Especial carreira: troque de emprego em 2006
Talento, jogo de cintura, e altíssima capacidade analítica são três dos vários pré-requisitos para a construção de uma bela carreira na área de TI. Boa universidade e MBA ligado a negócios não são mais diferenciais para quem quer chegar ao topo. Leia especial.
No princípio, era o cartão perfurado. A famosa geração dos mainframes 1401, máquinas possantes com 4 Kb de memória, sem terminais, quatro fitas magnéticas, perfuradora de cartões e impressoras faziam o processamento dos dados de grandes empresas, bancos principalmente, governo e universidades. Era época do chamado milagre econômico, no início dos anos 70.
Os profissionais da área, então neófitos em tecnologia de computação, eram selecionados entre os funcionários das empresas ou recrutados entre os formandos das faculdades de engenharia de produção, eletrônica, mecânica e matemática, mais afeitos aos ensinamentos da lógica. O treinamento - curtíssimo -, de análise de sistema e programação, era dado pelos três grandes fornecedores de equipamentos da época, IBM, Univac e Burroughs.
Passados 35 anos, em que ficam longe os tempos de proteção governamental da reserva de mercado, seguidos da derrubada das barreiras de importação de equipamentos, em 1992, que abriu definitivamente as portas do país aos fabricantes internacionais, o mercado brasileiro de TI (Tecnologia da Informação) alcança outra dimensão: a indústria de equipamentos está mais do que consolidada, o Brasil é um dos maiores usuários de informática do mundo, os cursos profissionalizantes proliferam em escala exponencial e o País vivencia a expectativa de um novo cenário de oportunidades.
No entanto, em vez de se basear no hardware, como acreditavam os adeptos da reserva de mercado, a grande chance de sucesso para as empresas e seus profissionais de TI está, agora, nas áreas de serviço e desenvolvimento de software. Pelo menos é o que avaliam empresários, executivos, consultores e dirigentes de entidades de classe do setor de informática brasileiro, que participaram, nas últimas décadas, da história do desenvolvimento tecnológico do País. "A grande oportunidade que o Brasil tem nesse momento é a exportação de software e serviços. Mais importante até do que foi o desenvolvimento da indústria nos tempos da reserva de mercado", resume Antônio Carlos Rego Gil, presidente da CPM, que lidera o movimento da Brasscom - Associação das Empresas de Software e Serviços para Exportação visando o incremento dos negócios com produtos nacionais no exterior.
Razões não faltam, segundo Rego Gil. "O Brasil continua tendo um mercado interno muito grande, um dos dez maiores do mundo. É muito bom em vários segmentos de indústrias, como o de automação bancária. Criou uma população de engenheiros, analistas de sistemas e técnicos em computação de alta capacidade, que domina bem o conhecimento do mercado. Então, trata-se agora de fazer um dramático esforço na direção de ser um fornecedor importante no mercado mundial de software", afirma Gil, engenheiro de produção formado pelo ITA, que começou a trabalhar em 1961 na IBM, onde exerceu, até 1986, vários cargos de comando, inclusive o de CEO, e presidiu outras empresas do setor de informática e telecomunicações, como SDI e Lucent.
Foi uma longa jornada até aqui, sem dúvida. Num tempo em que o foco era essencialmente operar grandes sistemas centralizados em CPDs e bureaux, dominados exclusivamente pelos mainframes. No início dos anos 70, não havia conhecimento especializado dentro das empresas, lembra Carlos Eduardo Corrêa da Fonseca, o Carman, ex-presidente da Itautec Philco e atual diretor executivo do Real ABN Amro Bank.
"Fornecedores como a IBM, por exemplo, faziam testes de aptidão (raciocínio lógico, visão espacial, entre outros) com os funcionários das empresas clientes, selecionavam os melhores e davam cursos rápidos de programação e lógica", conta ele. "Depois começaram a contratar recém-formados das áreas de engenharia, física, e matemática. Eu entrei no Banco Itaú por anúncio de jornal. Fui selecionado e treinado em menos de um ano para operar os mainframes S/360, que estavam em processo de substituição da família 1401", diz Carman, engenheiro eletrônico, formado na Escola Politécnica de São Paulo, em 1965.
Depois do bom aprendizado com os mainframes, eis que chega a fase polêmica da "reserva de mercado da informática" para empresas brasileiras, uma reação do governo militar ao pesado desequilíbrio da balança comercial, provocado pela importação de máquinas e equipamentos. A partir de 1974, estimulados por isenções fiscais e linhas de financiamento, surgem os primeiros projetos de fabricação local de computadores, que são aprovados pela Capre e por sua sucessora SEI (Secretaria Especial de Informática). O projeto da gaúcha Edisa Informática foi um deles.
