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Gestão

Abertura de capital requer mudanças na TI

Natura, Gol e ALL, que recentemente começaram a negociar ações, refinam seus processos de governança e transparência corporativa para se ajustar às demandas do mercado.

30 de julho de 2004 - 11h51
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Ricardo Cesar

Quando uma empresa lança ações em bolsa de valores há uma série de exigências a serem cumpridas. A companhia precisa ser transparente para os novos acionistas. Os dados devem ser facilmente encontrados e auditados. A cotação dos papéis sofre influência da percepção que o mercado tem de questões como governança corporativa, instituição de melhores práticas e segurança das operações críticas.

Essa foi a realidade que bateu à porta dos departamentos de TI da Natura, Gol Linhas Aéreas e ALL (América Latina Logística), as três empresas nacionais que fizeram suas ofertas iniciais de ações na Bovespa nos últimos meses com grande sucesso.

Em nenhum dos casos houve uma guinada brusca nas atribuições da área de tecnologia por conta da estréia em bolsa. Nos três exemplos – como, aliás, é praxe -, as estreantes tiveram um longo processo de preparação para a abertura de capital, no qual o departamento de TI foi inserido. “Já tínhamos um modelo de gestão participativo e transparente para os usuários. Por isso, não tivemos que correr para fazer modificações na hora de abrir capital”, diz Italo Gennaro Flammia, diretor de TI da Natura, empresa que iniciou a corrida nacional à Bovespa.

Mesmo assim, Flammia conta que sua área começou a dar muito mais importância para processos e métodos quando a empresa anunciou que abriria capital. “A informalidade começa a desaparecer. Antes tomávamos uma decisão no corredor. Agora as decisões precisam ser discutidas, embasadas, os critérios devem ser transparentes e ficar registrados”, afirma. “A preocupação com segurança da informação também aumentou.”

A exemplo de suas duas companheiras de Bovespa, a ALL possui práticas de TI atuais e se submeteu a modificações mínimas, pois seus principais sistemas foram trocados recentemente, após a privatização da malha ferroviária em 1997. A diferença, explica a gerente de TI da companhia, Thais Falqueto, é que a holding da companhia de logística possui, desde dezembro de 2003, um braço voltado para o fornecimento de tecnologia ao mercado. Trata-se da ALL Tecnologia, empresa do grupo que comercializa o Translogic Ferroviário, um software que controla frotas e faz gestão de recursos ferroviários e que prepara o lançamento da versão para rodovias do produto e do sistema operador logístico (SOL), que integra a área de logística. Por isso, os resultados da TI serão analisados com cuidado pelos investidores – nesse caso, não tanto como usuário, mas sobretudo no papel de fornecedor.

Governança

Apesar de contar com estruturas de TI bem azeitadas, as três debutantes nacionais em bolsa de valores tiveram que promover alguns ajustes para se adaptarem à nova situação. Para atender à necessidade de informações, a Natura e a Gol já desenvolveram Web sites de relações com investidores, enquanto a ALL pretende finalizar o seu até agosto. “Estamos no nível 2 da Bovespa, o que exige práticas que levem a total transparência da empresa para os acionistas. O site de relações com investidores atende a essas demandas”, afirma Wilson Maciel Ramos, vice-presidente de gestão e TI da Gol.

Talvez o impacto mais profundo que a abertura de capital causou nas áreas de TI das empresas nacionais seja o foco em governança corporativa. A preocupação não é nova para essas empresas, mas foi intensificada e acelerada com a entrada em bolsa de valores. Flammia, da Natura, afirma que a empresa investe em governança há pelo menos quatro anos, com participação direta da área de tecnologia – um dos fatores que ajudaram na estréia na Bovespa.

Já a Gol acelerou seus planos nessa área. A empresa acaba de criar um comitê interno, presidido pelo vice-presidente de TI e composto por 13 integrantes com nível de diretoria, que entre agosto e setembro receberá sugestões e demandas de projetos. O objetivo é fazer um estudo de viabilidade econômica e relevância para os negócios e selecionar o que entrará no orçamento da empresa do ano seguinte.

