Negócios
O mercado em tempos de Web 2.0
Nem golpe de marketing, nem ruptura com o que existe: a Web 2.0, evolução inevitável da internet que representa uma nova fase para os aplicativos de serviço, faz os fornecedores de TI se movimentar.
Por Rachel Rubin, especial para o COMPUTERWORLD
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Pierre Lévy e Manuel Castells estavam certos quando previram, há mais de dez anos, quais seriam as transformações que a internet traria às nossas vidas. Mas talvez o filósofo e o sociólogo, criadores dos conceitos de aprendizagem coletiva e troca de conhecimentos entre grupos pela rede mundial, não imaginassem à época que suas idéias seriam realidade em tão pouco tempo.
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Ao que tudo indica, o mercado de TI, com seu gigantismo, subestimou tais previsões. A bolha estourou, sim, mas novas empresas vieram, dessa vez vacinadas, com modelos de negócios mais consistentes e ofertas agressivas de serviços – aplicações para desktop pela internet é um dos bons exemplos. Tudo para atender a um preceito básico: são os usuários que decidem o que querem.
A Web 2.0, com toda sua carga de interatividade e colaboração, exige agora que empresas revejam suas estratégias e processos, que devem se tornar mais descentralizados e com maior inteiração entre empregados, parceiros de negócios e clientes. Esse é o conselho de institutos como o Gartner, que colocou o assunto em primeiro lugar na última edição de seu Hype Cycle. Mas como os fornecedores tradicionais de TI têm respondido a essa necessidade?
O desafio não é pequeno: até 2008, a visão Web 2.0 será incorporada ao conceito de internet e vai deixar de ser uma categoria separada, acredita o Gartner. Como aconteceu com SOA (arquitetura orientada a serviços), web services e portais corporativos, a expectativa é que os fornecedores de TI capitalizem em cima dessa tendência associando seus produtos aos atributos da nova versão da rede global. Entre os destaques estão o Ajax, linguagem que habilita a criação de aplicativos interativos e é uma das ferramentas mais quentes entre os criadores de sites e serviços na Web, as aplicações baseadas em RSS (Really Simple Sindycation) e a adoção de modelos mash-up, que integra aplicativos de diversas fontes em uma só solução.
Há, claro, questões importantes ainda não-resolvidas – alguns desenvolvedores, por exemplo, acreditam que o Ajax, por ser uma combinação de Javascript e XML, linguagens que apresentam problemas de segurança, tende a aumentar essa vulnerabilidade. No entanto, é inegável que os clientes corporativos já vêm adotando comunicadores instantâneos, serviços de webmail, redes sociais, blogs e podcasts no dia-a-dia.
“Estamos às portas de uma revolução social baseada em colaboração”, decreta Cezar Taurion, gerente de novas tecnologias da IBM. “Mas, ao mesmo tempo, é difícil saber o que vai acontecer nos próximos anos, pois na era da inteligência coletiva as idéias vêm das mais diversas fontes”, pondera o executivo. Na dúvida, a IBM investe 1 bilhão de dólares por ano em novas tecnologias, dais quais a Web 2.0 faz parte. No fim do ano passado, em conjunto com a Universidade do Arizona, a companhia lançou o primeiro curso sobre o tema.
Dentro da Big Blue, cujos sistemas estão amparados por SOA, há uma central de wikis em que as pessoas colocam idéias e sugestões para soluções e processos. Em 2006, um evento virtual, aberto aos parceiros e familiares de funcionários, reuniu 150 mil pessoas (um grupo maior do que a população do município de Paranaguá, no Paraná), debatendo desde tecnologia a questões como o aquecimento global.
Web 2.0 é um caminho sem volta para os fornecedores de TI, afinal? “Não dá para provar como será o futuro, o que também não significa que, quem não estiver preparado, se verá livre de problemas”, resume Taurion. Sistemas operacionais e bancos de dados, segundo o especialista, não deixarão de existir, mas certamente sofrerão algum tipo de impacto.
Em entrevista recente ao COMPUTERWORLD, o diretor de Online Services Group da Microsoft Brasil, Osvaldo Barbosa, tem visão semelhante. Segundo o executivo, a Microsoft se prepara há algum tempo para responder a essas alterações do panorama. “Não será uma mudança repentina. Esse é um processo contínuo, para o qual a linha Live representa um acréscimo de estratégia”, declarou. A estratégia Live, anunciada em novembro de 2005, é formada por um conjunto de software e serviços pela internet – serviços online, interligados – e tem como foco inicial o usuário final de tecnologia.
