Negócios
Cresce demanda por soluções de supply chain
A cautela nos investimentos não impede que um número maior de empresas recorra aos software de gestão da cadeia de suprimentos para melhorar processos internos. Fatores relacionados ao momento atual do mercado de TI, à agilidade nas relações comerciais e à economia justificam interesse.
Por André Borges
Compartilhe:
André Borges
Por que será que a consultoria BearingPoint decidiu recentemente contratar 20 novos consultores para atender a projetos de supply chain management (SCM)? O que leva a fornecedora de diversas soluções corporativas J.D. Edwards a ter como principal foco estratégico os produtos de SCM? E ao que se deve o fato de na SAP a demanda por essas soluções já superar a procura por ferramentas de relacionamento com clientes (CRM)? Fatores relacionados ao momento atual do mercado de TI, à agilidade nas relações comerciais e à economia do país podem ajudar a responder essas questões e entender por que as soluções de gestão e integração da cadeia de valor estão atraindo grandes e médias empresas.
De um lado, está o amadurecimento tecnológico dos usuários, que depois das complexas implementações dos sistemas de gestão interna e de contato com o cliente se vêem diante da obrigação de remendar os buracos de sua malha de parceiros. De outro, estão fatores econômicos como o crescente volume de exportações do setor privado favorecido pela desvalorização do real frente ao dólar , o que também joga a favor do aprimoramento das transações comerciais. Até o final deste ano, a Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB) estima que a exportação nacional atinja a cifra de US$ 67,6 bilhões, um crescimento de 12% sobre os resultados de 2002.
Há ainda um terceiro fator apontado pelos especialistas como um diferencial desses produtos, que é a facilidade de se medir o impacto imediato de sua implementação. Os benefícios são claros, tangíveis, e a empresa consegue enxergar e projetar o retorno sobre o investimento, afirma Ricardo Coelho, gerente de supply chain da J.D. Edwards. Segundo ele, o caráter estratégico das soluções de SCM está fazendo com que elas saiam da área de TI e envolvam outras divisões das empresas.
De acordo com analistas, outra variável que pode explicar o interesse e os investimentos em soluções de SCM é que, apesar não ser algo novo, esse ainda é um mercado inexplorado. A verdade é que ainda há muito mistério em torno do conceito. É necessário educar o mercado, comenta Celso Isberner, sócio-diretor da UniOne, especializada em consultoria e implementação de soluções corporativas. Para difundir as soluções e o conceito, a empresa tem realizado diversos seminários para usuários atuais e potenciais. Na avaliação de Oscar Caipo, gerente geral da consultoria BearingPoint, o setor corporativo está começando a enxergar o SCM não apenas como aparato tecnológico. Além da adoção de ferramentas e de estratégias como e-procurement, as empresas estão mais preocupadas com a gestão de processos, nos quais a tecnologia é apenas uma ferramenta.
Operações sob controle
Não é por acaso que a maior parte dos projetos implementados pelas empresas ainda estão mais atrelados ao caráter operacional ou tático de suas transações, do que ao estratégico, propriamente. Atualmente, a preocupação da grande empresa é resolver problemas de falta de processo. Muitas delas têm um chão de fábrica ocioso e um estoque alto e precisam dar jeito nessa situação, afirma Luiz Grandisoli, gerente de projetos da divisão de comércio da Unisys Brasil.
Exemplo dessa realidade é a LG Philips, que há cerca de um ano iniciou a integração de suas quatro unidades instaladas nas cidades de Capuava, São José dos Campos, Manaus e Recife. Resultante da fusão entre a Philips Display Components e a LG Electronics Displays Devices, a empresa produz cinescópios para televisores das marcas Philips, LG, Panasonic, Semp-Toshiba, entre outras.
Com a adoção de um dos sistemas da Baan, especializada em soluções para gestão industrial, o projeto focou inicialmente a unidade de São José dos Campos, integrando todas as informações de vendas, logística, produção e distribuição, em tempo real, realizadas pela unidade. Agora estamos finalizando o processo em Manaus e Recife também está em andamento, conta Celso Eduardo Bueno, analista de TI da LG Philips.
