Negócios
Consolidação chega ao mercado de BI
Uma série de aquisições começa a mudar a face dos fornecedores de soluções de business intelligence, mas ainda é difícil saber como ficará definido o cenário do setor.
Por Ricardo Cesar
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Ricardo Cesar
Cognos compra a Adaytum, a Business Objects adquire a Crystal Decisions, a Hyperion incorpora a Brio Software e esta é apenas uma parte da lista. O ano de 2003 pode ter sido tudo, menos calmo no mercado de fornecedores de soluções de business intelligence (BI). Talvez um pouco ofuscadas pelas movimentações de maior porte que aconteceram entre as gigantes de sistemas de gestão empresarial (ERP) no mesmo período, essas fusões estão redefinindo um dos setores mais quentes no mundo da tecnologia da informação. Para onde caminha esse mercado?
Embora a poeira ainda não tenha baixado, uma coisa é certa: os grandes estão se tornando maiores e os pequenos estão encolhendo ou mesmo desaparecendo entre os fornecedores do setor. Toda essa movimentação está relacionada com a maturidade do mercado. Quando um negócio está crescendo rapidamente, aumenta o número de fornecedores. Agora o setor está crescendo menos e começa a consolidação, afirma Frank Buytendijk, presidente de conselhos de pesquisa do Gartner. Para sobreviver neste nicho é preciso certas habilidades e um certo tamanho.
O diretor da Hyperion para a América Latina, Antônio Rihl, faz uma distinção entre o que está ocasionando as fusões no mercado de ERP e BI. No primeiro grupo, as negociações, que envolvem valores sempre acima de US$ 1 bilhão, ocorrem entre empresas que têm produtos similares com o objetivo de adquirir base de clientes. Em BI a lógica é que as empresas querem oferecer uma plataforma completa e buscam as funcionalidades nas quais ainda são fracas, diz.
Exatamente por isso, Rihl não acredita que os CIOs devam se preocupar muito com a consolidação de mercado na hora de escolher uma plataforma de BI. Em uma junção de iguais, cujo objetivo é adquirir a base de clientes, a tecnologia pode ser extinta. Mas nessas fusões de BI, o cliente se fortalece, pondera. O CIO deve ter em vista que a tecnologia não vai desaparecer, porque é justamente ela que está sendo comprada.
Cenário turvo
Para complicar ainda mais o cenário, as empresas de ERP também estão de olho. É o que mostrou a canadense Geac, que atua nessa área, ao comprar a Comshare, empresa de business intelligence fundada em 1966, por US$ 52 milhões. SAP, Oracle e PeopleSoft oferecem ferramentas de BI e não seria surpresa se resolvessem ir às compras para ampliar seu portfólio de soluções.
Por fim, as gigantes de soluções de TI, como IBM e Microsoft, também atuam nessa área. Estamos crescendo muito com BI, diz Adrian Duran, gerente de consultoria de vendas da Oracle no Brasil. Temos uma solução completa, desde o ERP até cada uma das ferramentas, e tudo integrado. Diria que no futuro as empresas com mais abrangência terão sucesso nesse mercado.
Segundo uma análise do Giga Research, subsidiária do Forrester Research, os fornecedores com menor poder financeiro no mercado de BI, como MicroStrategy, Actuate ou Information Builders, estão propensos a serem adquiridos ou juntar forças com empresas de tecnologia de maior porte.
Quem pode trata de crescer para não ser engolido, o que explica boa parte da consolidação a que se assiste no setor. Cinco anos atrás, os atuais líderes de BI não eram citados como líderes. Nada garante que dentro de mais cinco anos os nomes que falamos hoje serão os mesmos, afirma Wagner Damiani, professor da Escola de Administração de Empresas da FGV.
A lógica que norteou cada grande movimentação deste mercado é diferente, assim como as futuras implicações de cada fusão. A que fez mais barulho foi a da Business Objects com a Crystal Decisions, a começar pelo valor da transação US$ 820 milhões , a maior da história do setor.
As duas empresas juntas terão receitas anuais de mais de US$ 750 milhões, uma boa diferença em relação à segunda colocada, a Cognos, que apresenta receitas de cerca de US$ 600 milhões. Além disso, a Crystal vinha apresentando taxas de crescimento superiores a 30% ao ano e uma atraente margem de rentabilidade de 14%.
O diretor de marketing da Business Objects na América Latina, Roberto de Carvalho, avalia que a companhia resultante da união está a caminho de se tornar a primeira empresa pura de BI com faturamento acima de US$ 1 bilhão. Antes tínhamos empresas brigando cabeça a cabeça, agora a BO assumiu claramente a liderança deste mercado, diz o executivo.
Ainda assim, o Olap Report, um serviço de análises e pesquisas deste setor, classifica a aquisição como um movimento defensivo, já que a Crystal estava ameaçada pelo novo Microsoft Reporting Services, uma funcionalidade incorporada no SQL Server, e por novas soluções de reporting da Cognos e MicroStrategy.
Buytendijk, do Gartner, alerta que há uma parcela de sobreposição nas tecnologias de ambas as empresas e que a integração demandará esforços consideráveis. Carvalho, no entanto, defende que a tecnologia de reporte corporativo da Crystal é muito mais complementar do que redundante com as soluções da BO. O objetivo desse negócio foi adquirir a tecnologia da Crystal,
não apenas comprar market share, diz.