A empresa já anunciou que vai priorizar parceiros de Web 2.0, especialmente aqueles envolvidos em web services, aplicações e ferramentas de mash-ups. Em suma, a empresa está formando um time com parceiros e desenvolvedores que criarão ferramentas baseadas na nova geração da internet. O que não significa a redenção do software de caixinha: a estratégia da corporação é de software mais serviços, em oposição ao software como serviço alardeado pelo mercado.
A Oracle também entra nessa arena, com seu estilo comprador: adquiriu por 140 milhões de dólares a Stellent, empresa de gerenciamento de conteúdo, num sinal claro de aproximação com o universo Web 2.0. Além disso, no fim do ano passado lançou o Web Center Suite, que explora o conceito de mash-up, criando um ambiente múltiplo para aplicativos provenientes de diversas fontes.
De acordo com Márcio Butuem, gerente-sênior de consultoria de vendas, a idéia é fazer com que o portal corporativo das empresas seja, efetivamente, a área de trabalho do usuário. “Os portais normais têm links para as aplicações, mas os usuários acabam saindo deles e não voltam mais. Essa suíte é voltada para as companhias que vêm buscando remodelar o conceito de portal”, explica, depois de comparar o conceito de SOA com o de mash-up. Para Butuen, o primeiro é mais voltado para o back end e o segundo tem a ver com a interface de usuário, com torná-la atraente e funcional.
Os aplicativos Fusion – pacote de sistemas empresariais da Oracle que vai reunir as funcionalidades de soluções da PeopleSoft, J.D Edwards e Siebel –, estão sendo construídos já dentro desse conceito, “para que possam ser integrados com esses portais”, conta.
Para Marcello Póvoa, diretor da consultoria MPP Solutions, a Web 2.0 não é nenhuma surpresa para empresas de TI de grande porte. “A curva de evolução de tecnologia e a concorrência nesse mercado sempre foram extremamente agressivas”, observa. Isso mesmo diante de novas potências como o Google e do fato de estarem surgindo núcleos de concorrência inesperados. Companhias essencialmente pontocom, e não de tecnologia, como a Amazon, descobriram no desenvolvimento de aplicativos uma nova fonte de receita. Segundo o consultor, a loja virtual tem uma solução de CRM (gestão de relacionamento com os clientes) inicialmente para uso interno que será oferecida para o varejo em breve.
Outro concorrente inesperado é a Intel, que no fim do ano passado anunciou um pacote de softwares que inclui aplicativos para blogs, wikis e sindicalização de conteúdo, o SuiteTwo. Os aplicativos vêm de empresas como SocialText, NewsGator, SimpleFeed e Six Apart, todas consideradas da onda de fabricantes de softwares para Web 2.0.
“As implicações dessa nova fase nos negócios vão continuar demandando cada vez mais desempenho das máquinas e sofisticação de conectividade em notebooks”, enxerga Dave Gonzalez, gerente de marketing para América Latina da companhia. “A Web 2.0 tem sido o maior impulsionador de crescimento na internet para a Intel”, revela.
A sensação de que o mercado está cedendo à rede de colaboração mundial é reforçada por uma das empresas mais lembradas no movimento, a Adobe. A corporação, que finalizou o processo de aquisição da Macromedia e é detentora da tecnologia Flex 2.0, baseada em aplicações dinâmicas para internet – conhecidas como RIA (rich internet
application) –, doou em novembro seu código Flash para a Fundação Mozilla.
Os usuários, que pela própria natureza da Web 2.0 já não têm um papel inativo nesse processo de múltiplas interações, especulam qual será o novo desenho do mercado corporativo de TI. São usuários de perfis tão distintos quanto desenvolvedores – a força que impulsiona a nova realidade, nas palavras de Rotter – e gerentes de TI, cujo DNA é avesso ao risco por uma questão de sobrevivência no mundo dos negócios. Quem dera ter uma bola de cristal, tal qual Lévy e Castells, para saber quem vai se sobressair no meio de tanta transformação.
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