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Gestão

Os porquês da governança de TI

Com a multiplicação das atribuições dos CIOs (Chiefs Information Officer), a governança tecnológica aparece como alternativa para organizar o trabalho burocrático e poupar o tempo do executivo que agora precisa participar das decisões estratégicas.

17 de setembro de 2002 - 11h02
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Poupar tempo. Foi este o propósito de Ruy Shiozawa, vice-presidente de TI da GVT, ao apresentar o programa de treinamento intensivo, chamado internamente de Academia de TI. A partir daquele momento até o final deste ano, a área de Tecnologia da Informação da operadora de telecom estará dedicada à definição de métricas e avaliações de processos a fim de colocar em prática o conceito de governança tecnológica.

O programa é baseado na metodologia Cobit (Control Objectives for Information and related Technology). Foram dois meses de planejamento em como, por meio desses recursos, reduzir os gastos e investimentos num momento em que o setor do qual a empresa participa exige altos gastos com tecnologias como CRM (Customer Relationship Management) e billing.

“Este projeto tem quatro níveis: mecanismo de avaliação da maturidade e desenvolvimento dos sistemas; processo de qualidade, similar ao ISO 9000, com padrões World Class; orientação a objetos; e implementação do conceito de metadados e dicionário de dados”, explica Shiozawa.

A iniciativa do vice-presidente da GVT exemplifica o comportamento de vários CIOs (Chiefs Information Officer), que nos últimos dois anos reforçaram o interesse pela governança tecnológica. O objetivo é identificar e catalogar, de forma organizada, a infra-estrutura de software, hardware e gerenciamento dos contratos de outsourcing, reduzir custos e desenhar projetos. Tudo para que o executivo ainda tenha tempo para a participar ativamente das discussões estratégicas com a cúpula da empresa.

Para mapear e definir quem faz o quê e como, a metodologia Cobit, criada pelo IT Governance Institute (com sede nos Estados Unidos), é a base da governança tecnológica. Esse método apóia-se em frameworks, voltados à padronização da administração tecnológica, sustentados por cinco pilares (planejamento; aquisição e implantação; entrega; suporte; e monitoramento) e milhares de domínios – implementados de acordo com a necessidade e modelo do negócio – cuja excelência é medida com pontuações de um a cinco.

Segundo Sergio Lozinsky, consultor da PwC Consulting, o País não está distante do movimento mundial e o tema veio à tona principalmente depois da queda da Nasdaq e dos ataques de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. “A governança de TI é cada vez mais discutida porque houve uma percepção do CEO (Chief Executive Officer) de que a tecnologia era, muitas vezes, fator estratégico para levar o negócio adiante.”

A administração deste departamento é complexa, principalmente quando áreas usuárias adotam sistemas que não são do conhecimento do CIO e provocam problemas posteriores relacionados ao controle da multiplicidade de aplicações.

“Hoje, a gestão da TI está solta. Existe uma série de contratos de outsourcing, surgem novas tecnologias, o investimento precisa ser justificado e há múltiplas integrações de sistemas com fornecedores distintos. Por isso, é preciso parametrizar”, observa Salvador Perroti, presidente do ITS (Instituto de Tecnologia de Software) e diretor do grupo setorial de TI e do conselho de estratégia da Abdib (Associação Brasileira da Indústria de Base).

A afirmação de Perroti comprova-se em pesquisa do Gartner. Segundo o instituto, 60% dos contratos são fechados com múltiplos fornecedores; 50% deles estão em constante negociação; 75% são baseados em SLA (Service Level Agreement), sendo que somente 30% são medidos; e 70% possuem processos e metodologias com sustentação inadequada.

“Poucas corporações têm um programa de análise dos sistemas de TI, e talvez por isso esse ainda não seja um nicho explorado pelos fornecedores”, diz Wandair Josi Garcia, gerente de Informática da Weg. “A exploração do tema”, analisa Perroti, “surgiu depois que a TI deixou de ser vista como suporte dentro da corporação e que houve a revolução da Internet, sucedida pela queda das pontocom e pelas melhorias dos serviços de telecomunicações.”

Ione Coco, analista de pesquisa do Gartner, remete outro fator pelo qual o tema começa a borbulhar. “É preciso definir responsabilidades (budget, quem compra o quê e como, entre outros assuntos).” Ela observa, ainda, que como a tecnologia está presente em todas as unidades de negócio da companhia, muitos usuários, por acreditar que entendem do assunto, implementam sistemas sem aviso prévio, dando início aos atritos.

Dois em um

Independente das várias definições dos institutos de pesquisa, consultorias e dos próprios CIOs, a governança tecnológica está inserida no contexto de governança corporativa. Para iniciar esse novo modelo de gestão da TI, Julio Vigorito, especializado no assunto há cerca de 20 anos, observa que algumas questões elementares devem ser esclarecidas, entre elas o número de vezes que os projetos de TI fracassam.

