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Negócios

Lenovo enfrenta o desafio de ser grande no Brasil

Empresa chinesa, que comprou divisão de PCs da IBM, entra no mercado de varejo e diz que Brasil é mercado estratégico.

Por Daniela Moreira, do IDG Now!

06 de dezembro de 2006 - 14h35
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Após abocanhar a divisão de PCs de uma das maiores companhias do segmento, a IBM, a chinesa Lenovo vem enfrentando uma série de desafios. Tornar sua marca conhecida fora da China, aprimorar a sua estrutura de supply chain, e reverter os números do negócio de computadores, que na IBM já não era lucrativo, são alguns deles.

Uma das estratégias adotadas pela companhia é apostar nos países emergentes – incluindo o Brasil –, onde as taxas de crescimento do setor são muito mais interessantes.

Como parte deste esforço, a companhia anunciou na última semana a entrada no varejo brasileiro, por meio da rede Ponto Frio. Segundo Flávio Haddad, presidente da Lenovo no Brasil, a lógica é simples: participar de um filão que consome três milhões de PCs ao ano. Confira a entrevista exclusiva do executivo ao IDG Now!:

Enquanto a HP quadruplicou seu lucro no terceiro trimestre de 2006 e a Dell finalmente conseguiu apresentar resultados positivos, a Lenovo cresceu apenas 1% em receita e teve queda de 17% no lucro. Trata-se de um momento de ajuste ou a empresa realmente enfrenta dificuldades para crescer?

Talvez eu não seja a melhor pessoa para comentar resultados mundiais. O Brasil tem dado sua contribuição, pois é um mercado que cresce muito e minha disposição é sempre crescer mais que o mercado e que os meus concorrentes. Quanto ao desempenho mundial, acho surpreendente. Essa empresa assumiu em tempo recorde a divisão de PCs de uma grande companhia. E essa divisão não era um negócio “star”, não era um business que estivesse recebendo a quantidade de investimentos necessários para honrar a posição que tínhamos nesse mercado. Em questão de 18 meses, nós já fizemos diversas transformações, a principal delas levar um negócio que não dava lucro ao lucro.

Recentemente o CEO da Lenovo, Bill Amélio, disse que os mercados emergentes - notadamente China, Índia e Brasil - eram estratégicos para a companhia. Como o mercado brasileiro se encaixa na estratégia global da Lenovo?

No momento em que tomou a decisão de se expandir internacionalmente, a empresa fez uma opção pelo crescimento. O mercado de PCs pode ser dividido em dois grandes blocos: mercados desenvolvidos e em desenvolvimento. No negócio de PCs, nos mercados desenvolvidos a taxa de crescimento é baixa. Em alguns países chega a ser perto de zero. Onde está a grande taxa de crescimento? É justamente nos mercados em desenvolvimento. Por diversas razões: nível de informatização, nível de adoção do PC, um razoável nível de acesso aos PCs agora que, em média, os computadores têm caído razoavelmente de custo. Vem chegando a um nível em que já é considerado por classes C e D como item importante no seu portfólio de aquisições.

O computador já aparece junto com ambições de consumo como geladeira e casa própria, isso porque todo mundo quer estar conectado e ter acesso a informações no mundo digital. Isso acontece em larga escala nos países em desenvolvimento e o Brasil é um deles. Temos 185 milhões de habitantes e a previsão de taxa de crescimento do mercado de PCs no Brasil é perto de 20% ao ano nos próximos cinco anos.

Qual o objetivo de entrar no varejo? A Lenovo é competitiva nesse segmento?

Nossa entrada no mercado de pessoa física, antes de chegar ao varejo, é uma estratégia natural do planejamento. Nossa grande base de clientes, exceto na China, era o mercado em que a nossa ex-empresa mãe [a IBM] tinha seu foco principal. É um mercado importante e interessante, mas está longe de ser a maior fatia do mercado. Pequenas e médias empresas e pessoa física respondem juntas, no Brasil, por mais de 50% do mercado. Estávamos atuando em um segmento muito pequeno e a principal razão é que o resto do mercado era dominado por empresas que sonegavam ou impostos, ou faziam contrabando. Essa era a realidade no Brasil e, em parte, ainda é.

