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Negócios

Brasil também é inovador

Evento reúne representantes de empresas brasileiras, multinacionais, governo e universidades para debater a inovação tecnológica no País.

Por COMPUTERWORLD

07 de junho de 2005 - 11h36
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Superar limitações estruturais como os riscos da economia, os elevados custos dos investimentos e a escassez de fontes governamentais de financiamento são passos importantes para aumentar a taxa de inovação tecnológica no Brasil, considerada uma das mais baixas do mundo. Mas isso não é tudo.

O planejamento tecnológico, a gestão do risco nos processos inovadores, a qualificação profissional dos recursos humanos e as parcerias, principalmente com universidades e instituições de pesquisas são hoje fatores fundamentais para que as estratégias de inovação das empresas brasileiras realmente se efetivem. Pelo menos foi o que ensinaram vários empresários ao relatar suas experiências de investimentos em projetos de inovação tecnológica na V Conferência Anpei (Associação Nacional de P, D&E das Empresas Inovadoras), realizada de 11 a 13 de maio, em Florianópolis (SC).

"O planejamento tecnológico que a Companhia Vale do Rio Doce realiza desde 2003 propiciou a montagem de uma carteira de pedidos com 301 projetos, que vão consumir em 2005 aproximadamente US$ 25 milhões. O impacto financeiro desse trabalho é significativo: é uma carteira com um potencial de receita de US$ 900 milhões", testemunhou Vânia Andrade, coordenadora de análises técnicas da diretoria de serviços técnicos da empresa.

As grandes companhias e multinacionais, é claro, estão numa situação mais confortável com relação aos investimentos em inovação tecnológica. Afinal, elas respondem por algo entre 30 a 60% do total dos investimentos em inovação realizado no Brasil, segundo pesquisa divulgada pela Anpei, no ano passado. Essa boa condição financeira tem possibilitado, por isso mesmo, a formulação de planos altamente sofisticados de desenvolvimento tecnológico, com utilização de metodologias como Balanced Scorecard, Stage Gates, entre outras - e de longuíssimo prazo.

Um exemplo é o da Embraco, fabricante de sistemas de refrigeração. Decidida a se reposicionar estrategicamente no mercado mundial, visando deixar de ser um fabricante de um componente para ser fornecedor de solução completa de refrigeração, a empresa passou a "olhar o desenvolvimento tecnológico e a inovação de forma diferente", na definição de Reinaldo Maykot, gerente de recursos de engenharia corporativa.

Em 2004, a Embraco começou a elaborar um planejamento para os próximos dez anos, com apoio de instituições de pesquisas da Alemanha e aplicando ferramentas de metodologia como Delphi. "Foram definidas 26 novas áreas de negócios, entrevistados mais de 700 experts da companhia em todo o mundo e o resultado é um novo elenco de 35 projetos tecnológicos, em execução a partir deste ano, que vão consumir 20% do total dos nossos recursos para P&D, em torno de US$ 25 milhões", informa Maykot. "São projetos para uma nova plataforma de compressores que permitem maior redução de custos e melhora nossa eficiência", diz ele.

A gestão do risco dos processos de inovação, a qualificação dos recursos humanos e a aposta nas parcerias são também passos fundamentais. A Brasken, empresa do ramo petroquímico com faturamento superior a R$ 11 bilhões, criou o conceito das plataformas de inovação - "uma maneira de agrupar equipes internas, clientes e fornecedores para fazer a gestão de projetos de inovação", indica Alexandre Elias, gerente de inovação.

Quanto à qualificação, os caminhos trilhados são originais. A Embraer, maior fabricante de aviões da América Latina, abriu um Programa de Capacitação de engenheiros aeronáuticos, com 3,7 mil horas de ensino profissional num período de 16 meses, dadas em parceria com o ITA-Instituto de Tecnologia de Aeronáutica. "O objetivo é preparar especialistas multidisciplinares, alguém que transita de aerodinâmica para a área de sistemas com muita facilidade", diz Sidney Lage, gerente do programa de especialização e engenharia da Embraer.

