Negócios
Sem medo do ano novo
Executivos da indústria e analistas olham para 2006 com otimismo, apesar de este ser ano de eleição presidencial e Copa do Mundo. É a maturidade do setor de TI e telecom sendo colocada à prova.
Por Equipe COMPUTERWORLD
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Eleições presidenciais e Copa do Mundo é uma combinação explosiva, que normalmente despertaria desconfiança na hora de prever o que seria do Brasil em um ano que reúne tais eventos. No entanto, 2006 não se encaixa nessa descrição - pelo menos quando a avaliação parte dos executivos da indústria de tecnologia da informação (TI) e telecomunicações."Este ano começou em janeiro, não vai começar só depois do carnaval, não", define Ricardo Chisman, sócio-diretor da empresa de consultoria Accenture.
Ouvidos pela equipe de COMPUTERWORLD, os presidentes de nada menos que 15 dos principais fornecedores do setor prevêem, como não poderia deixar de ser, um ano de muitos negócios e crescimento acima da média da economia brasileira.
O que surpreende é que a indústria acredita em um processo eleitoral que não deve comprometer nem mesmo as vendas para o governo. Pelo contrário: diversos dos executivos entrevistados apostam que, depois de três anos praticamente sem investimentos na área, em 2006 o Governo Federal abrirá os cofres para modernizar a infra-estrutura de TIC. "O atual governo investiu muito pouco em seus primeiros dois anos. No terceiro, simplesmente parou. Este é o ano de investir", sugere Marcio Mattos, diretor-presidente da Avaya.
A estratégia antevista pelo presidente da Avaya - que reconhece não saber onde o Governo Federal irá colocar suas fichas, mas torce para que voz sobre IP receba seu quinhão - parece ter todo o sentido. Basta ver o festival de casuísmo que a operação Tapa Buracos, nas estradas federais, se tornou. "O governo, de maneira geral, está se informatizando e tem dinheiro para gastar. O ano é eleitoral e os investimentos devem ser feitos no primeiro semestre", aposta Silvio Genesini, diretor-geral da Oracle Brasil.
Redução de custos e benefícios para a área educacional são os grandes atrativos para o investimento público em TI e telecomunicações para o presidente da Cisco no Brasil, Rafael Steinhauser. "O Brasil carece de serviços públicos via internet. Além disso, o País possui um tamanho geográfico muito grande - e a internet pode dar mais agilidade e inteligência ao cidadão e ao governo", justifica.
Oferecer condições para uma melhor gestão do governo, em suas mais diversas esferas, também é uma das justificativas de Cléber Morais, presidente da Sun, para acreditar em mais vendas para o setor - a empresa planeja fechar seu ano fiscal 2006, em junho, com um crescimento de 24% em relação a 2005, e os governos federais e estaduais têm sua parcela de responsabilidade pelo número esperado. "O setor de governo tem necessidades importantes e deve traçar estratégias para investir em sistemas de favoreçam uma gestão melhor de suas operações."
Até mesmo a Microsoft dirige olhares de cobiça para os cofres públicos - a despeito das muitas "batalhas" ideológicas dos últimos anos. "Estamos retomando nossa posição junto ao governo", diz Claudia Ferris, diretora da divisão de negócios e parceiros corporativos da companhia. A executiva destaca o projeto da nota fiscal eletrônica, capitaneado pela Receita Federal. "Além de inovadora, essa iniciativa é uma vitória do Brasil." Uma das grandes estratégias para 2006 pode ser apostar nas parcerias público-privadas (PPPs), lembra o presidente da Siemens, Adilson Primo.
O mundo é IP
Mas há quem queira fazer o caminho inverso, buscando mais espaço no mercado corporativo. Esse é o caso da Alcatel, que tem suas ações muito centradas no setor público e nas operadoras de telecomunicações. "Precisamos de mais presença nas corporações, onde temos uma atuação ainda fraca", define, de maneira muito simples e direta, Jonio Foigel, presidente da companhia.
O caminho para conquistar o mundo empresarial, na visão da Alcatel - e também de outros fornecedores que têm sua força em equipamentos de conectividade - são as aplicações baseadas em IP. Para o executivo, a migração das redes de voz, dados e imagens para uma mesma estrutura, as chamadas redes de nova geração (NGN), tem tudo para ser o grande destaque. "Estamos trabalhando 2006 com foco em quatro eixos: WiMax, integração e convergência entre as operações de telefonia fixa e móvel, os serviços de manutenção e upgrades, e o mundo IP", detalha Foigel.
O presidente da Cisco reconhece que a adoção desse tipo de infra-estrutura ainda é tímida, mas acredita que 2006 será o ano da virada. "A tendência deve se fortalecer e tomar ainda mais força em 2007", comenta Steinhauser. A expectativa de Mattos, da concorrente Avaya, é muito parecida. "Acredito que já no ano que vem as vendas de telefones IP superem as de telefones tradicionais."
Telefonia IP, redes convergentes e de próxima geração têm relação direta com mobilidade, uma das áreas-foco da HP Brasil. "Todas as indústrias vão ter de investir para criar serviços e infra-estrutura para dar suporte a essa tendência. E é aí que a HP entra", afirma Carlos Ribeiro, presidente da companhia. Segundo ele, a empresa tem potencial para oferecer elementos para gerenciar a infra-estrutura necessária.
SMB: a estrela
Mas não é o governo, com seus cofres reconhecidamente cheios de dinheiro, nem mesmo o futuro da telefonia IP que fazem brilhar os olhos dos principais fabricantes da indústria de TI e telecom. São as médias empresas - e uma pequena parcela das pequenas - que merecem toda a atenção. "Está todo mundo de olho no SMB. Todos os grandes players de ERP estão colocando muita energia nisso", conta Chisman, da Accenture.
