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Especial 400: Conveniência ou Privacidade?

Em artigo publicado na edição especial do COMPUTERWORLD, o diretor do Institute for the Future, Paul Saffo, faz uma análise sobre uma das principais moedas de troca da sociedade junto das inovações tecnológicas: a liberdade pessoal.

23 de janeiro de 2004 - 12h39
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A possibilidade de uso de etiquetas de identificação por radiofreqüência em produtos causa arrepios nos defensores da liberdade pessoal, mas a imensa maioria dos consumidores, se puder escolher entre privacidade e conveniência, escolherá a última.

CONVENIÊNCIA OU PRIVACIDADE?

PAUL SAFFO*

Mais cedo ou mais tarde, etiquetas de identificação por freqüência de rádio (radio frequency identification – RFID) estarão nos produtos que você vier a comprar. Esses pequenos chips vão revolucionar a logística de estoque, mas a perspectiva de implementação na ponta do varejo já está deixando os defensores da privacidade nervosos. A má notícia: o comércio sairá vitorioso contra as preocupações com privacidade. A boa notícia: ao mesmo tempo que a implementação nos processos internos do comércio é iminente, o aspecto econômico de RFID vai retardar sua presença nos pontos-de-venda ao consumidor por algum tempo. A única certeza sobre a implementação de RFID é que será um vôo turbulento.

Grande parte do alvoroço em torno da identificação por freqüência de rádio se deve à Gillette, cuja encomenda de 500 milhões de chips RFID no início do ano jogou a tecnologia no noticiário.O Wal-Mart pôs mais lenha na fogueira informando aos seus fornecedores que todos os produtos que ela vende precisam conter etiquetas RFID. Até a Microsoft está entrando no jogo com o anúncio de que pretende desenvolver software e serviços para suportar o uso de RFID nos setores de varejo e industrial.

Esses planos ambiciosos são norteados pela crença de que RFID vai revolucionar o rastreamento e o gerenciamento de tudo, desde equipamento industrial a produtos farmacêuticos e até maços de alface. Colocando- se um chip RFID em uma peça ou uma embalagem, um objeto “pode prestar contas de si” sempre que recebe um sinal de rádio de um sensor de rastreio. Indústrias com problemas específicos serão usuárias pioneiras: o interesse da Gillette por RFID advém principalmente de seu desejo de solucionar furtos de lâminas de barbear, enquanto que os fabricantes de cigarro querem aderir a RFID em um esforço para deter o rointerestadual de cigarros. Levado ao extremo, a etiqueta de identificação por radiofreqüência é nada menos do que o sucessor do onipresente código de barra.

Embora a trajetória de RFID seja clara, a velocidade de sua adoção é mais incerta. Hoje, o chip de identificação de radiofreqüência mais barato ainda custa acima de dois centavos e meio de dólar em volume. Barato em comparação ao usado em um laptop, mas extremamente caro se for contabilizada a existência de um chip em cada caixa de leite ou garrafa de detergente. Há também o custo das leitoras de etiquetas e a infra-estrutura extremamente complexa necessária para coletar, examinar e mover o vasto volume de dados que etiquetas de identificação por radiofreqüência geram. Não admira que o Wal-Mart tenha desacelerado seus planos de implementação anunciados anteriormente. Organizar tudo isso é tarefa para uma década, mas a indústria tem uma dianteira.

Graças à liderança do MIT Auto-ID Center, na realidade um consórcio de empresas pioneiras no uso de etiquetas de identificação por radiofreqüência em múltiplas indústrias, existe um padrão de RFID amplamente aceito. Ilhas de uso de RFID diretamente pelo consumidor já estão aparecendo. Alguns anos atrás, a Biblioteca Nacional de Cingapura colocou chips em todos os seus livros: os próprios leitores fazem o registro de saída dos livros e repositórios “inteligentes”, automaticamente, fazem o registro das devoluções.

Implicações imprevisíveis

Os chips RFID do futuro não serão apenas números de série emitidos. Eles também vão transportar dados e uma infinidade de sensores, transformando objetos inertes em smartifacts – artefatos inteligentes que interagem com o ambiente ao redor. Se somarmos tudo isso ao frenesi das ferramentas de busca atuais, aposto que acabaremos tendo “IndexBots” correndo pela paisagem, caçando e catalogando cada chip RFID que encontram.

Não surpreende que os defensores da privacidade do consumidor já estejam se atormentando por causa de RFID. As implicações da privacidade em um mundo de smartifacts são tão arrepiantes quanto imprevisíveis. Etiquetas de identificação por radiofreqüência em si não estão invadindo a privacidade – o risco é determinado pela arquitetura do padrão RFID e dos sistemas de suporte. Mas desenvolvimentos em outras áreas não oferecem alívio. Considere o sistema de pedágio eletrônico para passagem rápida (FasTrak), um sistema que poderia ser anônimo, mas que rastreia e registra zelosamente onde e quando os carros cruzam pontos de pedágio. A promessa dos desenvolvedores de que o FasTrak nunca seria usado para nada além de pedágios já foi quebrada na Califórnia, onde sensores adicionais estão sendo implantados para rastrear transponders do FasTrak com o objetivo de analisar e controlar o fluxo de tráfego. Novamente, foi prometido ao público que dados individuais não estão sendo mantidos, mas nesses tempos de obsessão com o terror não é preciso ser paranóico para reagir com um sorriso cínico de descrença.

Desconfio que o maior desafio para a privacidade não virá da atitude de uma empresa ou de um governo, mas do consumidor.No curto prazo, os mesmos consumidores que reclamam da privacidade provavelmente serão felizes compradores de sistemas de estoque domésticos baseados em RFID. Mesmo que não gostem, vão acabar colocando chips de identificação por radiofreqüência em seus animais de estimação e nas mochilas escolares de seus filhos.

E, quando RFID for implementado nas lojas, seus proponentes, inevitavelmente, vão estabelecer links com aparelhos domésticos. Considere um futuro cenário de compras em casa em que geladeiras equipadas com sensores rastreiam o que é usado, fazem pedidos de compra e até alertam os consumidores se o leite que eles estão prestes a beber está com a validade vencida. Consumidores desconfiados poderiam desabilitar chips nos itens que compram, mas, nesse caso, teriam que fazer seus pedidos manualmente. Os americanos parecem falcões da privacidade, mas também são preguiçosos e ávidos por qualquer coisa que soe a bom negócio. A imensa maioria dos consumidores, se puder escolher entre privacidade e conveniência, certamente escolherá a última.

PAUL SAFFO é diretor do Institute for the Future e desenvolve estudos sobre tendências da tecnologia da informação a longo prazo e seus efeitos sobre negócios, cultura e sociedade. Seus trabalhos estão disponíveis no endereço www.saffo.org.

Todas as matérias desta edição:
Especial 400: A guerra da inovação
Especial 400: Mulheres e o mundo da TI
Especial 400: Computadores e o Budismo
Especial 400: Uma pausa para a reflexão
Especial 400: Um Raio X da tecnologia na atualidade
Especial 400: Passado, Presente e Futuro da TI

Opinião do Leitor
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