Negócios
Venture capital em TI está em marcha lenta
Fonte tradicional de recursos para o segmento de TI em várias partes do mundo não vem ao Brasil. É apenas o processo normal do modelo de investimento ou existe algum problema maior?
Por Taís Fuoco e Vinícius Cherobino, do COMPUTERWORLD
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A Índia está sofrendo com preocupações sobre o mercado de Venture Capital e Private Equity (investimentos privados). Mas, lá, os dilemas estão relacionados ao superaquecimento. Para se ter uma idéia, dados da consultoria indiana Evalueserve, dão conta de que mais de 44 fundos pretendem investir pesadamente em start-ups indianas nos estágios iniciais de desenvolvimento. De acordo com a pesquisa, cada uma destas gestoras de capitais já levantou ou está em vias de conseguir mais de 100 milhões de dólares para o setor no país, o que totalizaria 4,4 bilhões de dólares.
A Evalueserve afirma que os fundos já levantaram 1,75 bilhões de dólares para apoiar empresas com foco em terceirização, BPO, desenvolvimento de software e telecomunicações, entre outras. Na prática, diz a pesquisa, como uma start-up demanda cerca de 9 milhões de dólares em seus primeiros três anos, isso significaria investir, entre 2007 a 2010, em 150 a 180 empresas nascentes por ano.
A realidade no Brasil está muito distante. Mesmo sem dados oficiais, é possível contar nos dedos os casos de sucesso de investimentos de Venture Capital ou Private Equity em tecnologia da informação no País. Depois de se falar em Microsiga/Totvs, Datasul, CPM, Módulo Security, os exemplos começam a rarear com uma velocidade impressionante, até desaparecerem. As informações mais recentes são de uma pesquisa da Faculdade Getúlio Vargas que analisou o setor de VC e PE entre 1999 e 2004. Segundo o levantamento, foram investidos 440 milhões de dólares por ano em diversos setores da economia, beneficiando um total de 306 empresas.
Para Marcus Regueira, presidente da associação brasileira de Venture Capital e Private Equity (ABVCAP) e representante da Fir Capital, o setor não tem nenhum problema especial no Brasil, a lentidão nos investimentos é decorrente apenas de falta de liquidez, que começa a acabar agora. “O caráter desse tipo de investimento é elitista por natureza, vai escolher apenas os melhores negócios”, defende Regueira. Ele complementa: “Em cinco anos, avaliamos mais de 500 projetos e investimos em 16. O modelo é elitista”.
Patrice Etlin, diretor geral da Advent International, não concorda que existem poucos aportes de venture capital e privaty equity em TI no Brasil. No entanto, acrescenta, a absoluta maioria dos investidores está buscando muito mais empresas de tecnologia que ofereçam produtos do que aquelas que têm o núcleo em serviços. “O entrave está na consolidação das leis trabalhistas (CLT). Como as empresas do setor contratam seus funcionários como pessoas jurídicas, há um potencial de contingência perigoso”, explica. “As leis trabalhistas arcaicas aumentam o custo-Brasil. Se a empresa de serviços de software puder contratar como pessoa física, a margem some”.
Regueira concorda. Para ele, como o setor de serviços tem uma dependência maior de mão-de-obra, o impacto da CLT é muito maior. “O custo com o trabalhador quase dobra com os encargos. Não é segredo que a tendência é investir menos do que se faria caso as leis fossem mais competitivas com o resto do mundo”, defende. Assim, continua, a empresa vai acumulando mais passivos com o passar do tempo, o que afugenta cada vez mais o investidor.
“Há escassez de capital e abundância de possibilidade de investimentos. Se tenho uma enormidade de possibilidades de colocar recursos em empresas dentro da lei, por que iria atrás de um passivo?”, argumenta Regueira. Etlin defende a política das empresas de serviços de contratarem funcionários como pessoas jurídicas. “É uma estratégia que faz sentido para o modelo de negócios. A questão trabalhista continua como o maior entrave”, insiste.
A idéia de que a falta de investimentos é devida apenas às leis trabalhistas não é, no entanto, compartilhada por todas as gestoras de capital para investimentos. Para Fábio de Paula, diretor de investimentos da Intel Capital, existem dois grandes gargalos: “falta mentalidade aos empresários de que é possível crescer por saltos, como no caso de um aporte, e muitas das empresas no Brasil ainda carecem de governança corporativa”.
