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Gestão

Como será 2010 na visão de quem compra TI

Em entrevista exclusiva a Computerworld, o diretor mundial de estratégia e arquitetura do grupo Rhodia, Fernando Birman, avalia 2009 e as tendências para 2010.

Por Fabiana Monte, da Computerworld

21 de dezembro de 2009 - 08h00
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Em um cenário de retração de investimentos, orçamentos mais apertados, ninguém melhor para fazer um balanço de 2009 do que os profissionais que compram tecnologia para uso no mercado corporativo. Fernando Birman é diretor mundial de estratégia e arquitetura do grupo químico internacional Rhodia, formado por seis empresas. A corporação emprega 14.500 pessoas em todo o mundo e faturou 4,8 bilhões de euros em 2008. Nesta entrevista, o executivo, que também é fundador e ex-presidente da Associação de Usuários SAP do Brasil, defende que 2010 será bom, mas sem euforia.

Computerworld: Como foi o ano de 2009? Termina melhor do que começou para o mercado de TI?
Fernando Birman: Começou com cenário muito ruim, mas foi melhorando e acho que a perspectiva é continuar neste ritmo de renovação, de novos investimentos, de troca de máquinas. Já estamos vivendo um ciclo de renovação que deve continuar em 2010.

CW: Esta análise vale também para o Brasil?
FB: O cenário aqui foi muito mais positivo, mas, de certa forma, os investimentos em TI no Brasil poderiam ser melhores. O Brasil tem uma grande presença de empresas internacionais que tomam decisões globais. Então, mesmo que o Brasil não tenha vivido uma crise tão profunda, provavelmente muitas empresas internacionais não compraram tudo o que precisavam, porque adotaram medidas de contingenciamento, de segurar investimentos, em função do quadro internacional e não somente do Brasil.

CW: Pensando na retenção de investimentos, quais áreas do mercado de TI sentiram mais os efeitos dessa postergação?
FB: Em situações de crise, as empresas conseguem cortar tudo. Cortamos serviços, mas também tentamos conter a renovação. Além de cortar projetos, você diminui o ritmo dos projetos, faz menos coisas. É muito comum, por exemplo, que as empresas posterguem a troca de microcomputadores por mais um ano. Se a troca ocorre a cada dois ou três anos, você faz o computador durar três ou quatro anos, por exemplo. Você pula uma geração ou duas de sistema operacional.

A primeira medida das empresas é diminuir o ritmo dos projetos e de renovação. Você pode cortar um projeto completo ou o ritmo de implantação. O fato é que você consegue segurar muitos investimentos, tanto de hardware, software e serviços. Cortar o efetivo é a última coisa que se faz, porque o processo para contratar e é muito lento e caro.

Jogar com a crise é sempre uma oportunidade, é a hora de sentar e pensar o que se vai fazer com pouco dinheiro. É um ótimo momento para refletir sobre prioridades, para você se concentrar no que é importante para a sua empresa e filtrar os excessos. Depois da crise, as empresas sempre saem mais fortalecidas. As organizações de TI saem mais focadas no que realmente importa.

CW: Neste sentido, o mote de 2009 foi renegociação de contratos? Este rigor vai continuar em 2010, na sua avaliação?
FB: Quando a gente aprende a negociar, a escolher as coisas que são mais importantes, a priorizar, a apertar o fornecedor - o que se faz na crise -, isso vira um aprendizado e a gente continua fazendo. A gente aplica mesmo quando a crise passa. Vamos continuar a comprar e a negociar com rigor, mas vamos ter disposição para comprar com mais coisas. Vamos comprar melhor e mais, vamos retomar os projetos, mas a forma de negociar, o aperto no fornecedor não volta atrás.

Quando falo negociar bem, nem sempre é espremer o fornecedor até sair água. Tem que considerar o custo total da solução, a relação que você terá com o fornecedor e a vida útil dessa relação. O que muda é que a disponibilidade de recursos, conforme a conjuntura econômica. O ano de 2009 começou muito mal em alguns setores e está terminando com uma esperança. Olhando o mundo, não só o Brasil, nós estamos respirando, as empresas em muitos países estão vendo a situação melhorar. Não necessariamente atingimos patamar satisfatório de volume de atividade e lucratividade, mas não estamos vendo o barco afundar.

CW: Você percebe que o Brasil ganhou um foco maior por ter se comportado bem à crise?
FB: O crescimento do Brasil, a atratividade e o fato de ter dinheiro novo entrando no País, em novos projetos, evidentemente vão alavancar novos investimentos em TI, porque não existe negócio sem informática. Até 5% dos recursos que forem aplicados no Brasil em negócios serão destinados à área de TI.