A aquisição da Brio Software pela Hyperion ocorreu em um contexto diferente, já que, ao contrário da Crystal, a Brio passava por problemas financeiros e dava mostras de que não conseguiria sobreviver sozinha neste mercado. Com receitas de US$ 101,8 milhões nos 12 meses até junho de 2003, a empresa era forte candidata a ser comprada.
O negócio, no entanto, tem muitos pontos altos. Não há sobreposição de linhas de produtos e a Hyperion precisava de soluções de relational query e reporting especialidades da Brio. Até as sedes das duas empresas são quase vizinhas. A
complementaridade das soluções é muito grande e não há tantos desafios de integração, diz Buytendijk.
Por outro lado, a transação de US$ 157 milhões em que a Cognos comprou a Adaytum, dando a largada na temporada 2003 de consolidação no mercado de BI, parece ter um forte viés de ganhar mercado. A Cognos pretende manter as altas taxas de crescimento da Adaytum usando a estrutura de vendas da companhia adquirida.
Mas nem todas as companhias escolheram a estratégia de aquisições. O diretor-geral da MicroStrategy no Brasil, Flávio Bolieiro, afirma que a empresa não partiu para compras porque optou por desenvolver em casa uma suíte com todas as
ferramentas necessárias para BI. A vantagem é que as funções já são integradas. O desafio da integração técnica é muito
grande nessa linha de produtos, diz.
Já os concorrentes e alguns analistas sustentam que a companhia não fez aquisições porque após dois anos seguidos perdendo participação de mercado e com receitas anuais em torno de US$ 170 milhões, é mais forte candidata a ser comprada do que o contrário.
Para onde vai?
Ainda é cedo para prever onde essa onda de consolidação vai desaguar. É preciso considerar que se trata de um mercado que guarda bom potencial de crescimento o Gartner estima uma taxa anual média de 8,5% entre 2004 e 2006 e, portanto, desperta a atenção de grandes empresas.
Bolieiro, da MicroStrategy, acredita que o mercado será dividido em dois segmentos: soluções de BI para empresas com necessidade de maior poder analítico e soluções mais simples e de baixo custo para empresas com menos necessidade de análise de dados. Na visão do executivo, MicroStrategy e Hyperion se enquadram na primeira categoria, enquanto Cognos, Business Objects e a Microsoft atendem ao segundo segmento.
Já Carvalho, da Business Objects, acredita que a forma que o mercado de BI vai adquirir no futuro será moldada pelo fato de os clientes estarem buscando soluções cada vez mais completas ao invés de trabalhar com cada fornecedor isoladamente. Por isso, oferecer um pacote que tenha desde ferramentas de extração e movimentação de dados até a geração de consultas e relatórios tornou-se importante. À medida que BI deixa de ser departamental e passa a ser uma solução para toda a companhia, a padronização torna-se uma tendência. Acreditamos que este movimento será muito forte e vamos nos beneficiar com ele.
Bolieiro também sustenta que existe uma razão tecnológica para a onda de fusões no setor. O executivo explica que business intelligence é um termo amplo que compreende ferramentas de reporting (consultas em cima de uma base dados), OLAP (análises multidimensionais), distribuição de informação, data mining, ferramentas estatísticas e indicadores. Hoje, as diferentes funções são atendidas por fornecedores distintos. Mas a tendência é que uma mesma software house ofereça o pacote completo.
O gerente de contas estratégicas da Cognos, Anderson Gomes, concorda com a análise. Antes havia fornecedores de BI com foco em cada uma das áreas. Hoje é preciso uma empresa de BI que ofereça uma plataforma completa, diz.
| Hora de comprar Neste ano, o mercado de BI passou por uma série de fusões e aquisições: |
| 13 de janeiro Fechada a compra da Adaytum Software pela Cognos por US$ 157 milhões, consumando um negócio que havia sido anunciado em 19 dezembro de 2002. A Cognos tem a intenção de manter as altas taxas de crescimento da Adaytum, usando a estrutura de vendas da empresa adquirida. A tecnologia em si não é tão valiosa, já que há sobreposição de produtos. |
| 23 de junho A canadense Geac, que atua no mercado de ERP, anunciou a aquisição da Comshare por US$ 52 milhões em dinheiro. Uma das mais antigas empresas especializadas no mercado de BI, a Comshare foi fundada em 1966 e tinha receitas de US$ 58,3 milhões. |
| 18 de julho A Business Objects comprou a Crystal Decisions por US$ 820 milhões. As duas empresas juntas terão receitas anuais de aproximadamente US$ 750 milhões, uma boa diferença em relação ao segundo colocado, Cognos, que apresenta receitas de cerca de US$ 600 milhões. |
| 23 de julho A Hyperion Solutions anunciou a aquisição da Brio Software, que passava por problemas há alguns anos e não estava se saindo bem na disputa com a Business Objects, Cognos, Crystal e MicroStrategy. A Hyperion pagou cerca de US$ 142 milhões em dinheiro e ações. A Brio tinha receitas de US$ 101,8 milhões no ano até junho de 2003. |
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