Ele explica que, na questão da governança, as companhias apresentam “muitos passivos trabalhistas e fiscais”, no que o executivo chama de “cultura da informalidade”. “Se não são bem estruturadas, as companhias não conseguem crescer”, diz, o que leva, na sua visão, a outra dificuldade: “o número de oportunidades entre empresas em estágio de expansão”.
Esse é o foco mais recente do braço de venture capital da gigante de chips, que depois de ter aplicado recursos em várias start ups, decidiu fazer investimentos de maior vulto e, por isso, passou a olhar as companhias mais desenvolvidas. “Dessa forma, conseguimos mais rapidamente estimular a adoção de novas tecnologias no mercado”.
Apesar dos entraves, a Intel Capital tem, neste momento, participações em oito companhias no Brasil e já investiu, nestes sete anos de atuação no País, em cerca de 15 delas, algumas das quais já vendidas a terceiros. “Estamos ativamente buscando novas oportunidades de investimento. Somos o principal investidor em tecnologia no País”, afirma.
A Votorantim Novos Negócios também afirma manter a disposição de investir em TI no País, em um processo constante de busca de oportunidades. Segundo Paulo Henrique de Oliveira Santos, presidente da companhia criada há sete anos pelo grupo Votorantim, “o que nos atrai para o setor é o índice de crescimento da indústria – a taxa de dois dígitos por ano”.
O foco da Votorantim em TI é a prestação de serviços, caso da Tivit, por exemplo, “segmento que tem ainda outro atrativo, que é a oportunidade de negócios no exterior, em offshore”, ressalta Paulo Henrique.
Mais recentemente, a empresa de investimentos decidiu aplicar recursos em biotecnologia – já tem três aportes nesse setor. De acordo com Paulo Henrique, nesse caso, como o setor é embrionário no Brasil, em vez de fazerem aquisições de parte do capital, a Votorantim Novos Negócios ajuda a companhia a ser criada.
Nesses casos, a vantagem para o investidor é não ter de lidar com possíveis passivos trabalhistas ou fiscais de companhias já existentes no mercado. “Como são empresas montadas a partir do zero, damos apoio para que ela nasça com toda a conformidade”, explicou o executivo.
O tamanho do fundo administrado pela Votorantim é de 300 milhões de dólares e até agora cerca de metade disso já foi utilizado, segundo o presidente. “Mas esse valor não é um limite”, ressaltou. “Se virmos oportunidades interessantes, o grupo Votorantim pode aportar mais recursos”, salientou.
Segundo ele, a empresa deve anunciar algumas pequenas aquisições nos próximos meses na área de TI e divulgou recentemente seu mais novo negócio em biotecnologia: a Biocell, que desenvolve pesquisas para produção de etanol a partir do bagaço da cana-de-açúcar.
O que é Venture Capital e Private Equity?
Venture Capital é responsável por oferecer recursos para o desenvolvimento de novos negócios, atuando de maneira mais próxima da empresa e participando ativamente na rotina empresarial.
O Private Equity é um modelo tradicionalmente ligado a empresas maiores, com os representantes do fundo participando do conselho e sem uma atuação direta no dia-a-dia da companhia.
Para o especialista, a tradução de Venture Capital como capital de risco é errada, assim como o conceito de que os investidores colocam seu dinheiro apenas para ter um retorno rápido e a qualquer custo. “joint venture é, literalmente, recursos para projetos. Por isso, a tradição correta é capital empreendedor”, defende.
Não adianta...
Muitas vezes penso que as empresas de Venture Capital só querem negócios que tem muita chance de frutificar e, a forma de garimpar esses negócios no mercado aliado ao formato do negócio final, prova isso.
Porém, concordo com as alegações da reportagem. Realmente nós pequenos não estamos prontos para negócios com essas empresas. A despeito de até termos um negócio que se enquadra no perfil que procuram, a questão da governança corporativa em empresas pequenas é um nó a ser desatado. Concordo também com as questões da informalidade, mas creio que a margem de lucro de um negócio sofrer com as leis trabalhistas é uma questão relativa ao negócio.
A pergunta que fica no ar é: por que ninguém pensa num modelo de investimento alternativo? Ora, se 95% das empresas do mercado são pequenas e, se boa parte delas tem negócios interessantes mas não estão maduras, por que as empresas de Venture Capital não reinventam seu próprio negócio e adotam um modelo de investimentos que contemple essas pequenas-interessantes-empresas?
Afinal, se Venture Capital não é capital de risco e sim Capital Empreendedor, nós pequenos-interessantes-empreendedores estamos a disposição e necessitados de recursos para poder crescer.
Alfredo - 09 Mai 2007, 08h33
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