tem naquela hora”, conta Dystyler.

Origem da tradição
Esse espírito amigo e integrado da companhia não surgiu por acaso e nem de um dia para o outro. Tudo começou com a idealização da empresa, que nunca esteve relacionada apenas à obtenção de lucro. “Quando criei a empresa, pensava mesmo em ter um bom lugar para eu trabalhar. Se ganhasse a mesma coisa que na companhia para qual trabalhava e estivesse em um ambiente melhor, para mim estava bom”, conta o diretor e um dos fundadores da empresa, Alexandre Picchi Neves, durante um bate-papo na Bat Caverna – as salas de reuniões e máquinas da empresa são batizadas com nomes emprestados dos desenhos animados, como Sprigsfield, Sala da Justiça e o servidor Asterix.

O princípio dos sócios somado a outro ligado ao nome Kaizen – ideologia japonesa que defende a melhoria contínua – resultou na construção da empresa e no premiado ambiente corporativo. A satisfação dos funcionários que atuam em Indaiatuba, interior de São Paulo, fica evidente logo na recepção. Todos os que cruzam o hall de entrada passam sorrindo e dizendo “bom dia” para os desconhecidos que esperam ser chamados. O clima descontraído pode ser percebido até mesmo nas roupas e, segundo o diretor de gestão de talentos da Kaizen, é estendido também para o vocabulário usado em comunicados de eventos e iniciativas de confraternização, deixando formalidades para outras ocasiões.

Outro dado que representa a característica da empresa, fundada há doze anos, é a taxa de rotatividade de funcionários (turn over), que atualmente é de 3,4%, contra uma média de 20% do mercado de TI, segundo os executivos da companhia. “No último ano, dois funcionários saíram para vagas muito boas nos Estados Unidos. Esse tipo de oportunidade compõe o principal motivo para as pessoas saírem da Kaizen”, explica Dystyler.

Apesar de há cerca de seis anos a Kaizen medir a satisfação dos usuários por meio de mecanismos oficiais de comunicação, como o Canal Anônimo, a Pesquisa Interna, intranet e os canais abertos diários – não existem salas para os diretores, que ficam em baias para facilitar a aproximação dos gestores e equipe –, ainda havia desafios. Portanto, para oficializar práticas de gerenciamento de pessoas, na primeira metade deste ano a companhia criou o departamento de gestão de talentos.

A primeira ação de destaque da área foi refazer o plano de carreira e reorganizar cargos – inclusive com novas denominações –, para saber se a empresa estava pagando de acordo com a média de mercado. Depois disso, também foi criado um conselho, que logo se transformou em um comitê. “A diferença é que no primeiro os diretores participavam. Hoje em dia a gente não presencia, para que as pessoas fiquem mais a vontade para reclamar e pensar em sugestões”, conta Neves.

Transparência
Outra iniciativa que causa surpresa é que a Kaizen divulga na intranet da empresa todos os salários pagos. “É hipocrisia dizer que ninguém sabe quanto o colega ganha. Todo o mundo sabe. Então, junto com o valor da receita referente ao cargo, está a descrição da tarefa, para que as pessoas consigam entender por que um analista sênior recebe mais do que um júnior”, explica o diretor de gestão de talentos. Na visão da companhia, essa postura torna clara as responsabilidades de cada um e ainda funciona como um direcionador de carreiras.

Os executivos contam que transparência com os resultados também é uma mania. “Já mostrei até resultados horríveis”, revela Neves. Essa prática de dizer a verdade e de camaradagem também ficam representada no fato de a empresa não ter um presidente. “Isso ainda não nos atrapalha nas decisões e acho que nem faz diferença, porque mesmo um presidente consultaria os diretores antes das decisões”, aposta o diretor. Atualmente, existem oito diretorias (gestão de talentos, marketing, infra-estrutura, negócios, comercial, serviços, finanças e operações) e sete diretores, já que o próprio Neves acumula duas funções. As decisões são todas tomadas em conjunto.

Mas não se engane: por mais que os resultados da Kaizen quanto a satisfação da equipe sejam positivos, a empresa sabe que precisa melhorar. Tanto que, depois da criação da área de gestão de talentos, a empresa já definiu suas prioridades. “Estamos pensando na política de benefícios, em como podemos ajudar ainda mais as mulheres e também no desenvolvimento de lideranças e os salários”, enumera o fundador, que faz questão de assumir uma postura mais crítica e ácida em sua análise.