Assim como na Abdib – entidade que congrega 180 grupos empresariais da indústria de base e infra-estrutura, somando 1.200 empresas – que através de seu comitê de TI criou um grupo de discussão para implantar a metodologia nas companhias, no Paraná, 50 CIOs já começam a se movimentar em torno do assunto.

Clécio Chiamulera, diretor executivo, administrativo, financeiro e de TI da Unimed Curitiba, revela que 11 corporações da região Sul participam ativamente das discussões (Renault, GVT, Electrolux, Unimed Curitiba, Volvo, O Boticário, Inepar, Positivo, PUC, Spaipas e Weg).

“A idéia é debater a padronização das práticas de TI por meio da constituição dos frameworks do Cobit”, explica Chiamulera, ao explicar que esse é o princípio da governança tecnológica, e que esses parâmetros independem do setor que a companhia atua.

O executivo lembra que o tema surgiu em uma das reuniões do grupo em maio, quando se discutia os benchmarks. A conclusão, à época, foi que cada um gerenciava os custos e investimentos a sua maneira. “Precisamos dar um passo para trás, o que exige a padronização e reavaliação do gerenciamento dos processos de tecnologia, para depois comparar e apontar quem tem competência em quê e como fazer ou adotar.”

Ione Coco recomenda perspicácia ao CIO no momento de implementar a governança de TI. “Deve haver uma rigidez na formatação, mas sem impedir a evolução do negócio da companhia.”

Pilares da governança
A metodologia Cobit é a base da governança tecnológica e apóia-se em milhares de domínios e em frameworks sustentados por cinco pilares:

  • planejamento
  • aquisição e implantação
  • entrega
  • suporte
  • monitoramento
  • Os porquês da governança de TI

    A associação do CIO (Chief Information Officer) à figura de negócios remete a algumas perguntas que têm transformado as noites desses executivos num verdadeiro “pesadelo contemporâneo”. Questões como a disponibilidade de recursos financeiros e de infra-estrutura, além do esforço da área de Tecnologia da Informação (TI) para apagar incêndios ao invés de melhorar o negócio permeiam o rol de preocupações e são debatidas em fóruns e grupos de diretores de TI para atingir as melhores práticas.

    Embora os associados da Abdib ou do grupo de CIOs do Paraná – entidades que reúnem grandes companhias do País – iniciarem as discussões sobre governança tecnológica apenas este ano, cada corporação já possui uma cultura distinta e o tema é levado para dentro de casa com o envolvimento da equipe de tecnologia e os respectivos comitês corporativos.

    Essas empresas, a exemplo da Spaipas S/A – Indústria Brasileira de Bebidas (fabricante de Coca-Cola e Kaiser), sediada na região Sul – já possuem, de certa forma, uma governança corporativa baseada em indicadores de performance do negócio e metodologias como o Balance ScoredCard (BSC). Cláudio Antônio Fontes, gerente da divisão de tecnologia da informação da companhia, explica que a organização possui indicadores chaves que ainda não chegam a usar as ferramentas do BSC, e a TI vinha de um processo de governança sem estrutura.

    A Unimed Curitiba ainda está num estágio de avaliação de como implementar os requisitos exigidos pelo Cobit (veja página 10), mas a idéia é padronizar o gerenciamento com indicadores capazes de medir cada ação ou projeto implementado, seja terceirizado ou não.

    Na opinião de Pedro Masi, CIO da administradora de assistência médica, a discussão sobre governança de TI surgiu porque hoje cada vez mais os profissionais estão inseridos no contexto tecnológico, o que criou uma dependência nas empresas.

    Para Wandair Josi Garcia, gerente de informática da Weg, a longo prazo, a tendência é de que o setor seja capaz de se auto-gerenciar e o CIO liberado para discutir os processos da companhia. “Isso requer uma melhoria no controle dos projetos terceirizados.”

    Henrique Admczyk, gerente de TI de O Boticário, concorda com Garcia quando avalia que o pano de fundo da governança é ter as rédeas do negócio. “Através dessa ótica é que iniciamos um mapeamento dos gargalos nos diferentes sistemas da empresa”, diz Adamczyk. Ele observa que grandes corporações apresentam dificuldade para avaliar esse processo.

    O executivo de O Boticário acrescenta que outra medida é estabelecer papéis, responsabilidades e limites entre o departamento de tecnologia e as áreas usuárias. “É comum o desenvolvimento e até a concepção de um projeto sem a participação da TI, e isso reflete, posteriormente, na infra-estrutura de comunicação, gerando ônus para corrigir o problema”, observa Admczyk.

    |Computerworld - Edição 371 - 04/09/2002|

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