"Na época, tínhamos uma massa crítica de profissionais formados pelas universidades locais capaz de enfrentar o desafio de produzir computadores no País", sustenta Flávio Sehn, economista com mestrado em administração de empresas nos Estados Unidos, que então dirigia a Procergs, empresa de processamento de dados do governo gaúcho. Ainda hoje um ferrenho defensor da "reserva de mercado", Sehn coordenou a iniciativa acadêmica e empresarial de apresentação do projeto de criação da Edisa, em 1977, com apoio de bancos regionais. E ocupou a presidência da empresa de 1989 até 1998, quando a Edisa já havia sido incorporada totalmente pela Hewlett-Packard. "Foi uma experiência rica do ponto de vista de formação de recursos humanos de TI", diz ele.
Mas, mesmo dentro da nascente indústria nacional, havia grandes discordâncias. "Muito embora criasse um estímulo, a reserva de mercado ergueu muitas barreiras", critica Rui Campos, ex-diretor da Microtec, empresa criada em 1982 por um grupo de professores universitários, brasileiros e estrangeiros. "Não se podia fabricar um computador e sair por aí vendendo, simplesmente. Tínhamos que apresentar o projeto à SEI, mostrar como tinha sido desenvolvido e aguardar dias e dias pela aprovação. Em certa ocasião, tivemos que passar um dia inteiro mostrando para três inspetores da SEI como fizemos o desenvolvimento da BIOS de um PC que íamos fabricar - uma listagem de instruções por linha, em linguagem Assembler, que dava mais de 25 centímetros de altura", relata Campos.
Para os fabricantes estrangeiros, o cotidiano também não era fácil. Segundo Dario Boralli, ex-diretor da IBM até o início da década de 80, nomeado pela empresa para fazer a interface com a SEI, esse foi um dos momentos mais difíceis de sua longa experiência como gestor de pessoas e de projetos da multinacional norte-americana. "Não podíamos fabricar um parafuso em nossa unidade industrial de Sumaré, em São Paulo, antes do ok da SEI. Fizemos várias reuniões com os técnicos do governo sobre a linha de mainframes 4341 e 4381, mas a fábrica ficava completamente parada enquanto não viesse a aprovação definitiva da SEI", conta Boralli. "Acho que o País acabou perdendo de dez a 15 anos de espaço no mundo, em termos de atualização tecnológica", afirma.
Com a flexibilização da política de restrições à importação de equipamentos, a partir de 1992, os rumos foram corrigidos, de acordo com vários empresários e executivos. "Com a abertura do mercado e o avanço da microeletrônica, a Itautec aproveitou todo o conhecimento que tinha e passou a fazer acordos com empresas internacionais - Intel, Microsoft, fabricantes japoneses nas áreas de impressoras e copiadoras, e taiwaneses na área de placas de PCs. Inclusive com a IBM para produzir os AS/400", explica Carman. A velocidade com que os fabricantes estrangeiros chegaram ao País, segundo ele, não provocou maiores traumas no quadro de recursos humanos das empresas nacionais. "Não houve muita demissão", afirma.
Em alguns segmentos da indústria de informática, como a de componentes, no entanto, as perdas foram irrecuperáveis. "Com o fim da reserva, o governo deixou de encorajar o desenvolvimento de produtos no País. A indústria local perdeu a capacidade de projetar equipamentos, passando a importar também os componentes de microeletrônica", analisa José Ellis Ripper, diretor-presidente da Asga, que desenvolve soluções tecnológicas para o mercado de TI e de telecomunicações, instalada em Paulínia (SP). A empresa surgiu em meados dos anos 90, quando Ripper, junto com outros sócios, adquiriu a divisão de componentes ópticos eletrônicos da Elebra, fabricante de computadores que sucumbiu com a abertura. "Fomos obrigados a mudar o foco da AsGa, pois ninguém comprava mais os nossos componentes. Resolvemos então usar esses componentes para fabricar equipamentos ópticos de telecomunicações. Mas como o volume de produção era baixo demais, para poder ter um nível razoável de qualidade, acabamos tendo de importar. Hoje a AsGa compra lá fora os componentes que fabricava", lamenta Ripper.