Talvez a mais agressiva nessa movimentação seja a SAP, que há alguns meses lançou o Business One - produto cujas entregas efetivas começaram apenas em janeiro deste ano. Somente um dos canais autorizados a comercializar o sistema, a Computeasy, havia vendido, até o dia 30 de dezembro, quatro pacotes, com valores girando entre 50 mil reais e 200 mil reais. "Dentro do processo de inovação, haverá uma crescente quantidade de novos clientes, especialmente os de pequeno e médio porte", afirma José Ruy Antunes, diretor-geral da SAP.
Na Oracle, a ordem é aproveitar a força da marca JD Edwards para conquistar espaço no segmento. "Os projetos de longo prazo estão acontecendo - é o middle market começando a investir na sua informatização", declara Silvio Genesini, presidente da Oracle Brasil.
Só que os olhares de cobiça para os orçamentos das organizações de menor porte vão além dos vendedores de sistemas de gestão. Symantec, Cisco, IBM e CA são outros fornecedores que acreditam poder conquistar uma boa parcela de seus faturamentos no setor. "Em apenas três meses, vimos o volume de negócios feitos com esse mercado passarem de 18% para 20% de nossa receita", revela Marco Leoni, diretor geral da CA. Segundo ele, a meta é alcançar 30% em um ou dois anos.
Como um só
Os dois últimos anos (e também os primeiros 15 dias de 2006 - veja reportagem à página 6) foram muito agitados quando o assunto era a compra de empresas. As fusões e aquisições movimentaram o noticiário, deixaram clientes apreensivos e, finalmente, devem começar a mostrar a que vieram.
Talvez o caso mais emblemático seja o da Oracle, que passou por uma verdadeira guerra jurídica para adquirir a PeopleSoft e agora se prepara para absorver as operações da Siebel. "Espero já neste ano tirar proveito dessa aquisição", conta Genesini. Segundo o executivo, o mercado de aplicações de gestão das relações com clientes (CRM) ficou "acanhado" depois de 2000, mas já voltou a crescer.
Na Symantec, o processo de integração da Veritas está praticamente finalizado, e agora é hora de mostrar aos clientes se a lógica defendida para justificar a aquisição faz realmente sentido. A companhia, desde julho de 2005, vinha se dedicando a alinhar as organizações e unificar processos. "A nova Symantec começará a tirar proveito da fusão, da ampliação do portfólio de produtos", declara Paulo Renato Rocha, diretor de canais.
O trabalho, no entanto, ainda não está finalizado. De acordo com Rocha, há duas fases que precisam ser cumpridas nos próximos dois anos: consolidar funcionalidades dos produtos e o lançamento de soluções que reúnam capacidade de disponibilidade (advindas da Veritas) e de segurança (contribuição da Symantec). Atualmente a oferta da "nova" companhia ainda está separada.
Arquitetura de serviços
Outra grande tendência apontada pelos representantes da indústria e analistas é o crescimento das chamadas arquiteturas orientadas a serviços, ou SOA. Para Chisman, da Accenture, SOA é algo que começa a fazer sentido por si só. "Existe uma receptividade muito grande em todos os ambientes corporativos. A necessidade é que faz o modelo viver", garante. Segundo o consultor, o setor de telecomunicações deve ser o primeiro a demandar tais soluções, em especial diante da necessidade de conexão entre sistemas.
Já a country manager do Forrester Research no Brasil, Alessandra Martins, entende que a busca por estruturas de TI baseadas no conceito tem relação com um novo foco em TI. "As áreas de TI precisaram, no último ano, e vão continuar precisando, dar respostas mais rápidas às áreas de negócios. Para isso, é preciso melhorar a estrutura que já têm", afirma a executiva, que assumiu, em maio, o comando da companhia de pesquisas e análise de mercado.
Um estudo do Forrester - Tendências 2006: suítes de integração, de outubro - indica que o trabalho de integração de sistemas e arquiteturas continuará sendo foco das atividades de TI e destaca a crescente importância do SOA. O documento cita que "diversos casos comprovam que a adoção da arquitetura traz redução de custos de desenvolvimento e melhora o tempo de resposta a novos modelos de negócios" por parte dos departamentos de tecnologia.
Resultado é o que vale
Apesar do tom generalizado de otimismo, há quem olhe para 2006 com cautela - principalmente diante das dificuldades enfrentadas em 2005. Esse é o caso de Milton Isidro, diretor-geral do SAS Institute no Brasil. O executivo faz questão de apontar fatores macro-econômicos, como as altas taxas de juros, para refrear os mais empolgados. "Podemos dizer que 2005 foi, no geral, um bom ano. Houve uma fase em que a economia e o clima de negócios foi bem favorável, mas esse clima foi mudando ao longo dos meses. Então, tivemos uma fase mais difícil, em que presenciamos redução de investimentos. Posso dizer que não chegou a haver uma recessão propriamente, mas as decisões ficaram mais cuidadosas", lembra Isidro.
Essa postura mais cautelosa também tem relação com o retorno dos investimentos, uma preocupação cada vez mais presente nos CIOs e demais profissionais das empresas usuárias de TI. "A tendência é que os investimentos em TI sejam todos baseados em estudos consistentes de retorno antes da aquisição", completa Antunes, da SAP. E aí, 2006 será como todos os últimos anos: de um lado, as áreas de tecnologia buscando mais dinheiro para investir; de outro, as áreas de negócios, preocupadas com a rentabilidade da companhia. Mas isso não é novidade para ninguém.
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