Nossa estratégia de crescimento é partir das vendas que temos no mercado corporativo, descendo para médias empresas, pequenas empresas e finalmente chegando aos consumidores. Só fizemos essa primeira incursão após 18 meses de Lenovo porque estávamos focados no crescimento e em estabelecer a base de atuação para pequenas e médias empresas. O próximo passo é a participação no mercado de consumo e o varejo é a melhor porta para acessar esse público.

A entrada no varejo tem a ver com desenvolvimento da marca?

São mais de três milhões de PCs e não dá para uma empresa com as ambições da Lenovo deixar de trabalhar neste mercado. Principalmente com o laboratório que temos na China. A grande área de atuação da Lenovo na China é justamente pessoa física. Temos um portfólio maravilho de produtos para esse segmento e nem começamos a trazê-lo. Quando eles estiverem disponíveis quero estar com a minha marca muito desejada pelos clientes. Estar presente nas gôndolas é uma forma de referência, mas não é o principal objetivo.

Qual é a distribuição dos negócios da empresa por segmento de mercado?

Somos uma empresa e sempre seremos cuja grande maioria dos negócios virá de empresas. Não necessariamente grandes companhias, mas empresas que tenham um CNPJ, com mais de dez funcionários. Abaixo disso, podemos considerar como pessoa física, pois é o dono quem compra o PC, no próprio varejo. Não espero que ao longo dos próximos anos o total de vendas de consumo represente mais que 15% do nosso volume, no cenário atual da empresa.

A Lenovo pretende firmar outras alianças com redes de varejo?

Sou um estrategista que gosta muito de alianças. Estamos iniciando uma parceria de confiança com o Ponto Frio e partir para novas alianças vai depender do desempenho dessa aliança e dos nossos planos de crescimento.

A empresa tem preços competitivos para atacar o mercado de computadores populares, cada vez mais cheio de competidores e com margens cada vez mais estreitas?

Já atuamos com PCs abaixo de 1,4 mil reais e a Lenovo se sente preparada para competir com qualquer empresa nacional ou internacional que pague impostos. Não há porque qualquer empresa do mercado ser mais competitiva que nós. Temos uma base de compras mundial, sabemos onde compramos, temos uma base forte de atuação onde os componentes são fabricados. Temos o melhor e maior grupo de desenvolvimento.

Além disso, temos muita preocupação com a imagem que construímos na relação com o consumidor. Temos claro que vender é só o inicio da relação. Essa pessoa vai ficar com o PC por três quatro anos e eu preciso dar assistência a ele se a máquina vier a falhar. Temos a preocupação com o pós-venda que nem todos os concorrentes, mesmo agressivos em preços, tem com o seu consumidor.

A Acer já declarou publicamente que quer tomar o terceiro lugar da Lenovo no ranking mundial de PCs. Como vocês encaram essa competição no Brasil?

Respeito qualquer concorrente, por definição. Só me colocaria na ótica de um cliente e olharia a empresa de quem estou comprando para ver se ela tem estrutura para me suportar. Se essa empresa achar a estrutura da Acer no Brasil, ela pode comprar, mas se não achar não deveria considerar. É uma empresa guerreira no mercado, mas é bom ter suporte, um lugar pra ligar, um site. Preço não é o único requisito.

O que você espera do próximo ano em relação ao mercado de PCs no Brasil?

A indústria de tecnologia tem uma expectativa de crescimento brutal. Seja pelo sucateamento do parque, seja pelo crescimento do País - e a tecnologia está no cerne de qualquer investimento neste sentido. Minha expectativa para o próximo ano é não ter surpresas. O mercado de PCs, em especial, deve crescer a taxas muito maiores que o próprio PIB do Brasil. Agora, continua sendo um mercado muito competitivo. Se o governo continuar nos ajudando, dificultando a ilegalidade mercado de PCs, se continuar procurando formas inteligentes de incentivar a indústria, a receita aumenta, continuamos a crescer e gerar empregos.

Como você avalia os últimos quatro anos de governo Lula?

Acho que demos passos importantes. A chama Medida Provisória do Bem afetou positivamente o setor de TI. Foi um inteligente jogo de ganha-ganha. A indústria cresceu, os consumidores tiveram acesso a produtos melhores e mais baratos e a arrecadação do governo aumentou, por um jogo muito simples. Para mim, foi uma das melhores práticas postas em andamento para a indústria nacional. Nesse aspecto, o governo fez um bom trabalho. Só precisamos crescer mais.

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