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Exportação de software fica aquém dos US$ 2 bi

Falta de reformas da legislação trabalhista e do sistema tributário dificultaram o alcance da meta imposta no início do governo Lula, que não deve ser atingida antes de 2007, segundo o MCT.

Por Fernanda Ângelo, do COMPUTERWORLD

02 de outubro de 2006 - 10h17
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São 42 minutos do segundo tempo. O time da casa está perdendo a partida por 3 a 1. Para comemorar o título, ao time da casa só interessa a vitória por dois gols de diferença. Na prática, a virada é impossível. Mas ao fanático torcedor sempre resta uma ponta de esperança. “Se fizer um gol até os 43 minutos pode dar. O jogo só termina quando acaba”, diria.

Poderíamos estar falando de uma final de Campeonato Brasileiro, mas infelizmente o cenário é apenas uma perfeita analogia aos resultados das exportações brasileiras de software. Às vésperas das eleições presidenciais – e do fim do mandato do presidente em exercício, Luis Inácio Lula da Silva (PT) – as vendas de software para o exterior não chegaram nem perto dos 2 bilhões de dólares ao ano estabelecidos como meta no início de 2003.

Mesmo sem números definitivos do mercado em 2006, no início de junho o ministro da Ciência e Tecnologia (MCT), Sérgio Rezende, que até fevereiro acreditava totalmente na meta estipulada pelo governo, admitiu que o Brasil não deve atingir o valor antes de 2007. “A meta só será alcançada se houver um salto muito grande”, disse Rezende, na ocasião. A estimativa do ministério é que as exportações de software totalizem algo em torno de 350 milhões de dólares em 2006.

Divulgado também no fim de junho, um levantamento encomendado pela Associação Brasileira das Empresas de Software (Abes) à consultoria IDC posicionou o mercado nacional de softwares e serviços como o 12º maior do mundo, tendo movimentado 7,41 bilhões de dólares em 2005. Segundo a análise, as vendas de software correspondem a 2,72 bilhões de dólares, número que representa alta de 15% em relação ao ano anterior.

A expectativa da IDC e da Abes é que o segmento mantenha um crescimento médio de 11% até 2009. O montante, porém, representa modestos 1,2% do mercado mundial de programas para computadores e equivale a cerca de 41% do mercado latino-americano. Os demais 4,69 bilhões de dólares são provenientes de serviços relacionados.

Apesar do crescimento indiscutível do setor, o destaque negativo fica por conta exatamente do baixo volume de softwares e serviços exportados pelo País. O valor não chega a 178 milhões de dólares – o que equivale a dizer que apenas 1,2% da produção local de software foi destinado à exportação.

O que deu errado?
Esforços do setor privado não faltaram. Em meados de 2004, inclusive, havia quem apostasse que o desafio assumido pelo governo se transformaria em realidade, se não no prazo estipulado, bem mais cedo do que os pessimistas poderiam esperar. Tanta empolgação era suportada pelo fato de já existirem, àquela época, mais de 20 centros de desenvolvimentos de software espalhados pelo Brasil.

Porém, faziam parte dessa lista software-houses nacionais, instituições de ensino e pesquisa, incubadoras de empresas e grandes companhias multinacionais da área de TI. Faltou ao governo entrar com a parte que lhe cabia, incluindo políticas claras de incentivo fiscal e a tão esperada reforma trabalhista.

Aproveitando o clima eleitoral, executivos de grandes empresas de TI no Brasil reuniram-se com especialistas do mercado e representantes do governo exatamente para debater os pontos que impediram o País de alcançar as metas de exportação de software.

A necessidade de reforma na legislação trabalhista brasileira, mudanças no sistema tributário e investimentos no sistema educacional foram citados por todos os presentes ao seminário “A indústria de serviços de TI – desenvolvimento de software, exportações e competitividade”, realizado pela Casa Brasil Empreendimentos Culturais com o apoio do Instituto Brasil para Convergência Digital (IBCD), no último dia 14, em São Paulo.

Laércio Cosentino, presidente do grupo Totvs, disse que o aumento da exportação em TI no Brasil não depende nem apenas do governo, nem só do empresariado. Para o executivo, essa é uma tarefa de ambos, juntos à sociedade. Ele destacou a necessidade de qualificação técnica da mão-de-obra e de sua capacitação na língua inglesa. A Totvs possui atualmente mais de 3,5 mil empregados.