O objetivo da empresa é integrar as quatro unidades. Com a base atual em operação, a companhia passou a atender demandas detalhadas de seus clientes em território nacional e internacional, devido a um controle rígido dos processos. A programação de vendas, que era mensal e semanal, passou a ser diária, permitindo sincronia com a saída dos produtos para o transporte. Manaus é um local que exige pontualidade. Se antes tínhamos que carregar uma carreta cheia de equipamentos, hoje podemos enviar pedidos de 200, 300 ou 2 mil unidades, comenta Luiz Carlos Octaviano, analista de planejamento, programação e controle de produção da companhia.
Além de ter alcançado melhor qualidade e agilidade no atendimento, a LG Philips coloca na ponta do lápis a economia anual que seu projeto de automação de processos de logística já proporciona: US$ 1,2 milhão. O sucesso do projeto fez com que servisse também de modelo para unidades da companhia em outros países da América Latina.
Em menor proporção, outro bom exemplo dos reflexos imediatos que as ferramentas de supply chain podem proporcionar é a rede de supermercados G. Barbosa, que atua nas regiões Norte e Nordeste do país. Pertencente ao grupo Royal Ahold também proprietário do grupo Bom Preço , a G. Barbosa decidiu automatizar e padronizar seus pedidos de mercadorias e o recebimento de notas fiscais emitidas pelos seus 9 mil fornecedores.
Atualmente, a companhia registra cerca de 11,4 mil pedidos por mês junto de seus parceiros. Desses, 7% são via EDI (Electronic Data Interchange), os demais 93% são feitos pelo representante comercial do próprio fornecedor, que vem até a loja. Mas até o fim deste ano, cerca de 60% devem passar a utilizar o EDI para fazer os pedidos, projeta Fábio Batista Santos, analista de sistemas da rede de supermercados.
Benefícios tangíveis
A emissão de notas fiscais por parte dos fornecedores também está sendo centralizada pela internet. Para isso, a G. Barbosa contratou serviços de EDI e integração da Proceda, IBM, Mercador e Interchange. A função dessas companhias de tecnologia é converter diferentes formatos de notas fiscais para um único padrão e meio de recebimento. Santos reconhece que sua empresa deve impor a migração aos seus fornecedores. Por isso decidimos trabalhar com quatro integradores diferentes, para que eles possam escolher o que mais lhes convêm, explica Santos.
Como resultado, a G. Barbosa passou a ter mais agilidade no atendimento dos pedidos, na recepção de notas fiscais antes do recebimento dos produtos e mais velocidade no descarregamento do caminhão, entre outros benefícios.
Assim como em todo o mercado de TI de empresas de soluções a prestadores de serviços como integradores e consultorias a maior parte dos fornecedores de tecnologias de SCM reduziu o preço dos sistemas nos últimos anos. De maneira geral, o preço do software de caiu em média 50% de um ano e meio para cá, comenta Celso Isberner, da UniOne. Mas a SAP, segundo sua diretora de suporte a vendas no Brasil, Meva Duran, é exceção à regra. Nosso preço não caiu. O que identificamos é que os projetos passaram a ser desenvolvidos em fases, atendendo necessidades pontuais das empresas, aponta.
O diretor de soluções da consultoria Neoris, Lucio Colangelo, observa com senso crítico o interesse em soluções de supply chain e ressalta que o crescimento não deve ser tão forte no curto prazo. São tecnologias com alto potencial de mercado, mas muitas empresas ainda estão preocupadas em melhorar processos com aquilo que já possuem, comenta.
Cautela também faz parte da postura de Giuseppe Varalla, gerente de pré-vendas da Baan, embora o volume de negócios de SCM na companhia já registre crescimento de 20% este ano, em relação ao mesmo período de 2002. Sabemos que os projetos são modulares e que, aos poucos, as empresas estão notando certo despreparo para crescer e se relacionar com o mercado, diz.
Das razões que hoje levam uma companhia a adotar uma solução para gerir sua cadeia de valor, Grandisoli, da Unisys Brasil, ressalta a necessidade de se adotar uma postura estratégica. É preciso não confundir redução de custos com as oportunidades que essas mudanças possam gerar, finaliza o executivo.
|
|Computerworld - Edição 393 - 03/09/2003|
Conheça os 100 melhores CIOs do país
60 melhores empresas de TI e Telecom para trabalhar
A elite do RH de TI e Telecom no Brasil
Computerworld e Instituto GPTW apresentam as Melhores Empresas de TI e Telecom para Trabalhar 2009.
Veja o Especial


