Publicidade

Negócios

MP do Bem e aumento da fiscalização reduzem mercado cinza

Ações como a MP do Bem e o aumento da fiscalização contra a entrada ilegal de componentes de computadores no País atraem investidores e fabricantes estrangeiros para o Brasil.

Por Fernanda K. Ângelo

06 de outubro de 2005 - 16h58
página 1 de 1

Os escândalos envolvendo a alta cúpula do governo surgem dia após dia, se espalham como areia jogada ao ventilador. Até árbitro de futebol entrou na dança ao vender resultados de jogos do campeonato nacional. No entanto, de acordo com os índices financeiros, a economia brasileira demonstra uma certa imunidade ao que não lhe diz respeito diretamente.

Como resultado de tal "blindagem", em setembro o risco Brasil - termômetro da confiança dos investidores estrangeiros em relação ao País - atingiu seu menor patamar desde outubro de 1997. No mesmo mês, o dólar chegou a 2,25 reais, menor valor desde maio de 2001, e a Bovespa bateu recorde histórico de investimentos.

Ao que parece, os bons ventos sopram também em direção ao mercado de TI. E o mais interessante: o mesmo governo atolado em acusações de corrupção tem boa participação nesse movimento. O anúncio, em maio, da Medida Provisória popularmente chamada MP do Bem, que reduz em 9,25% os tributos - referentes à isenção de PIS e Cofins - para computadores de até 2,5 mil reais, somado a ações de fiscalização mais intensa contra a entrada ilegal de componentes de computadores no País, tem animado fabricantes estrangeiros a investir em plantas locais.

Com política de concentrar esforços em países emergentes, a Mecer, fabricante sul-africana de placas-mãe, atua no Brasil há um ano e meio distribuindo produtos de terceiros. Desde o início deste ano, a companhia investiu 5 milhões de dólares para iniciar a fabricação local de seus produtos, segundo Wagner Yotumoto, gerente de produtos da Mecer no Brasil. O executivo, que deixou a Gigabyte há cerca de dois meses para cuidar das operações locais da sul-africana, disse que, por enquanto, a produção é terceirizada com um fabricante da Zona Franca de Manaus, cujo nome não quis revelar.
Yotumoto revela ainda que a companhia investirá outros 5 milhões de dólares em uma fábrica própria, também em Manaus.

"A planta começa a operar a partir de janeiro de 2006, com capacidade de produção mensal de 80 mil placas", conta o gerente, acrescentando que a companhia terá pelo menos três linhas de produção. A fabricação terceirizada (aproximadamente 50 mil placas/mês) será mantida mesmo após a inauguração da planta própria da Mecer. "Também temos o objetivo de exportar para outros países da América do Sul, como Argentina e Chile", antecipa. A meta inicial é vender cerca de 30 mil placas por mês aos vizinhos latinos.

O gerente de produtos atribui o rápido processo de decisão da Mecer em investir no Brasil às ações de incentivo do governo, bem como à queda do mercado cinza (veja box ao lado). "Com o PC Popular e a queda do mercado cinza, tornou-se interessante produzir no País, já que o mercado carece de fabricantes locais", justifica o executivo. "Com a redução do contrabando de componentes, aumenta a procura por peças originais", completa. Além das motherboards, a Mecer busca certificações junto à Anatel para fabricar placas-modem e, ainda no primeiro trimestre de 2006, iniciará a produção de notebooks no Brasil.

A chinesa Cooler Master, por aqui desde 1996, até então com o modelo de negócio baseado em importação, começou em julho último a fabricar coolers no Brasil. A produção é terceirizada para a Unicoba, que mantém sua planta em Ilhéus, na Bahia. Peter Jang, diretor da subsidiária brasileira da companhia, conta que a linha de produção local é a primeira da Cooler Master fora da China. "As dificuldades (incluindo altos impostos) de importação, somadas aos benefícios e incentivos do governo, além do aumento das vendas, nos motivaram a investir na fabricação local", explica Jang.
O diretor revela que o investimento total da companhia na operação chegará a 1 milhão de dólares até o fim deste ano, quando a fábrica terá capacidade de produzir 100 mil coolers por mês. A meta é encerrar 2006 produzindo - e vendendo, claro - 200 mil unidades mensais.

O Brasil também abriga a única fábrica de produtos ViewSonic fora da Ásia. Nesta caso, porém, a entrada da companhia não tem relação com incentivos ou ações do governo brasileiro. A companhia, na realidade, não fabrica seus monitores, apenas desenvolve a tecnologia e o design dos equipamentos, cujas licenças de produção são adquiridas pela fabricante de monitores TPV, de Hong Kong, representada no Brasil pela Envision.

