Negócios
Empresas se unem para levar Linux a múltiplas plataformas
Unidos em torno da plataforma aberta, os oito maiores fabricantes de eletroeletrônicos do globo - Philips, Sony, Hitachi, Sharp, Toshiba, Samsung, NEC e Matsushita -prometem criar um padrão que atenda às suas necessidades de negócios.
Por André Borges
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André Borges
Pode ser que usuários domésticos passem a utilizar Linux bem antes do que imaginam, talvez até mais do que software proprietários, como o "onipresente" Windows. Exagero? Entrelinhas, este é o recado que as oito maiores fabricantes de eletrônicos do mundo Philips, Sony, Hitachi, Sharp, Toshiba, Samsung, NEC e Matsushita estão dando ao mercado de software, hardware e usuários.
Em julho passado, os rivais históricos da indústria de consumo de eletrônicos decidiram deixar a concorrência um pouco de lado para somar esforços e instituir o Consumer Electronic Linux Forum (CELF), um acordo que tem como principal objetivo criar bases padronizadas de desenvolvimento e requerimentos para extensões da plataforma Linux, atendendo necessidades de equipamentos como TVs digitais, DVDs, CDs, celulares etc.
Aberto a qualquer outra empresa que queira se juntar aos gigantes, o fórum tem razões pontuais para existir. Uma delas está relacionada à avalanche de novos produtos que invade o mercado todos os dias e gera, inevitavelmente, um volume infinito de novas aplicações e códigos que, na grande maioria das vezes, não têm qualquer integração com outros produtos.
Isto ocorre porque, no mercado atual, cada indústria se encarrega de desenvolver sua própria programação e linguagem, o que torna praticamente impossível a compatibilidade entre seus integrantes, dificultando e encarecendo a tão aclamada convergência.
"O que acontece é que não temos uma plataforma única para desenvolver os produtos, mas sim aplicações específicas. Agora nossa proposta é de que haja uma base similar para que os produtos sejam desenvolvidos", explica Walter Duran, gerente de tecnologia da Philips para a América Latina.
O interesse da companhia holandesa pelo software livre não é recente. Há cerca de três anos, a Philips tem realizado testes para o uso da tecnologia, mas em pouco tempo acabou esbarrando em problemas como falta de certos componentes e suporte para a linguagem. Agora, com a crescente digitalização dos equipamentos de consumo, a companhia enxerga o Linux como o "principal detonador da nova era de software para estes produtos".
Causa e efeito
Se há limitações, então por que não optar por uma plataforma proprietária, que já conta com maior estrutura de suporte, manutenção, fornecedores e capacitação profissional? Para a Philips, a resposta é curta e simples: confidencialidade. "Teríamos que abrir dados estratégicos e confidenciais com qualquer fornecedor de tecnologia; seria uma transação arriscada demais", afirma Duran.
Além do fator confiança, o executivo diz que "nenhum outro software teria capacidade de atender todos os produtos eletrônicos que o consumidor utiliza", além de ter que envolver todas as companhias do setor.
A própria Philips assume que hoje existe um desafio pela frente: nem software livres ou proprietários e aqui se incluem os que ela mesma fabrica serão suficientes para atender a demanda de sistemas que o mercado passará a gerar.
"Hoje todos têm que manter o desenvolvimento de seus próprios software e isto pode se tornar extremamente custoso para a indústria". Segundo Duran, a situação do mercado eletrônico de consumo poderia ficar insustentável visto a quantidade de suporte, atualização e manutenção diferenciada que a indústria teria que oferecer.
Há argumentos reais que sustentam a preocupação. Hoje, a Philips detém quase 80 mil patentes. A cada ano, de acordo com informações da companhia, cerca de três mil novas idéias são registradas em todo o mundo. "É uma verdadeira indústria do conhecimento", diz.
Em pratos limpos
Decisão tomada, agora o objetivo comum das organizações envolvidas com o fórum é abrir a estrada que leva a um padrão internacional. "Nós vínhamos competindo muito e decidimos nos unir, percebemos que assim teremos muito mais eficiência", comenta Duran.
As companhias já estão ensaiando os primeiros passos nas terras da plataforma digital, estimulando pesquisa, desenvolvimento e investimentos na programação de código aberto. Segundo o executivo, este é um dos objetivos do fórum, que deve ampliar seu número de associados, já que é livre para colaboração. "O projeto também não exclui quem não está participando do fórum. Uma Nokia, por exemplo, que ainda não entrou no fórum, poderá produzir Linux".
Convites à parte, fica evidente que o simples fato de conter os nomes de peso da indústria mundial de eletroeletrônicos fará com que a iniciativa atraia, naturalmente, fornecedores de componentes e demais organizações que compõem a cadeia produtiva do setor. "Tudo está se tornando digital, é irreversível. Eu acho inclusive que fornecedores de software proprietário devem passar a oferecer conhecimento para Linux", arrisca.
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E o Brasil entrou na dança
No último mês, a Philips inaugurou seu oitavo instituto de pesquisa e desenvolvimento. Implantado na Zona Franca de Manaus, o Laboratório Philips da Amazônia contará com o apoio de pesquisadores da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) e da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
Com investimento inicial de R$ 5 milhões, o laboratório nasce com o propósito de ampliar a formação de especialistas em novas tecnologias e aprofundar estudos de aplicações para produtos.
Atualmente, segundo Walter Duran, nenhuma das empresas que compõem o CELF possui este tipo de laboratório no Brasil e, até então, apenas a matriz da companhia tinha uma equipe focada no desenvolvimento de equipamentos suportados por código livre. "Agora, todas as aplicações que serão criadas e estudadas no novo centro de estudos terão como base a plataforma Linux", declara.
Nesta primeira etapa, cerca de 100 pessoas estão envolvidas com dois projetos iniciais, ambos relacionados à interatividade e convergência de meios de comunicação. O primeiro núcleo se concentrará em tecnologias para a televisão digital com padrão DVB, destinadas à exportação, uma vez que o Brasil ainda não determinou que plataforma de transmissão adotará.
Contudo, mesmo que o País decida por outro padrão, as soluções desenvolvidas em MHP pelo laboratório prometem se adequar a qualquer outro sistema digital. "Independente do padrão que venha a se escolher, o trabalho será aproveitado", afirma o professor da Poli-USP, Marco Túlio Carvalho de Andrade. Na década de 60, conta o professor, quando o Brasil ainda escolhia qual padrão analógico adotaria, a Escola Politécnica teve participação ativa.
O segundo núcleo de estudos do laboratório se voltará ao desenvolvimento de pesquisas para o projeto global conhecido por CISMUNDOS (Convergence of IP based Services for Mobile User and Networks in DVB-T and UMTS Systems). Trata-se de uma iniciativa que tem por objetivo integrar serviços que ainda não se comunicam entre si, como radiodifusão (som e imagem), telefonia (fixa e celular) e a transmissão de dados (por qualquer meio ou conteúdo). Uma fase inicial do projeto está empenhada em integrar tecnologias celulares de padrão GSM (Global System for Mobile Communications) e TV digital. Em Manaus, a pesquisa será conduzida em parceria com a TV Cultura de São Paulo, responsável pela coordenação do projeto no País.
Para estreitar cada vez mais o desenvolvimento de soluções às reais necessidades dos consumidores, a Philips planeja colocar em operação mais do que físicos, engenheiros, matemáticos e técnicos. Não serão apenas cientistas trabalhando, mas, de acordo com o presidente da companhia, Marcos Magalhães, também haverá um grupo especialistas em ciências humanas, como psicólogos e antropólogos. "Teremos um conselho multidisciplinar", diz.
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