Dona de três centros globais de desenvolvimento no País, a TCS Brasil, empresa do grupo Tata, aumentou seu quadro de funcionários de menos de 200 pessoas (há um ano) para mais de 1,1 mil, atualmente. O objetivo, de acordo com Joaquim Rocha, diretor de recursos humanos da companhia, é chegar a 1,8 mil até o final do ano fiscal, que encerra em 31 de março de 2007. Embora não ache que o País deva copiar o modelo indiano, Rocha acredita que é possível tirar lições das ações recentes na Índia. “Eles mostram que investimento em educação pode resultar em uma mudança social tamanha”, afirma.

A Tivit, outra grande empregadora da mão-de-obra brasileira – hoje conta com 1,6 mil colaboradores, contra apenas 400 dois anos atrás –, tem por meta fazer com que a sua área de outsourcing represente 40% do faturamento total da companhia. Ubiraci Matta, gerente de marketing, revela que a empresa pretende encerrar 2007 com 500 profissionais dedicados a atividades de offshoring. “Até 2010, esse número deve chegar a 5 mil”, revela.

Formação é o problema
Também presente ao evento, Paulo Cunha, diretor de setor público e educação da Microsoft Brasil, destaca a defasagem de cerca de 20 mil profissionais com formação em tecnologia no País. O número, por incrível que pareça, estaria subestimado, segundo Eduardo Morgado, professor-doutor do departamento de computação da Universidade do estado de São Paulo (Unesp), que estima a defasagem em 50 mil.

Morgado diz que a baixa qualidade dos cursos oferecidos atualmente no Brasil acaba levando os alunos a desistirem da formação. “Sequer são desenvolvidos os conceitos de gerenciamento de serviços de TI ou de desenvolvimento de software”, dispara. O professor ainda conta que seus colegas recusam-se a aceitar metodologias cedidas por empresas privadas, sob a alegação de que seria algo antiético. “A questão é que essas são as práticas exigidas pelo mercado”, lamenta o professor.

Para justificar a decepção dos alunos em relação aos cursos oferecidos atualmente, ele cita números da Softex e do próprio Ministério da Educação relacionados a cursos de tecnologia. Em média, a evasão nesses cursos é de 68%; a procura pelos cursos vem caindo quase 20% ao ano, e a relação candidato/vaga fica próxima de 2. O motivo? “O aluno percebe que está perdendo tempo dentro da sala de aula. Muitas vezes é preferível fazer um curso rápido para entrar logo no mercado.”

Em lugar de esperar atitudes do governo, alguns órgãos e empresas do setor privado tomam suas próprias ações para encurtar o caminho rumo ao maior desenvolvimento do setor. A TCS Brasil, por exemplo, fechou recentemente uma parceria acadêmica com sete universidades no País para treinar estudantes e reduzir a imensa diferença existente entre aquilo que as escolas ensinam e o que o mercado exige.

Já o IBCD busca conseguir mudanças nas relações trabalhistas em tecnologia da informação e computação. Em lugar de aguardar pela reforma trabalhista, o instituto quer a aprovação de uma lei específica que regulamente o setor de TI e discipline as atividades da informática e as peculiaridades de suas relações de trabalho.

Em meio a todas essas discrepâncias e ambigüidades, imaginar que o País sairia de praticamente zero para 2 bilhões de dólares de exportações em serviços e produtos relacionados a software em quatro anos pode ter sido uma atitude movida por boas doses de otimismo – ou mesmo inocência. E imaginar que no início do governo Lula chegou a ser cogitada a meta de 7 bilhões de dólares para as exportações de software no Brasil... Bom seria!


Crescimento das exportações de software e serviços entre 2004 e 2005 no Brasil
41%, totalizando US$ 178 milhões
Fonte: IDC

Carga tributária
Imposto médio em software e serviços na AL – 28%
No Brasil – 31,8%
Fonte: IDC

Empregos
Mercado brasileiro de TI emprega 1,9 milhão de pessoas e deve criar mais 630 mil novos empregos até 2009. O país responde por 47% dos empregos em TI na América Latina

Opinião do Leitor
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