Gestão
Presidente da Booz Allen Hamilton do Brasil. Líder da Prática de Indústrias, América do Sul.
Desafios e Oportunidades
Medidas de redução de custos devem vir acompanhadas de inovação e mais pressão por melhoria de desempenho.
As origens e causas da atual crise econômica já foram amplamente discutidas e debatidas, e podem ser sintetizadas em uma única frase: “excesso de endividamento dos bancos e das famílias, particularmente nos países desenvolvidos, aliado à globalização do mercado financeiro”.
Acredito que esta crise ainda está longe de terminar, isto é, falta ainda visibilidade de sua trajetória e das várias medidas que ainda serão tomadas pelos vários governos. Neste contexto, as incertezas são significativas. As “certezas”, infelizmente, não são animadoras: baixo crescimento (ou mesmo contração) econômico e enormes pressões em rentabilidade e geração de caixa, o que levará, invariavelmente, a uma busca de oportunidades de redução de custos e liberação de caixa na grande maioria das empresas. TI terá que contribuir para estes esforços.
As medidas tradicionais de redução de custos – tais como racionalização de projetos, downsizing da organização, renegociação de contratos, dentre outras – já devem estar em andamento ou mesmo já implementadas. Acredito, porém, que estas ações devam ser cercadas de alguma cautela, de abordagens inovadoras e de uma maior pressão para a melhoria de desempenho de TI, apresentado tanto desafios como oportunidades. Dentre os principais pontos a atentar, gostaria de destacar três: (a) crescente pressão para outsource e liberação de caixa; (b) maior necessidade de planejamento adequado e gestão de demanda pró-ativa; e (c) oportunidades com as mudanças no cenário de outsourcing e offshoring.
A grande maioria das empresas tem um valor elevado de capital investido em TI – data centers, ativos em aplicativos, ativos em computação pessoal, etc. Em um cenário em que o custo de capital é alto e que a geração de caixa passa a ser a maior preocupação da alta administração, espera-se que as empresas busquem oportunidades de utilizar os ativos de TI para free up cash, levando a um aumento das atividades de outsourcing. É importante, porém, destacar que a engenharia financeira destes projetos de outsourcing pode ser mais elaborada do que observamos em anos recentes, uma vez que a escassez e o alto custo de capital também atinge as empresas de outsourcing. Caberá ao CIO encontrar a melhor maneira de liberar caixa, trabalhando “a quatro mãos” com a área financeira de sua empresa.
A pressão em custos demandará também uma melhor gestão do portfolio de projetos, uma vez que somente aqueles projetos considerados realmente prioritários e imprescindíveis devem ser executados. A definição deste portfolio requer, necessariamente, uma governança de TI adequada, isto é, que tenha a representatividade da organização e que tenha um processo e sistemática de decisão bem definidos. Este processo decisório certamente demandará uma maior visibilidade do valor de TI e de seus projetos, área na qual, infelizmente, a maioria das empresas ainda não amadureceu e não realiza tal tipo de avaliação de forma sistemática e consistente.
O fortalecimento dos processos de gestão de demanda também será necessário, para que, de fato, a gestão de portfolio de projetos possa ser feita de forma adequada. Sabemos, através de nossa experiência em trabalhos com várias empresas, que uma gestão de demanda bem feita pode auxiliar a reduzir custos de TI em cerca de 5%.
A atual crise econômica deve levar a uma reestruturação da base de fornecedores de outsourcing e offshoring, causada pelo grande aumento na oferta nos últimos anos, pela redução na demanda e também pelo menor crescimento desta, e pelo alto grau de incerteza vigente. As implicações deste movimento sob o prisma de um CIO são claras: gerir o portfolio de fornecedeores adequadamente, para estar bem posicionado junto aos winners no final do processo, e ter capacidade de gerir transições à medida em que a reestruturação evolui.
Esta tendência de reestruturação da base de fornecedores de outsourcing e offshoring também tem grandes implicações para os fornecedores no Brasil, apresentando uma grande oportunidade de ganho de market share, alavancado o progresso obtido pelo setor no país nos últimos anos. Dentre os vários avanços e melhorias, gostaríamos de destacar:
1. Fortalecimento da indústria de Tecnologia da Informação no Brasil. O setor de TI liderou o ranking de fusões e aquisições de empresas no Brasil nos nove primeiros meses de 2008, atingindo um total de 63 transações. Este movimento permite que as empresas saiam fortalecidas para competir no mercado nacional e internacional.
2. Custos mais atraentes. A desvalorização do Real faz com que as empresas de outsourcing no Brasil ficassem ainda mais atrativas em relação a empresas de outros países, principalmente em vista da necessidade de redução imediata de custos em muitas empresas. Vale ainda ressaltar que outros mercados de outsourcing, particularmente Índia, perderam em atratividade, seja por aumento de custos e escassez de recursos, seja pela falta de confiança causada por eventos específicos (ex. Satyam), além de um crescente questionamento sobre a falta de flexibilidade das empresas de outsourcing indianas.
3. Capacidade e inovação. A criatividade dos recursos de TI no Brasil é amplamente conhecida no mercado. Além disso, é destaque o nível de sofisticação em termos de inovação tecnológica, principalmente em alguns setores com o de serviços financeiros.
Em resumo, o ano de 2009 vai demandar uma postura extremamente pró-ativa dos CIOs, com maiores pressões para redução de custos e de investimentos. Em contrapartida, oferece oportunidade única para que estes CIOs procurem melhorar processos fundamentais de suas áreas (ex. Gestão de demanda, governança, gestão de fornecedores). O ano oferece também oportunidades únicas para os fornecedores de outsourcing e offshoring. O grande desafio reside na agilidade e rapidez necessárias para capturar estas oportunidades.
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