CW: E sobre 2010, qual é a sua perspectiva?
FB: Mesmo que a crise não tenha pego o Brasil, mesmo que tenha sido só uma “marolinha”, como a economia é integrada, muitas empresas seguraram investimentos no País por conta de um quadro internacional complexo e cheio de dúvidas. Portanto, acho que 2010 tende a ser muito melhor para o setor de TI, porque muito investimento foi represado desde o final de 2008 e durante 2009. Você segura investimentos em equipamentos - micros, servidores -, mas chega uma hora que não dá, você precisa fazer investimentos básicos de renovação.

CW: De que maneira o lançamento do Windows 7, em outubro passado, pode influenciar no cenário de 2010?
FB: O Windows 7 é um fator de alavancagem de investimentos. O mundo corporativo segurou recursos e não migrou para o Vista. Agora há uma tendência enorme do mercado de abraçar o novo sistema operacional. As empresas estão satisfeitas com o XP, mas [a decisão de migrar] não se trata só do sistema operacional, há um conjunto de soluções que são integradas e acaba evoluindo num pacote só, como o browser, por exemplo. Você consegue represar investimentos por algum tempo, mas chega a um momento em que tem de trocar tudo: hardware, sistema operacional, aplicativos. Isso certamente vai causar um pico de investimentos de renovação, por isso acho que a gente já está no ciclo muito positivo para a indústria de TI. Esse alavancador da Microsoft não é desprezível.

CW: Alguns analistas avaliam que, antes da crise, a demanda dos CIOs estava superdimensionada. Você concorda?
FB: Grande parte dos CIOs do Brasil já passou por mais de uma crise. Esses ciclos de crise e de crescimento fazem parte da vida do CIO. Eventualmente você tem que tomar decisões mais difíceis, mas isso não é necessariamente ruim, porque a gente sai mais forte depois desse exercício.

Temos de estar preparados tanto para a crise quanto para crescer. Às vezes o crescimento também é muito difícil de ser gerido porque você precisa responder rápido, fazer as coisas com muita flexibilidade, sem abrir mão de governança e nível de controle. O crescimento não é simples. A crise é difícil, envolve decisões complexas; o crescimento tem decisões que as vezes são fáceis, mas cada um tem seu desafio e oferece momentos de aprendizado que vão formar o CIO. É muito importante na vida profissional ter passado por ambas as experiências.

CW: Quais são suas recomendações para 2010?
FB: O crescimento não está garantido. Vai haver uma retomada, mas não sei se vamos chegar a um nível muito alto. Estou vendo um cenário positivo, mas não diria que é um crescimento descontrolado, que vamos chegar a um patamar de vendas jamais atingido. Ainda existe uma certa incerteza no ar. O cenário é positivo para a TI porque seremos obrigados a renovar. Não posso afirmar que vamos engatar um ciclo de prosperidade muito grande a partir de 2010/2011, porque ainda existe um certo clima de apreensão, embora a gente tenha descrito um cenário particularmente positivo para TI.

Tirando isso, em 2010 teremos um ciclo de investimentos e renovação, com o Windows 7 como uma tendência importante. Mas há outras coisas importantes que vão se consolidar em 2010 e ocupar muito da prioridade de CIOs e fornecedores.

CW: Quais são essas outras coisas?
FB: Mobilidade e tudo em torno deste tema, por exemplo, é uma delas. As pessoas querem usar soluções de TI em qualquer lugar, a qualquer hora e com diferentes meios de acesso, como celular, netbooks e outros dispositivos como leitores de livros digitais, iPhone, todo mundo quer esse tipo de solução. Acabou esse negócio de informática ser desktop no escritório. As soluções têm de ser pensadas para interfaces variadas e que funcionem onde e quando quisermos. A mobilidade é mandatória.

Uma segunda tendência são as redes sociais, que estão crescendo de forma exponencial e invadindo a vida das pessoas. As pessoas estão usando cada vez mais e chega um momento que é muito difícil separar o que é vida privada e profissional, portanto você acaba encontrando uma série de aplicações e usos comerciais dentro das redes sociais. Elas são um canal potencial para marketing e comércio, para interação com tudo o que cerca a empresa: clientes, fornecedores, governo, todo o ecossistema. Ainda há muita incompreensão e resistência, o que é um erro, porque estamos fechando a porta não para uma coisa que é de uso pessoal, mas para toda uma comunidade que tem muito a contribuir.

Outra tendência é cloud computing, que é inegável, veio para ficar. O que a gente discute é o grau. A questão não é se você vai usar ou não o conceito de cloud. A questão é como você vai usar e quanto. É um conceito que está amadurecendo e 2010 vai ser um ano de muita discussão, com o aparecimento de muitas ofertas maduras, em termos de software como erviço (SaaS), plataforma como serviço (PaaS), tudo o que envolve cloud. Vão aparecer muitas propostas maduras e interessantes, que vão seduzir muitas empresas. Pode ser que até o próprio termo cloud suma em dois anos, porque ele poderá se tornar o padrão. Os nomes vão embora, mas o uso da internet nos negócios só tem aumentado.

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