Outro desafio da empresa é propagar o espírito camarada para os novos funcionários, já que a companhia está crescendo em um ritmo acelerado (em 2005 cresceu 63% e neste ano deverá crescer 50%, segundo os diretores). Para isso, a Kaizen possui duas estratégias: o KI (“Kuem” Indica) e o PIK (Pontapé Inicial Kaizen). O primeiro acontece durante o processo de seleção. Sempre que surge uma vaga, os diretores mandam um e-mail para os funcionários explicando o perfil do candidato desejado. Todos podem chamar amigos para o processo e, se o profissional passar pela seleção e permanecer mais de seis meses na companhia, quem indicou recebe um prêmio em dinheiro. “Essa prática nem surgiu com esse intuito, mas teve um resultado melhor do que imaginávamos, porque muitas vezes o novo funcionário até já participou do ChurrasKaizen e conhece a filosofia da empresa”, comemora Dystyler.

Já o PIK é uma espécie de treinamento inicial, feito para os recém-contratados. A intenção é diminuir o tempo de adaptação da pessoa, apresentando o funcionamento e a história da empresa. “Neste momento, mostramos que apesar de muito alegres nos momentos de descontração, temos um valor que é o de ‘paranóia’ com a qualidade dos serviços que prestamos. Exigimos comprometimento total”, explica o diretor de gestão de talentos.

Dinheiro é o que interessa
Como se não bastasse, os funcionários da Kaizen também desfrutam de ginástica laboral às segundas e quartas-feiras, personal trainer para treino de corrida às terças e quintas, além de acordos com salões de beleza. Mas o benefício que certamente mais deixa os empregados da companhia felizes vai direto ao ponto: de todo o lucro da empresa, 20% é divido pela equipe. E não há um teto para esse valor. “Isso é legal porque se eles economizam, o ganho é de todos. E, além disso, essa medida faz todos remarem na mesma direção, com força máxima”, acredita Dystyler.

As iniciativas da Kaizen servem para mostrar que a empresa não se limita a defender um bom ambiente de trabalho apenas como discurso, ou como parte de uma placa exposta na parede. Na hora de listar os valores da companhia, os fundadores se viram em uma situação inusitada. Depois de definir como prioridades preocupações com ética, criação de um ambiente de trabalho que proporcione o crescimento, qualidade na execução e no atendimento aos clientes e compartilhar com a sociedade o sucesso da organização, foi necessário incluir o valor “obter lucro”. “Sim, tivemos de colocar entre os nossos valores que lucro é importante, porque senão corremos o risco de perder isso de vista. Isso mostra que nossa prioridade sempre foi, realmente, criar uma empresa amiga”, conclui o diretor e fundador Neves.

Iniciativas que integram e propagam o espírito de equipe
Confira alguns dos mecanismos de integração da Kaizen, que levaram a empresa a obter nota máxima no item camaradagem de 100% dos empregados em pesquisa interna

- ChurrasKaizen – acontece duas vezes ao ano. Em dezembro, para a confraternização dos funcionários e familiares, e em julho, depois do primeiro semestre, para apresentação dos resultados financeiros e estratégias

- Kick-off – realizado em janeiro, é um evento oficial, pago pela Kaizen para detalhar metas, resultados e fazer com que todos os funcionários remem na mesma direção

- Cidade treme – em fevereiro celebra-se numa festa o aniversário da companhia

- Arraial Kaizen – festa junina em que participam familiares e funcionários

- Kinta na Adega – todas as quintas-feiras, pessoas da empresa podem ir ao happy hour em um bar próximo à empresa

- Ultima sexta do mês – happy hour acontece na própria empresa. “No meio da tarde os funcionários passam um chapéu e reúnem contribuições. Não é a Kaizen quem paga tudo”, conta Daniel Dystyler, diretor de gestão de talentos

- KaizenRock – criado recentemente com apresentação das bandas de rock dos funcionários. Os empregados também criaram o logo, fizeram ações de merchandising e preparam videoclips para exibição no evento

- Dia do Manaém – em julho, funcionários fazem trabalho voluntário na Manaém, instituição de caridade voltada ao atendimento a crianças, da qual a Kaizen é parceira. Em um dia, por exemplo, os funcionários pintaram toda a sede. A instituição, em 1999, quando foi firmada a parceria, atendia a 14 crianças. Hoje são quase 200.

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