Gestão
Brasil não é competitivo para exportar serviços por não falar inglês
De acordo com TC Kong, vice-presidente global de serviços da Unisys, os profissionais brasileiros ainda esbarram em um problema básico: parco conhecimento do idioma inglês
Por Vinicius Cherobino, do COMPUTERWORLD
Uma das discussões mais tradicionais – e intermináveis – sobre terceirização está em descobrir quais são os motivos responsáveis por tirar do Brasil a fatia mais representativa de investimentos oriundos do movimento de offshore. Para TC Kong, vice-presidente global de serviços da Unisys, o principal problema que o País deve equacionar ainda é a falta proficiência em inglês. Falando com exclusividade com o COMPUTERWORLD, o executivo destacou ainda outros pontos que podem ser trabalhados para um melhor desempenho, esclareceu que não vê o Brasil competindo com outros países em call center e apontou as conseqüências do movimento de desaceleração do outsourcing na Índia.
COMPUTERWORLD - Há anos se debate o fato de que uma parte maior dos recursos de terceirização poderiam vir para o Brasil mas, na prática, não vêm. Qual é o problema com o País?
TC Kong - Prefiro ver como um desafio, não como um problema. E o maior desafio do Brasil para o segmento de outsourcing ainda é a falta de proficiência em inglês, especialmente para os termos de tecnologia e de negócios. O idioma é um ponto-chave, definitivo para a conclusão de um negócio de terceirização. Ainda que os profissionais brasileiros do setor dominem a tecnologia, a falta de experiência internacional é um grave problema. Existe uma preferência por profissionais que tenham vivido outras realidades. Outro ponto que também representa um grande desafio para o País está no ambiente de negócios, já que ele é pouco amigável às empresas, altamente complexo e com leis trabalhistas restritivas, o que dificulta a definição do que é realmente efetivo em termos de custo. Toda essa estrutura precisa ser trabalhada. Faltam também incentivos para a instalação de centros de desenvolvimento. Além das políticas do governo, estes problemas precisam de outras abordagens para que sejam totalmente resolvidos. A parceria entre governos e instituições privadas pode ajudar bastante.
CW - Diversos institutos têm apontado a desaceleração do outsourcing na Índia, resultado da pressão por salários mais altos, do risco de ter todas as operações no mesmo lugar e da falta de clareza do governo do país em manter os incentivos fiscais. A Unisys concorda que o setor de terceirização na Índia está entrando em um processo que pode culminar em uma crise?
Kong - Não se trata de uma crise, mas é motivo para maior atenção. Os benefícios oferecidos pela STPI [Software Technology Parks of India, agência que controla o setor] têm final previsto para 2008 e ainda não existe uma indicação clara se haverá a renovação ou até quando eles serão prorrogados. Há, ainda, o debate em torno das Zonas Econômicas Especiais (SEZ, da sigla em inglês). Esse é um assunto de conversas diárias, das quais a Unisys está participando para garantir a ampliação dos benefícios (da STPI) até 2009. Mas, na prática, não existe clareza sobre a extensão do STPI ou dos caminhos das SEZ. De qualquer forma, essa falta de definição do governo vai afetar os planos de expansão das empresas. Os executivos do setor querem ter certeza do cenário no futuro para poderem tomar as decisões certas.
CW - E a pressão por melhores salários? A vantagem da mão-de-obra mais barata ainda é um dos grandes diferenciais da Índia?
Kong - A velocidade na mudança é muito grande. A estabilidade do salário médio durava dez anos – era com essa expectativa que se trabalhava. Agora, ele está se reduzindo a cinco anos, a metade do tempo esperado. Mesmo que seja baseada em um dos princípios mais clássicos da economia, a lei da oferta e da procura, a mudança está acontecendo muito rapidamente e está surpreendendo as empresas. Por isso, as companhias do setor estão procurando alternativas como Hungria e China, entre muitos outros.
CW - O Brasil pode, de alguma maneira, se aproveitar desse momento de incertezas na Índia?
Kong - É possível. No entanto, o governo brasileiro não tem nada minimamente similar ao que foi oferecido na Índia como incentivo para a produção de software ou terceirização. E não acredito que o caminho do País esteja em concorrer com a Índia por preço.
CW - Qual seria, então, o melhor caminho para o mercado brasileiro em outsourcing?
Kong - O nicho do Brasil pode estar em serviços de valor agregado. Claramente, é difícil competir para call center. Mas o setor financeiro, por exemplo, conta com um diferencial invejável no mercado brasileiro. O histórico de inflação somado aos avanços da tecnologia, como no internet banking, e da qualidade do pessoal são muito interessantes. A Índia é extremamente avançada em desenvolvimento de software, mas pode trazer outra coisa à mesa? Acho que o Brasil tem muito a ganhar nesses outros nichos. Acredito que esse movimento será em longo prazo, com as empresas de terceirização trabalhando para acelerar esse processo. A Unisys está muito comprometida com o mercado brasileiro. A questão do idioma inglês, no entanto, precisa ser resolvida o quanto antes.
CW – Uma das ofertas da Unisys em terceirização, os serviços gerenciados de segurança, tem encontrado muitas dificuldades no Brasil. Normalmente, as organizações não vêm com bons olhos um fornecedor de mercado tendo acesso a sua estrutura de segurança. O que pode ser feito para mudar essa realidade?
Kong – Acredito que esta resistência esteja muito mais relacionada à falta de entendimento do que com alguma dúvida real do usuário. A falta de experiência no tema gera um medo muito grande dos clientes em perder o controle de uma de suas áreas mais críticas. Para citar um exemplo do quão comum é essa prática, o governo dos Estados Unidos tem operações terceirizadas em segurança da informação. No entanto, para uma empresa tirar proveito desse modelo de negócios é preciso uma atuação diferenciada. O fornecedor precisa entender o negócio do cliente profundamente, assim como a própria companhia, para neste momento definir como o parceiro de terceirização pode ajudar.
Em linhas gerais, a Unisys como um fornecedor do setor precisa mostrar que tem processos maduros e certificados na ISO 27.001. Mais do que isso, é preciso deixar claro que temos relações maduras com diferentes empresas de várias partes do mundo, o que nos garante conhecimento até quando a questão analisada trata de propriedade intelectual.
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Falar inglês
De nada adianta saber falar inglês para negociar, por exemplo, com a China que tende a ser maior potência mundial. E os negócios com outros países não anglófonos deverão ser obrigatoriamente em inglês? Por que, nós brasileiros nativos, juntamente com o resto do mundo, temos que nos submeter à uma língua de difícil aprendizado?
Confesso que tenho que assinar o meu atestado de burrice, pois após mais de cinco anos de estudo de inglês, não consigo me expressar nessa língua.
Joaquim - 19 Abr 2007, 11h59
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