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Negócios

Empresas se unem para levar Linux a múltiplas plataformas

Unidos em torno da plataforma aberta, os oito maiores fabricantes de eletroeletrônicos do globo - Philips, Sony, Hitachi, Sharp, Toshiba, Samsung, NEC e Matsushita -prometem criar um padrão que atenda às suas necessidades de negócios.

Por André Borges

20 de agosto de 2003 - 10h52
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André Borges

Pode ser que usuários domésticos passem a utilizar Linux bem antes do que imaginam, talvez até mais do que software proprietários, como o "onipresente" Windows. Exagero? Entrelinhas, este é o recado que as oito maiores fabricantes de eletrônicos do mundo – Philips, Sony, Hitachi, Sharp, Toshiba, Samsung, NEC e Matsushita – estão dando ao mercado de software, hardware e usuários.

Em julho passado, os rivais históricos da indústria de consumo de eletrônicos decidiram deixar a concorrência um pouco de lado para somar esforços e instituir o Consumer Electronic Linux Forum (CELF), um acordo que tem como principal objetivo criar bases padronizadas de desenvolvimento e requerimentos para extensões da plataforma Linux, atendendo necessidades de equipamentos como TVs digitais, DVDs, CDs, celulares etc.

Aberto a qualquer outra empresa que queira se juntar aos gigantes, o fórum tem razões pontuais para existir. Uma delas está relacionada à avalanche de novos produtos que invade o mercado todos os dias e gera, inevitavelmente, um volume infinito de novas aplicações e códigos que, na grande maioria das vezes, não têm qualquer integração com outros produtos.

Isto ocorre porque, no mercado atual, cada indústria se encarrega de desenvolver sua própria programação e linguagem, o que torna praticamente impossível a compatibilidade entre seus integrantes, dificultando e encarecendo a tão aclamada convergência.

"O que acontece é que não temos uma plataforma única para desenvolver os produtos, mas sim aplicações específicas. Agora nossa proposta é de que haja uma base similar para que os produtos sejam desenvolvidos", explica Walter Duran, gerente de tecnologia da Philips para a América Latina.

O interesse da companhia holandesa pelo software livre não é recente. Há cerca de três anos, a Philips tem realizado testes para o uso da tecnologia, mas em pouco tempo acabou esbarrando em problemas como falta de certos componentes e suporte para a linguagem. Agora, com a crescente digitalização dos equipamentos de consumo, a companhia enxerga o Linux como o "principal detonador da nova era de software para estes produtos".

Causa e efeito

Se há limitações, então por que não optar por uma plataforma proprietária, que já conta com maior estrutura de suporte, manutenção, fornecedores e capacitação profissional? Para a Philips, a resposta é curta e simples: confidencialidade. "Teríamos que abrir dados estratégicos e confidenciais com qualquer fornecedor de tecnologia; seria uma transação arriscada demais", afirma Duran.

Além do fator confiança, o executivo diz que "nenhum outro software teria capacidade de atender todos os produtos eletrônicos que o consumidor utiliza", além de ter que envolver todas as companhias do setor.

A própria Philips assume que hoje existe um desafio pela frente: nem software livres ou proprietários – e aqui se incluem os que ela mesma fabrica – serão suficientes para atender a demanda de sistemas que o mercado passará a gerar.

"Hoje todos têm que manter o desenvolvimento de seus próprios software e isto pode se tornar extremamente custoso para a indústria". Segundo Duran, a situação do mercado eletrônico de consumo poderia ficar insustentável visto a quantidade de suporte, atualização e manutenção diferenciada que a indústria teria que oferecer.

Há argumentos reais que sustentam a preocupação. Hoje, a Philips detém quase 80 mil patentes. A cada ano, de acordo com informações da companhia, cerca de três mil novas idéias são registradas em todo o mundo. "É uma verdadeira indústria do conhecimento", diz.

Em pratos limpos

Decisão tomada, agora o objetivo comum das organizações envolvidas com o fórum é abrir a estrada que leva a um padrão internacional. "Nós vínhamos competindo muito e decidimos nos unir, percebemos que assim teremos muito mais eficiência", comenta Duran.

As companhias já estão ensaiando os primeiros passos nas terras da plataforma digital, estimulando pesquisa, desenvolvimento e investimentos na programação de código aberto. Segundo o executivo, este é um dos objetivos do fórum, que deve ampliar seu número de associados, já que é livre para colaboração. "O projeto também não exclui quem não está participando do fórum. Uma Nokia, por exemplo, que ainda não entrou no fórum, poderá produzir Linux".