Nem tudo foi perdido, é claro. Segundo Hélio Marcos Machado Graciosa, que dirigiu o centro de pesquisas da Telebrás, criada em 1976, e atualmente preside o CPqD, houve ganhos substanciais em relação à formação de mão-de-obra especializada de tecnologia. "A reserva de mercado tinha uma visão mais voltada para a produção 'industrial' do que desenvolvimento tecnológico, mas ainda assim permitiu constituir uma base de profissionais competentes, de qualidade", destaca ele. O avanço da microeletrônica deu outra dimensão ao mercado, indica Graciosa. Expandiu a indústria e abriu oportunidade para o desenvolvimento de sistemas de software e fornecimento de serviços diversos. "Hoje, no tempo da Internet, da conectividade imediata, o desafio é a globalização da tecnologia e dos bons profissionais, especialmente em software e serviços de TI", afirma.
Ou seja, não dá para ficar limitado ao mercado interno. Trata-se de uma competência em software que o País adquiriu em plena fase de abertura de mercado e não pode se perder, avalia Silvio Genesini, presidente da Oracle do Brasil, que acompanha a evolução do mercado brasileiro de TI desde 1978, quando começou a trabalhar como consultor de uma das divisões da Arthur Andersen, transformada mais tarde em Andersen Consulting e, hoje, em Accenture. "O Brasil tem agora uma oportunidade única de ganhar espaço no mercado de exportação de software", afirma Genesini. Por isso, os profissionais brasileiros de TI devem ficar atentos aos desafios de hoje e às novas tecnologias que saltam aos olhos. Internet, Java, computação centralizada, padrões, web services, virtualização, grid computer, software livre - são nomes que vieram para ficar. O mundo está convergindo para essas tecnologias. É o que se pode esperar nos próximos ciclos da história brasileira.
Se fosse hoje...
Qual seria o caminho adotado por estes experientes homens de TI, se estivessem começando agora
"Minha resposta é muito simples. Fazer o mesmo que fiz há quase meio século: procurar a melhor formação básica possível (me formei no ITA) para poder continuar aprendendo. Afinal, a maior parte dos conhecimentos que são utilizados na vida profissional não existe na época da formatura; não é muito importante o conteúdo do curso. Em segundo lugar colocar a mão na massa o mais cedo possível, participando de atividades como empresas júnior, iniciação científica, etc. Considero que a coisa mais importante de minha formação profissional, mais até do que os cursos de graduação e pós-graduação foi minha atuação no Centro Acadêmico". José Ellis Ripper, ex-Telebrás, ex-Elebra e atual presidente da AsGA
"Acredito que o sucesso de um profissional depende das metas que ele estabelece e como planeja alcançá-las em médio e longo prazos. Infelizmente, somos influenciados por uma cultura imediatista que muitas vezes impede que se planeje o futuro. Principalmente na área tecnológica, é fundamental que o profissional invista em treinamento e reciclagem, que o ajudarão a acompanhar a rápida evolução do setor. Somente com o conhecimento profundo da tecnologia, o profissional poderá se transformar em um visionário. Outro ponto importante é o equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal". Silvio Genesini, ex-diretor da Andersen Consulting e atual presidente da Oracle no Brasil
"A minha sugestão é fazer um curso de ciência da computação, seguido de um MBA em finanças. O grande problema hoje é a interface entre a informática e finanças. O homem de informática não consegue pensar no negócio, só em tecnologia. O importante é não fazer pirotecnia eletrônica, mas resolver problemas para que o negócio da empresa seja mais eficaz, tenha melhor performance". Roberto Camanho, ex-presidente da Sobracom (Sociedade Brasileira de Comando Numérico) e atual diretor da ITS (Instituto de Tecnologia de Software)
"Eu faria cursos na área de sistemas de informação; não de ciência da computação, que é um curso teórico, mais voltado ao cientista. Os cursos de SI reúnem a visão do técnico em três áreas (computação gráfica, desenvolvimento de sistemas e redes) e de gestor de TI. O desenvolvimento de software é o que mais promete sucesso hoje. Se ressente de mais profissionais e os salários estão em faixas de 3,5 mil reais a 12 mil reais". Célio Antunes, ex-diretor da Microtec e atual presidente do grupo educacional Impacta
"Eu adotaria o mesmo caminho que adotei nos meus primórdios - iria atuar no campo da administração. Não seria um técnico. Se eu estivesse começando hoje, com os conhecimentos que tenho, certamente já teria todos os fundamentos para fazer sucesso no mercado de TI. Quando entrei numa empresa de informática, em 1970, tinha 37 anos. Hoje, qualquer profissional com 37 já tem uma base bastante sólida de informática. É lógico que é preciso ter noções de tecnologia, mas um CIO tem que estar muito bem preparado para tomar decisões, perceber o lado do usuário. Muitas vezes o pessoal não valoriza essa parte. E hoje o usuário tem muito mais noção de informática do que antigamente". Flávio Sehn, ex-presidente da Edisa Informática e da HP Brasil, atualmente aposentado.
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