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Empreendedores: Operações Linux voltadas ao exterior

Empresa de personalização de sistemas de gerenciamento de conteúdo ganha projeção internacional com serviços baseados em Linux.

Por Camila Fusco, do COMPUTERWORLD

20 de junho de 2007 - 07h05
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Alguns dias na semana, o executivo Dorneles Treméa não pode ser encontrado em horário comercial no escritório da X3ng, empresa de personalização de sistemas de gerenciamento de conteúdo onde é sócio. Compromissos externos? Visitas a clientes? Nada disso. Provavelmente ele estará... dormindo.

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O motivo é simples. Nestes dias, Treméa está no fuso da Noruega – cinco horas à frente do Brasil-, já que aquele país abriga seu principal cliente, a Plone Solutions. “Algumas vezes na semana faço o horário das 3h às 12h para estar compatível com a equipe do cliente. Em outros dias, volto ao fuso do Brasil para os serviços administrativos que precisam ser feitos”, comenta. As poucas horas de sono durante a madrugada pouco incomodam o executivo ou seu sócio, Sidnei da Silva, que também precisou ter sua agenda adaptada – ao horário dos Estados Unidos. Afinal de contas, são as operações internacionais que respondem por cerca de 90% do faturamento da X3ng atualmente.

Os sócios em questão enquadram-se em um perfil empreendedor não tão raro de se identificar no Brasil: aquele que encontra mais oportunidades no exterior do que em seu país de origem. Atuantes na área de desenvolvimento de código sobre plataforma aberta – Zope e Plone –, os dois jovens executivos, ambos na faixa dos 27 anos, conviveram com a maior demanda internacional por seus serviços desde o início da vida empresarial, seis anos atrás.

Na ocasião, os dois ainda estudantes de Ciências da Computação no Rio Grande do Sul e mais um grupo de quatro amigos criaram a empresa em função das demandas de uma empresa nacional – no caso, a própria instituição que cursavam, a Universidade de Caxias do Sul. No entanto, foram ganhando visibilidade e fazendo contatos internacionais a partir do ano seguinte – 2002 -, durante o Fórum Internacional de Software Livre (FISL), realizado em Porto Alegre.

“A tecnologia de código aberto que escolhemos para trabalhar na época, o Zope, só era trabalhada por nós e por mais uma empresa de São Paulo”, comenta Treméa, ressaltando que foi necessário muito suor para aprender por conta própria os traquejos da tecnologia em ascensão.

Durante o próprio evento os seis jovens sócios fizeram contato com alguns dos palestrantes internacionais mais importantes na época, da Zope Corporation, e chamaram atenção por seu potencial. O resultado foi que semanas depois a companhia já estava contratada para realizar a migração do site Zope.org, em seu primeiro contrato internacional. Dos 10 reais por hora suados no projeto para a Universidade de Caxias do Sul, os meninos gaúchos – na ocasião com uma média de 22 anos de idade -, passaram para 50 dólares a hora, o que fez com que eles vissem a grande possibilidade que se existia nos negócios internacionais.

Vulnerabilidades aparentes
Relacionamento foi a palavra de ordem naquele momento em que os primeiros passos internacionais eram dados. Com o projeto para a Zope Corporation, a empresa ganhou visibilidade e, segundo Treméa, chegou a um ponto em que era procurada por clientes potenciais, sem fazer esforços massivos de divulgação no exterior.

O escritório cresceu, contratou estagiários e mantinha um ritmo frenético de trabalho, engatando um projeto após o outro, sobretudo aqueles destinados aos Estados Unidos. No Brasil, porém, o cenário não era nem parecido, e não eram poucas as empresas que torciam o nariz para o software livre, base do trabalho da companhia.

Mas o que por um lado parecia a mina de ouro, com clientes em abundância e ganhos em dólar, trazia instabilidades e uma dependência difícil de ser superada. As dificuldades foram sentidas na pele pelos sócios da X3ng em meados de 2003 com o início da guerra do Iraque. “Aquela situação acabou praticamente fechando o mercado internacional para nós. Ficamos cerca de seis meses sem faturar o suficiente para manter o padrão que estávamos acostumados e acabamos por desmanchar a equipe”, conta. Ao término daquele ano, restaram apenas três sócios que chegavam a conduzir projetos paralelos à empresa como fonte alternativa de renda.

Dorneles Treméa afirma que apesar de toda a má fase passada pela companhia, não pensava em desistir, nem mesmo no início de 2004 quando os outros sócios deixaram a empresa. Com os contatos obtidos ao longo da fase áurea dos contratos internacionais e também por manter seu nome ativo nas comunidades de desenvolvedores, conseguiu abocanhar para a X3ng semanas depois da debandada dos sócios, um contrato na Noruega.

O resultado foi um período de mais de 20 dias na Europa para articular o modelo de trabalho de desenvolvimento que conduziria por aqui em parceria com desenvolvedores da Noruega e Áustria para um dos fundadores do Plone. Com a parceria, Treméa voltou ao Brasil atendendo a essa empresa sozinho de junho de 2004 a fevereiro de 2005, quando articulou uma retomada das atividades com um antigo sócio, Sidnei da Silva, que também mantinha seus projetos de exportação de software sobretudo para os Estados Unidos.

A partir de então, os dois jovens executivos acostumados a passar horas na frente do computador desenvolvendo códigos sozinhos para os clientes internacionais – o recorde de Treméa é de 42 horas ininterruptas -, trocaram Caxias do Sul por Garibaldi, também no Rio Grande do Sul a procura de qualidade de vida e de uma retomada nos negócios abalados pelas circunstâncias do mercado internacional. Como o contato com os clientes internacionais é basicamente virtual ou por telefone, não faz muita diferença a localização geográfica, comenta o executivo.

Uma visão alternativa do futuro
No ano passado, a X3ng faturou cerca de 238 mil reais, trabalhando apenas com a capacidade intelectual e os serviços de desenvolvimento de seus dois sócios – e funcionários braçais, por sinal. Na carteira de clientes, predominantemente, projetos para Noruega, Estados Unidos e alguns pontuais no Brasil.

“A sensação que tivemos em boa parte desses anos trabalhados era de que estávamos vendendo uma tecnologia alienígena no País. É difícil ensinar que a tecnologia existe, já que o desconhecimento sobre ela ainda é grande”, comenta, assinalando, porém, que iniciativas governamentais recentes – como a opção pelo Plone nos portais do Serviço Federal de Processamento de Dados –, têm contribuído para a disseminação da tecnologia.

No entanto, apesar das oportunidades eventuais que possam aparecer por aqui e serem traduzidas em novos negócios e da lição aprendida sobre os riscos trazidos pela dependência internacional, a filosofia da X3ng difere de forma razoável da maioria das empresas no Brasil. Como empreendedor, Treméa não aposta e não almeja em expansão notável no número de funcionários ou incremento expressivo nos lucros.

“Completamos seis anos em 2007. No início não tínhamos a menor idéia do que era a vida empresarial. Eu diria que a idéia é continuar cada vez mais crescendo, prestando serviço de qualidade, mas não me vejo fazendo fortuna ou querendo montar uma empresa maior. Gosto da flexibilidade e da vida junto à comunidade, mas sem a obrigação capitalista. É um estilo de vida”, conclui.

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