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Entidade defende união entre Brasil e Argentina na exportação

Será que Brasil e Argentina caminham para serem concorrentes no mercado internacional de programas de computadores? Em entrevista ao COMPUTERWORLD, o presidente da Câmara de Empresas de Tecnologia da Informação da Argentina, Carlos Pallotti, diz que a resposta é não.

09 de agosto de 2004 - 10h49
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Ricardo Cesar

É sabido que as economias do Brasil e da Argentina são muito ligadas, mas não deixa de ser surpreendente como os setores de software de ambos os países guardam semelhanças. Isso é especialmente verdade quando o assunto é o potencial – até agora não realizado em ambos os casos – de exportação. Será que os dois países caminham para serem concorrentes no mercado internacional de programas de computadores? Para o presidente da Câmara de Empresas de Tecnologia da Informação da Argentina, Carlos Pallotti, a resposta é não. Em entrevista ao COMPUTERWORLD, Pallotti defende a união com o Brasil para a conquista do mercado externo de software e fala sobre a rápida retomada do setor de TI em seu país.

COMPUTERWORLD: Quais são as funções da Câmara de Empresas de Tecnologia da Informação da Argentina, da qual o senhor é presidente?
CARLOS PALLOTTI:
Trata-se de uma câmara empresarial que reúne atualmente cerca de 300 empresas de TI que atuam na Argentina. Seu objetivo é ser uma representação para levar à sociedade a posição do setor. A entidade é formada por grandes companhias multinacionais e também por empresas argentinas, que juntas representam 70% do mercado de TI e 90% do setor de software e serviços relacionados com tecnologia do país. É a entidade de maior representatividade na indústria argentina de tecnologia da informação.

CW: Qual a importância do setor de software para a economia argentina?
PALLOTTI:
Software e serviços relacionados representam, atualmente, cerca de 0,7% do PIB da Argentina e geram 25 mil postos de trabalho. Acreditamos que essa quantidade tem de passar para mais de 1% para que a Argentina seja considerada um país que tem um bom nível de desenvolvimento em TI. Mesmo assim, 0,7% não é uma quantidade pequena – são poucos os setores da nossa economia que representam mais de 1% do PIB nacional.

CW: Como a área de TI foi afetada pela crise econômica que atingiu a Argentina em 2002? E como o setor está se recuperando?
PALLOTTI:
No ano passado, o setor de software saltou 20%, enquanto a economia da Argentina como um todo cresceu cerca de 7%. Portanto, a tecnologia está se recuperando mais rapidamente do que a economia em geral. Mas ainda estamos falando em recuperação: esse incremento não coloca o mercado argentino de TI nos mesmos patamares de antes da crise. Para 2004, acreditamos que a TI vai crescer o dobro do PIB da Argentina, que pela última estimativa aumentará de 6% a 7%. Isso ocorre por uma demanda reprimida, que é normal em um processo de recessão como a que tivemos. A exportação é o outro motivo do atual crescimento da área de TI. Software e serviços responderam por 0,6% do PIB argentino em 2002, 0,66% em 2003 e agora prevemos que representam 0,7% em 2004.

CW: Um dos desafios do Brasil é aumentar a exportação de software. Essa também é uma preocupação na Argentina? O que o país está fazendo para acelerar as exportações de software?
PALLOTTI:
Com a recessão, as empresas de software que estão na Argentina buscaram a exportação como uma alternativa. Portanto, as exportações cresceram por causa da recessão. A desvalorização cambial acelerou um pouco mais esse processo. No caso do Brasil, a situação foi diferente, porque o governo brasileiro tomou algumas iniciativas para ajudar na exportação em diversos setores. As origens dos processos de exportação são diferentes.

CW: O governo da Argentina está apoiando o setor de software?
PALLOTTI:
Sim, a expectativa é em breve termos uma lei que dará incentivos fiscais. Essa lei foi aprovada pelos deputados e está em debate no Senado. Se for aprovada sem alteração, ela reduzirá em 60% o imposto de renda sobre a atividade de software e serviços relacionados e em 70% os encargos trabalhistas nesse setor. Há um compromisso forte do governo de aprovar a lei. Não se esqueça, para ficarmos apenas no Mercosul, que no Uruguai as tarifas e encargos trabalhistas para software são zero, o que está atraindo empresas para o país.

CW: Muitas vezes a Índia é mencionada como exemplo a ser seguido na área de software. Esse seria realmente um bom modelo para os países da América Latina que querem desenvolver esse setor?
PALLOTTI:
A Argentina tomou a decisão de não ir pelo mesmo caminho da Índia. Primeiro, porque não há como competir com preço. A Índia tem um custo estrutural mais baixo. Segundo, o modelo indiano é apoiado em quantidade: é preciso ter muitos profissionais qualificados. A estratégia da Argentina para esse setor é mostrar o país como um centro criativo, que vende soluções que têm um grau de inovação e de qualidade em alguns mercados específicos. A Argentina não é boa em todas as tecnologias. Somos bons em algumas; e em algumas poucas somos muito bons. Definimos cinco áreas em que podemos ser fortes em software: agronegócios, saúde e meio ambiente, e-learning com conteúdo em espanhol, área financeira e petróleo e gás.

CW: Em alguns casos, sobretudo na área financeira, o Brasil também tem interesse em atuar com mais força no mercado internacional. Os dois países podem se tornar concorrentes?
PALLOTTI:
No Brasil há muita força em sistemas para a área financeira, talvez até maior do que na Argentina. Mas falar em concorrência entre os dois países nesse ponto não faz sentido. Nós devemos exportar cerca de US$ 170 milhões em software para 2004. É muito pouco face às exportações da Argentina, assim como os números de exportação de software no Brasil também são pequenos. Se os dois crescerem, podem chegar a um ponto de concorrer. Mas hoje acho que deveria haver uma complementaridade. Deveríamos trabalhar em conjunto. Quando você está nos Estados Unidos, todos somos vistos como América Latina. A discussão quando uma empresa multinacional quiser contratar o desenvolvimento de software não é se isso será feito no Brasil ou na Argentina. É se vai ser na Índia, China ou em outra parte do mundo. Nós somos a outra parte do mundo.

|Computerworld - Edição 413 - 21/07/2004|

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