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Um escritor para mudar a história da saúde pública

Desde que o médico, programador, professor e romancista Márcio Amaral se tornou o CIO do Hospital das Clínicas, o roteiro mudou e a modernização se tornou possível

Por Luiza Dalmazo, do COMPUTERWORLD

31 de agosto de 2007 - 00h00
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Em viagem pela Europa, o rapaz se apaixona. Durante passeios românticos, encontra um manuscrito antigo e parte com a garota para decifrá-lo, buscando informações em museus de países como Itália, Grécia e França. Se entenderem a mensagem, poderão ser os novos donos de um tesouro. A saga – um tanto autobiográfica – é a história do romance “Um novo amanhecer”, escrito em 1998, mas não publicado. Quem lê, nem desconfia que o autor é o CIO do Hospital das Clínicas, Márcio B. do Amaral, que no futuro planeja levar mais a sério a atividade de escritor.

A dificuldade de buscar informações e respostas ao enigma às vezes é parecida com a rotina do profissional no maior hospital da América Latina. Antes de assumir o cargo, por exemplo, em 2003, ficou em dúvida se deveria ou não enfrentar o perigo, porque o desafio era grande. O comitê de informações composto por 16 gerentes era desunido – alguns deles nem conversavam –, muitos equipamentos tinham oito anos, estavam obsoletos e não havia peças de reposição, nem suporte do fabricante. “Cada um dos prédios, liderados por gerentes diferentes, eram suportados por sistemas que não integrados e que nem sequer se falavam”, conta o executivo.

Mas Amaral mudou o rumo da história e transformou o cenário. Hoje ele se orgulha em dizer que conseguiu implementar uma nova rede com 300 switches, transformou-a de megabit para gigabit, construiu um data center com 20 racks onde estão os servidores e viabilizou a prescrição eletrônica de medicamentos. “Foi acima de tudo foi um trabalho de convencimento, racionalização, transparência e democracia”, resume.

Todas as mudanças começaram quando Amaral, em conjunto com a diretoria, traçou o plano estratégico, que definiu o que precisava ser feito, seguido do plano diretor que desenhou como as ações deveriam ser alcançadas no período entre 2005 e 2008. “Tudo isso fez com que conseguíssemos ter uma rede com cinco mil computadores e mais 200 servidores distribuídos nos data centers que apóiam as informações da área administrativa e de assistência médica”, detalha.

Outro projeto que recebeu atenção foi a unificação das tecnologias da informação distribuídas. Os dados passaram a ficar concentrados em um portal, que tem a versão aberta ao público, com informações úteis para a comunidade, e também os restritos, que ficam na intranet e têm a função de melhorar a comunicação interna. “Há três anos as reuniões eram convocadas via documentos impressos, mas a nova infra-estrutura e a centralização dos dados permitiram a mudança do quadro e a economia de toneladas de papel”, explica Amaral.

O projeto de implantação da prescrição eletrônica de medicamentos foi outra iniciativa que fez com que os recursos do hospital – que atende a 1,5 milhão de pacientes por ano – fossem usados de forma mais racional. “Os gastos caíram em 12%”, comemora o CIO. Outro demonstrativo da evolução é a liberação do resultado dos exames. Hoje, o tempo que leva entre a conclusão de um teste e o acesso a ele em qualquer um dos 5 mil pontos é de apenas dois segundos.

Com o apoio dos médicos diretores de cada área e diretoria – são feitas reuniões a cada 15 dias para discussão do andamento dos projetos – Amaral espera concluir a implementação de um sistema de business intelligence (BI) até o final de 2007. O sistema está em testes há um ano e, no período previsto, deve ser entregue para uso de 10 diretores. “O objetivo é aumentar a eficiência dos processos hospitalares, para que a TI viabilize um painel de indicadores online em tempo real”, afirma. Além disso, o foco é o alinhamento do mapa estratégico com o plano de ação, o sistema de balanced scorecard e os indicadores citados.

Para que tudo corra como o planejado, o Hospital das Clínicas também trabalha no treinamento e certificação de alguns profissionais em sistemas de governança como a biblioteca de melhores práticas (ITIL) e nas certificações ISO 20000 e 27000, que devem ser conquistadas até 2009. Nesse mesmo período, Amaral pretende ter estruturados projetos de telemedicina, sinônimo de inovação quando se fala em saúde.

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No começo, a idéia é ter apenas atendimentos à distância. Assim, o paciente não precisa se deslocar da periferia até o centro para conversar com um médico. “A partir do posto de saúde isso é possível, mas desde que haja uma integração da rede universitária de telemedicina, o que está sendo feita pelo ministério da Ciência e Tecnologia do governo federal, que não é para quem nos reportamos e por isso demora mais”, conta o CIO.

A história do Hospital das Clínicas, hoje, segue outro curso e quem escreve essas linhas não é apenas o CIO, mas sim cada um dos 13 mil funcionários divididos em turnos, que precisam se acostumar a usar as tecnologias e mudar velhos hábitos. Mas, se ninguém resistir, o resultado pode ser, como no romance de Amaral, um tesouro. Não de moedas e pedras preciosas, como o tradicional dos filmes, mas sim um retorno mais proveitoso, que é uma oferta de saúde com mais qualidade aos cidadãos brasileiros.

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