À implantação do comitê, a empresa soma a aplicação dos preceitos do CoBIT (Control Objectives for Information and Related Technologies). “Por força de vender ações na bolsa de Nova York somos obrigados a analisar nossos processos com base no CoBIT. Faríamos isso de qualquer forma, mas agora aumentou a urgência”, diz Ramos, explicando que a negociação nos EUA obriga a Gol a seguir as diretrizes da lei Sarbanes-Oxley. “A idéia é estruturar uma área de TI que seja aderida ao modelo de governança exigido pelo mercado.”

NATURA
Um dos maiores fabricantes de cosméticos e produtos de higiene e perfumaria a atuar no mercado nacional, com receita bruta de R$ 1,9 bilhão em 2003.

Bolsa de valores – A oferta pública inicial de ações ocorrida em 26/05/04 fez da Natura a primeira empresa a lançar ações na Bovespa desde fevereiro de 2002. Com seus papéis negociados a R$ 36,50, a companhia levantou mais de R$ 678 milhões.

Estrutura de TI – A área de TI possui cerca de 80 funcionários e igual número de terceirizados. O ERP é da SAP, complementado por software específicos, como a solução de BI da Microstrategy, alguns sistemas comerciais e um portal que integra diversos públicos. A infra-estrutura é composta por servidores Unix de diversos fornecedores (maioria HP), com arquitetura de desenvolvimento Java e banco de dados Oracle e Sybase. Há também diversos servidores Intel.

O que mudou em TI – Com a abertura de capital, o departamento de informática passou a dar mais atenção a processos. A parte de segurança da informação ganhou mais peso devido à necessidade de minimizar riscos. Foi feito um web site de relacionamento com o consumidor.

GOL
A empresa cresceu rapidamente e no primeiro trimestre de 2004 tinha participação de mercado de 22,5%. A Gol registrou um lucro líquido de R$ 113 milhões em 2003.

Bolsa de valores – A estréia na Bovespa ocorreu em 24/06/04. As ações também foram negociadas em Nova York via ADRs e tiveram imediatamente uma valorização de 12% no mercado norte-americano. A companhia captou cerca de US$ 284 milhões.

Estrutura de TI – Há um data center situado nos EUA que responde por reservas e vendas e outro no Brasil, a cargo da Optiglobe, responsável pelos sistemas gerais, incluindo o ERP – uma solução Oracle integrada à parte de RH da RM Sistemas. O provedor de telecomunicações é a Telemar, que assume toda a gestão da rede. As 24 pessoas que compõem a equipe de TI ficam livres para se dedicar a buscar melhorias.

O que mudou em TI – A companhia desenvolveu um site de relacionamento com os fornecedores e aprofundou a analise dos processos internos com base no CoBIT. Foi criado um comitê para analisar a viabilidade de projetos que exigem a utilização de TI.

ALL
Possui 15 mil quilômetros de vias férreas no Brasil e Argentina e uma frota com cerca de 2,5 mil veículos. No primeiro trimestre deste ano, a ALL registrou lucro de R$ 6,5 milhões.

Bolsa de valores – As ações começaram a ser negociadas em 25/6/04 com o papel fechando cotado a R$ 52,79, uma alta de 13,16%.

Estrutura de TI - Os cerca de 26 funcionários da área de TI, entre terceirizados e contratados, gerenciam uma estrutura que conta com um sistema da SAP e o Translogic, um software desenvolvido internamente que faz gestão de transporte ferroviário. O SAP roda em servidores Risc, enquanto o restante está em plataforma Intel com Windows e Linux. O banco de dados é Oracle e grande parte do hardware é IBM e Dell.

O que mudou em TI – A empresa está desenvolvendo um web site de relacionamento com investidores e tem entre suas apostas a ALL Tecnologia, braço da empresa que fornece sistemas. 

|Computerworld - Edição 413 - 21/07/2004|

Opinião do Leitor
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