Convites à parte, fica evidente que o simples fato de conter os nomes de peso da indústria mundial de eletroeletrônicos fará com que a iniciativa atraia, naturalmente, fornecedores de componentes e demais organizações que compõem a cadeia produtiva do setor. "Tudo está se tornando digital, é irreversível. Eu acho inclusive que fornecedores de software proprietário devem passar a oferecer conhecimento para Linux", arrisca.

E o preço?

A Philips promete que, na hora de passar a régua, a estratégia também significará redução de custos no bolso do consumidor final. Para que isto se torne realidade, as gigantes dos eletrônicos estão empenhadas nas seguintes metas: melhorar o tempo de início e desligamento de dispositivos; ampliar as capacidades de operar em tempo real; reduzir os requisitos de tamanho de ROM/RAM; e aprimorar a eficiência do consumo de energia. "Com certeza, estas iniciativas permitirão redução de preços", afirma o gerente de TI da companhia. Entre outras conseqüências, as empresas declaram que os aparelhos de consumo também serão mais fáceis de operar. Ao contrário do que acontece hoje com os computadores que operam com Linux – que, embora estejam se aperfeiçoando rapidamente, ainda não apresentam interfaces tão amigáveis – os novos equipamentos prometem facilitar a vida do consumidor. "A linguagem é só uma ponte. O usuário não se preocupa com isso, o que ele quer é um produto de qualidade, que atenda suas necessidades". De acordo com o presidente da Philips do Brasil e América Latina, Marcos Magalhães, as mudanças serão mais nítidas junto daquele que ainda hoje é o principal eletroeletrônico do cidadão brasileiro: a televisão. "São aproximadamente 45 milhões de aparelhos em todo o País, todos operando com padrão analógico", diz. Paralelos aos objetivos da Philips com a plataforma aberta, estão os projetos de desenvolvimento de ferramentas e soluções para a esperada TV digital interativa, baseada na chamada plataforma DVB-MHP (Digital Video Broadcast – Multimedia Home Platform), atualmente o padrão mais utilizado no mundo.

E o Brasil entrou na dança

No último mês, a Philips inaugurou seu oitavo instituto de pesquisa e desenvolvimento. Implantado na Zona Franca de Manaus, o Laboratório Philips da Amazônia contará com o apoio de pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).

Com investimento inicial de R$ 5 milhões, o laboratório nasce com o propósito de ampliar a formação de especialistas em novas tecnologias e aprofundar estudos de aplicações para produtos.

Atualmente, segundo Walter Duran, nenhuma das empresas que compõem o CELF possui este tipo de laboratório no Brasil e, até então, apenas a matriz da companhia tinha uma equipe focada no desenvolvimento de equipamentos suportados por código livre. "Agora, todas as aplicações que serão criadas e estudadas no novo centro de estudos terão como base a plataforma Linux", declara.

Nesta primeira etapa, cerca de 100 pessoas estão envolvidas com dois projetos iniciais, ambos relacionados à interatividade e convergência de meios de comunicação. O primeiro núcleo se concentrará em tecnologias para a televisão digital com padrão DVB, destinadas à exportação, uma vez que o Brasil ainda não determinou que plataforma de transmissão adotará.

Contudo, mesmo que o País decida por outro padrão, as soluções desenvolvidas em MHP pelo laboratório prometem se adequar a qualquer outro sistema digital. "Independente do padrão que venha a se escolher, o trabalho será aproveitado", afirma o professor da Poli-USP, Marco Túlio Carvalho de Andrade. Na década de 60, conta o professor, quando o Brasil ainda escolhia qual padrão analógico adotaria, a Escola Politécnica teve participação ativa.

O segundo núcleo de estudos do laboratório se voltará ao desenvolvimento de pesquisas para o projeto global conhecido por CISMUNDOS (Convergence of IP based Services for Mobile User and Networks in DVB-T and UMTS Systems). Trata-se de uma iniciativa que tem por objetivo integrar serviços que ainda não se comunicam entre si, como radiodifusão (som e imagem), telefonia (fixa e celular) e a transmissão de dados (por qualquer meio ou conteúdo). Uma fase inicial do projeto está empenhada em integrar tecnologias celulares de padrão GSM (Global System for Mobile Communications) e TV digital. Em Manaus, a pesquisa será conduzida em parceria com a TV Cultura de São Paulo, responsável pela coordenação do projeto no País.

Para estreitar cada vez mais o desenvolvimento de soluções às reais necessidades dos consumidores, a Philips planeja colocar em operação mais do que físicos, engenheiros, matemáticos e técnicos. Não serão apenas cientistas trabalhando, mas, de acordo com o presidente da companhia, Marcos Magalhães, também haverá um grupo especialistas em ciências humanas, como psicólogos e antropólogos. "Teremos um conselho multidisciplinar", diz.

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