Infra-estrutura
OOXML: Sun, Red Hat e Microsoft debatem quem venceu
Painel em Boston colocou os dois lados debatendo o polêmico processo que culminou com a aprovação do OOXML como padrão ISO.
Por Vinicius Cherobino*, do COMPUTERWORLD
Durante mesa redonda no Red Hat Summit, em Boston, EUA, partidários dos padrões abertos e representante da Microsoft discutiram o polêmico processo de aprovação do padrão de documentos Open Office XML pela ISO.
Com a participação de Douglas Johnson, responsável por padrões na Sun; Venky Hariharan, diretor da Red Hat Índia; e Stuart McKee, Tecnology Officer para o governo norte-americano da Microsoft, a discussão não foi tão polêmica quanto o que poderia se esperar. Os dois lados, no final, pareciam resignados com um processo que já teve sua decisão final – mesmo com as apelações de países como África do Sul, Índia, Brasil e Venezuela.
Surpreendentemente em um evento open source, a sala – com capacidade para 300 pessoas – estava muito longe de ter sua lotação esgotada. Após o mediador dizer que a participação do representante da Microsoft estava garantida, sem violência da platéia de código aberto, para risadas constrangidas do executivo e dos participantes, o painel foi iniciado.
Ao responder a pergunta “Quem realmente venceu a batalha pelo OOXML?”, Johnson, da Sun, garantiu que todos os padrões ganharam. Ele destacou que a discussão em torno da aprovação garantiu atenção para os padrões de documentos, o que não havia cinco anos atrás. “As aprovações de padrões não são mais fábricas de salsicha em que ninguém sabe como é feito. Finalmente descobriram que as aprovações não são tão abertas ou claras como era de se esperar”, disse.
“A Microsoft ganhou também. Ao suportar o ODF no Office, começou a se mover para um modelo de negócios que não vê padrão de documento como um ‘fator de prisão’ para os clientes”, disse o representante da Sun.
A resposta do representante da Microsoft foi imediata. Stuart McKee destacou como todo o processo de aprovação, as várias reuniões nos comitês nacionais, além das discussões pela mídia fizeram o processo “muito exaustivo”. “Mas tudo isso gerou educação sobre algo que não estava claro. O ODF foi um vencedor claro, pois poderá ser usado na suíte Office 2009 e atingir mais clientes”, disse.
Venky Hariharan, da Red Hat Índia, usou seu tempo para destacar as diversas falhas que ele e o comitê indiano apontaram no OOXML, esclarecendo as razões do país para votar “Não” e, tempos depois, apelar contra a aprovação. “Há muitos pontos poucos claros que não foram respondidos pela Microsoft”, disse, sem detalhá-los.
Também sem citar nomes de países, o executivo insinuou diversas irregularidades em comitês técnicos da ISO. “Em um país, o ministro da ciência se cadastrou como membro da ISO para votar no padrão semanas antes da decisão final. Em outro, o ministro da ciência anulou a abstenção do comitê para definir o voto como ‘Sim’”.
McKee, da Microsoft, fez questão de destacar o fato dos padrões proprietários não serem de exclusividade da MS. Ele citou o exemplo do mainframe: “Imagine a quantidade de informações e de investimentos presos no ambiente mainframe e não se fala em abrir isso. É um grande mercado que está muito longe do XML”.
Provocativo, o executivo continuou listando exemplos de padrões proprietários que não são alvo da comunidade aberta. “É engraçado discutir padrões de documentos e não se falar do PDF. Por que a Adobe não está nessa mesa?”, questionou.
Douglas Johnson, da Sun, concorda. Ele destacou a necessidade de discutir outros padrões além de documentos. “Espero que essa discussão para o padrão de documentos seja estendida para vídeo e música. Não são abertos e precisam ser analisados para melhorar a experiência para os usuários”, acrescentou.
Participação da platéia
A parte de perguntas duras foi deixada para a platéia. Um estudante norte-americano que não se identificou lançou a primeira pergunta: “A Microsoft é conhecida por extinguir padrões. Vocês vão fazer isso com o ODF?”.
“Fizemos um compromisso de trabalhar com o formato e é isso o que vai acontecer. Acima de tudo, não o controlamos, é o Oasis. A sobrevivência do ODF não está em nossas mãos, mas acreditamos que ele vai evoluir com o tempo”, respondeu.
McKee aproveitou e citou outros exemplos na indústria onde formatos similares atuam paralelamente, indicando um futuro de coexistência entre ODF e OOXML. Ele destacou especificamente o caso dos padrões para imagens Tiff, da Adobe, e JPEG, da JPEG. “São dois formatos fechados que atendem a necessidades diferentes. Não acredito que o mercado vai sobreviver com apenas um padrão”, completou.
O representante da Microsoft ouviu outra pergunta dura. “Vocês se arrependem do papel dos seus parceiros durante o processo? Vocês acham que exageraram para garantir a aprovação?”, disse outro participante que não se identificou.
Ao que McKee retrucou: “Tínhamos a sensação de que estávamos atrasados. Era muito difícil e tínhamos muito a fazer. Se falava muito sobre a prisão de formatos proprietários, mas vários processadores de texto abrem e gravam .doc. Mas a maneira de pagar os royalties realmente ainda não está clara. Ainda há muito a ser feito”.
No final do evento, um representante do comitê técnico de Singapura – que se declarou voto contrário ao Sim dado pelo país - fez uma pergunta sobre como o OOXML pôde ser aprovado sem ter sido implementado por dois fornecedores independentes.
A resposta do representante da Microsoft não o convenceu. “Nenhuma resposta resolve o problema, pois não existe implementação. Pedi no comitê para apelarmos contra a aprovação, mas sou apenas uma voz entre dezesseis pessoas”, disse, resignado, Harish Pillay.
*O repórter viajou para Boston a convite da Red Hat.


