Onda de abertura de código: open source venceu?

(http://computerworld.uol.com.br/mercado/2008/05/14/onda-de-abertura-de-codigo-open-source-venceu)
Por Fábio Barros, do COMPUTERWORLD
Publicada em 14 de maio de 2008 - 08h20

Após várias empresas abrirem o código de seus softwares – no todo ou em parte – o perfil do mercado de software mudou, e muito. Saiba como.

Do início deste ano para cá, uma série de movimentos realizados por alguns ícones do mercado de software – e outros nem tanto – deram conta que o setor está, neste exato momento, passando por uma transformação. A abertura de parte dos códigos anunciada por empresas como Microsoft, SAP, Apple (somente para o iPod) e pela brasileira Datasul são sinais claros de que o open source venceu. Não o software aberto, mas o conceito que lhe deu força nos últimos anos.

Obviamente a apropriação do conceito não se deu sem pressão. Ao contrário, fatores como a web 2.0 e o crescimento da oferta de software como serviço tiveram sua participação. “Estes itens fizeram com que o próprio software e a colaboração ampliassem o poder de influência do usuário final sobre todo o mercado”, reconhece Jorge Steffens, presidente da Datasul, que no início de abril anunciou a abertura dos códigos fonte e dos requisitos de suas interfaces.

Escolado pelas experiências históricas de empresas que insistiram em manter suas tecnologias proprietárias, o mercado de software decidiu que era hora de permitir que o bolo fosse maior, o que em tese também deve aumentar suas fatias. “Um ponto importante destas iniciativas é que elas vão gerar uma oferta maior dos aplicativos para os sistemas destas empresas. Mais que isso, ter um desenvolvedor trabalhando no aprimoramento de seu produto é sempre bom: o cliente fica satisfeito e sua empresa não teve trabalho para isso”, compara Júlio Pagani, analista da IDC Brasil.

Waldir Arevolo, principal analista da TGT Consulting, concorda. “Estas empresas estão ganhando escala e seus clientes vão ganhar mais módulos, mais rapidamente”, afirma. O segredo está na manutenção do que os especialistas chamam de a ‘espinha dorsal’ do software, que continuará sob o controle de seus criadores. “Estas empresas estão tomando o cuidado de manter fechadas as espinhas dorsais de seus sistemas. Se você garante o que o software tem de fazer como objetivo, a forma como isso vai acontecer não fará diferença. Ampliam-se as possibilidades sem a perda da razão de ser de seus produtos”, diz.

Os especialistas garantem que os maiores beneficiados pela mudança de postura serão os clientes. “Se o usuário tiver especialização técnica, ele mesmo resolve o problema dele, se não tiver, poderá contar com um número maior de fornecedores que poderão fazê-lo. O importante é que a abertura ocorra de fato e seja clara: o que será aberto e o que poderá ser feito”, diz Pagani, da IDC.

Meios diferentes
Apesar de o destino ser o mesmo, cada companhia, pelo menos até aqui, escolheu seu caminho. A Microsoft, por exemplo, reconhece a influência do mercado open source em seu modelo. “Esta influência é clara nos lançamentos que fizemos de 2002 para cá, como no Windows Server 2008”, exemplifica Roberto Prado, gerente de estratégia da Microsoft Brasil. Para ele, o conceito da interoperabilidade é dominante no mercado de software.

“O que motiva nossa indústria é a mobilidade digital. A tecnologia tem que ser flexível o bastante para funcionar em qualquer lugar”, diz. Por conta disso, a companhia disponibilizou APIs (Aplication Programming Interface) para diversos de seus produtos. “Não cobraremos royalties por isso. Acreditamos que projetos que atendam necessidades de nossos clientes farão com que nossa plataforma seja a escolha natural destas empresas. Logo, a abertura deve nos trazer mais negócios”, afirma.

Mais conservadora, a SAP ficou a meio caminho entre o software proprietário e a abertura de seus códigos, o que não deixa de ser uma evolução quando se fala da gigante alemã. Logo após o SAP Forum 2008, a companhia divulgou um comunicado dizendo ter, de fato, “uma estratégia de co-inovação que inclui abrir parte dos códigos de seus aplicativos para que parceiros e clientes desenvolvam soluções adicionais e complementares às plataformas já comercializadas pela empresa. Isso significa que a empresa pode fornecer, mediante pagamento de royalties, a base tecnológica para que desenvolvedores criem soluções especializadas e diferenciadas”.

A abertura acontece, mas não será ampla, geral e irrestrita. Em seu comunicado, a companhia deixa claro que “isso não representa que nossos códigos serão abertos e livres para uso de toda a comunidade de desenvolvedores. Essa estratégia visa manter a SAP na liderança do mercado de sistemas de negócios, com a ajuda inovadora de nossa rede de desenvolvedores, que hoje inclui mais de 1,1 milhão de profissionais”.

No caso da Datasul, a abertura diz respeito somente às interfaces de seus aplicativos. A partir do próximo dia 31 de abril, a companhia vai disponibilizar ao mercado cinco componentes e, até outubro, mais dez, que serão de uso livre pela comunidade de desenvolvedores. “A influência do usuário sobre o mercado faz com que ele só veja a tela do programa. Não interessa a linguagem. Com isso, a tela passa a ser a parte mais importante do software e a ergonomia é uma questão forte”, diz Jorge Steffens, reconhecendo que a companhia não tem interesse no desenvolvimento de interfaces.

O executivo reconhece, no entanto, a possibilidade de tornar a abertura mais abrangente. “Faz parte de nossa estratégia, no futuro, abrir nossas APIs. Não sabemos onde o modelo vai dar, mas o futuro pode nos reservar a abertura de outros códigos ou abrir acesso às nossas aplicações”, diz. Pagani, da IDC, diz que é cedo para desenhar o futuro. “Estas empresas estão botando o dedo na água. Nos próximos cinco anos veremos como clientes, desenvolvedores e fornecedores se acomodam no novo modelo”.