Hércules Ribeiro, country manager da Envision no Brasil, diz que há cerca de dois anos a ViewSonic estuda a produção local de seus monitores por considerar o País estratégico para o seu negócio. "A entrada da Envision no Brasil foi a deixa para a ViewSonic começar a produzir no País", afirma Ribeiro. "Viemos independentemente da MP do Bem ou qualquer decisão do governo. Porém, incentivos fiscais podem ajudar a baixar os preços de nossos produtos", admite o executivo, lembrando que sua meta é elevar a participação da marca no mercado de monitores dos atuais 1,5% para 3% em 2007 e 7% em 2008.

Novo fôlego

Com planta instalada em Manaus desde 1995, a brasileira Digitron, responsável pela fabricação das placas-mãe Gigabyte, também sente os benefícios das ações tomadas pela administração federal. "Embora a redução de impostos não se dê diretamente para nós, ela aumenta o volume das vendas lá na ponta. E isso sim gera mais negócios", diz Vicente Soares, diretor de marketing da Digitron.

Soares destaca o aumento da fiscalização na fronteira com o Paraguai e as políticas de redução de impostos como os principais responsáveis pelo bom desempenho dos fabricantes de componentes. "Quanto mais esse cerco for fechado, melhor será para os fabricantes e, conseqüentemente para o consumidor final", lembra. "Agora, com os escândalos políticos, envolvendo doleiros etc, ficou mais difícil exportar divisas injustificadas", completa.
O executivo acredita que "se todo mundo seguir as regras do jogo, o mercado tende a crescer muito". A Digitron está investindo 10 milhões de dólares na criação de outra fábrica. "Com a nova planta, nossa capacidade de produção passará das atuais 2 milhões de unidades para mais de 3 milhões", afirma.

Os bons negócios da companhia atraíram a atenção da Intel Capital, que em setembro anunciou, sem revelar valores, um aporte de capital para a Digitron. O investimento é o primeiro feito pela Intel Capital em uma empresa de componentes na América Latina. E o mais alto já feito em companhias da região, garantem os representantes do fundo.

Sem efeito colateral

Pelo menos inicialmente, a Positivo Informática, líder brasileira em vendas de desktops (com market share de 5,5%), não sente nenhum reflexo da entrada de novos fabricantes estrangeiros no Brasil. Helio Rotenberg, diretor-geral da companhia, explica que, para atender ao PPB (Processo Produtivo Básico), alguns componentes de seus computadores, como as placas-mãe, já tinham de ser comprados no País.

"A entrada de novos fabricantes no Brasil deve reduzir o preço dos componentes. Ainda não sabemos quanto vai baixar, mas será algo pouco significativo", prevê o diretor. Rotenberg revela que a Positivo continua importando os componentes que já trazia de fora, como memórias, CD-RW, HD, fonte de alimentação, teclado e mouse, entre outros.

Quanto aos monitores, Rotenberg diz que, devido à isenção de impostos incidentes nos produtos brasileiros, também não vale a pena importar - assim, a Positivo já os comprava internamente. De acordo com o executivo, os computadores da empresa têm um índice de nacionalização em torno de 50%.

Atualmente, segundo Rotenberg, a Positivo produz mensalmente 35 mil computadores. A meta é chegar a 40 mil até o fim do ano. A companhia vende computadores com Linux (e monitor) a partir de 1.199 reais em lojas como Ponto Frio e Wal-Mart. Máquinas da Positivo com Windows custam a partir de 1.399 reais na Magazine Luiza e Casas Bahia, entre outros Varejistas.

Pelo PPB, o Ministério do Desenvolvimento, estabelece um conjunto de regras de produção, incluindo um nível mínimo de nacionalização dos computadores. As empresas que se enquadram no PPB recebem benefício fiscal na forma de redução da alíquota de IPI. Desde 1994, o BNDES também passou a adotar o PPB como critério para fins de concessão de financiamento aos segmentos do complexo eletrônico.

Sentido contrário

Curiosamente, a realidade da indústria de componentes vai na contra mão do momento vivido pelo mercado brasileiro de semicondutores. Enquanto os fabricantes de componentes aumentam os investimentos no País, as empresas de semicondutores reclamam da carga tributária e das baixas vendas locais.

Tanto é assim que os anúncios de investimentos e implantação de novas linhas de produção acontecem no mesmo momento em que a Itautec anuncia a desativação da planta da Ciabraco, sua divisão de produção de semicondutores, em Jundiaí, São Paulo. O momento de baixa da indústria local de semicondutores também é destacado por fabricantes como Intel e AMD, que recentemente afirmaram não ter qualquer intenção de produzir semicondutores no Brasil.

Opinião do Leitor
Não há comentários para essa notícia
Publicidade
Publicidade
As mais lidas
60 melhores empresas de TI e Telecom para trabalhar

A elite do RH de TI e Telecom no Brasil

Computerworld e Instituto GPTW apresentam as Melhores Empresas de TI e Telecom para Trabalhar 2009.

Veja o Especial

Confira o ranking:

  1. Chemtech
  2. Kaizen
  3. Microsoft
  4. Cisco do Brasil
  5. Google Brasil
Veja o ranking completo com as 60 empresas
coluna tv
Newsletters
Assine a Computerworld