A empresa investiu R$ 36 milhões de 2001 a 2004 e formou 540 engenheiros aeronáuticos. A Motorola, que já investiu cerca de US$ 170 milhões em P&D no Brasil, experimenta um programa de Residência de Software, inspirado no modelo de residência médica, em parceria com a Universidade Federal de Pernambuco. Foram investidos US$ 4,5 milhões desde 2002 e formadas quatro turmas com 80 graduados, cada. "Trata-se de uma oportunidade de ter profissionais capacitados na área de testes de software, hoje vital para o desenvolvimento de produtos globais", explica Roberto Sobol, diretor da Motorola Brasil.

Apesar da aposta na inovação, as pequenas e médias empresas, no entanto, não contam, com os mesmos facilitadores das grandes empresas. A Bionnovation, fundada em 1993, depois de se socorrer com ajuda do BNDES, Sebrae e Finep em três projetos de pesquisa, resolveu apelar para a abertura de capital - "diante da necessidade de expansão, pois estávamos no limite de crescimento", diz Águedo Aragones, diretor geral da empresa. Fez sociedade com o Fundo Aurora Venture e obteve condições para desenvolver 12 novos produtos, oito dos quais serão lançados em 2005.

Para a Brapenta, fabricante paulista de detectores eletrônicos de metais, de acordo com Martin Izarra, diretor geral da empresa, a saída foram bolsas para pesquisadores junto ao ITA, concedidas pelo programa RHAE (Recursos Humanos para Áreas Estratégicas) do CNPq. "O grande desafio para as pequenas e médias empresas é ter um ambiente favorável - na área fiscal, em termos de empréstimos e juros e de interação forte com o mundo acadêmico e de instituições de pesquisas", avalia Hugo Borelli Resende, vice-presidente da Anpei. "Em relação à área fiscal, estamos aguardando a aprovação do projeto do regime tributário que será enviado ao Congresso até o final do maio. Mas esperamos contar também com as subvenções e a utilização do poder de compras governamentais como estímulos à inovação tecnológica", diz Resende.


Compras governamentais de TI podem mudar
O governo federal pretende usar seu poder de compras de bens e serviços de TI para apoiar a inovação e o desenvolvimento tecnológico no país. O Ministério do Planejamento acaba de enviar à Casa Civil da Presidência da República projeto de lei que altera a Lei n° 8666, de 21 de junho de 1993 (estabelece normas sobre licitações e contratos para aquisição de bens e serviços pela administração pública), e introduz modificações na forma de realizar compras essencialmente tecnológicas.

O anúncio foi feito por Francelino Lamy de Miranda Grando, secretário de Política de Informática e Tecnologia do MCT-Ministério da Ciência e Tecnologia, durante o evento da Anpei, em Florianópolis. "O que muda é a compreensão do papel de compra do governo - federal, estadual e municipal - na aquisição de bens e serviços de grande valor tecnológicos, em que a questão do preço não pode ser a única diferença", explica Grando.

Segundo ele, a lei 8666 é bastante adequada para regular a compra de bens e serviços pela administração pública, mas não pode servir de parâmetro para as encomendas tecnológicas. "E muito menos serve como um instrumento de utilização do poder de compra de uma nação para fortalecer setores estratégicos para produção de bens e serviços do país", afirma. A discussão das mudanças da lei 8666 foi conduzida pelo Ministério do Planejamento com participação de diversos órgãos do governo, inclusive do MCT, informa Grando.

Mas o debate e o encaminhamento do projeto até sua aprovação pelo Congresso Nacional não serão tarefas nada fáceis, avalia ele. "Haverá reações importantes porque a estrutura que está montada hoje no país para vender tecnologia é baseada na fragilidade da lei 8666. E tem muita gente ganhando dinheiro, legitimamente, licitamente com isso. As mudanças, portanto, não se farão sem perdas", diz.

 

Genílson Cezar, especial para o Computerworld

Opinião do Leitor
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