Negócios
Empreendedores: Operações Linux voltadas ao exterior
Empresa de personalização de sistemas de gerenciamento de conteúdo ganha projeção internacional com serviços baseados em Linux.
Por Camila Fusco, do COMPUTERWORLD
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Alguns dias na semana, o executivo Dorneles Treméa não pode ser encontrado em horário comercial no escritório da X3ng, empresa de personalização de sistemas de gerenciamento de conteúdo onde é sócio. Compromissos externos? Visitas a clientes? Nada disso. Provavelmente ele estará... dormindo.
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O motivo é simples. Nestes dias, Treméa está no fuso da Noruega – cinco horas à frente do Brasil-, já que aquele país abriga seu principal cliente, a Plone Solutions. “Algumas vezes na semana faço o horário das 3h às 12h para estar compatível com a equipe do cliente. Em outros dias, volto ao fuso do Brasil para os serviços administrativos que precisam ser feitos”, comenta. As poucas horas de sono durante a madrugada pouco incomodam o executivo ou seu sócio, Sidnei da Silva, que também precisou ter sua agenda adaptada – ao horário dos Estados Unidos. Afinal de contas, são as operações internacionais que respondem por cerca de 90% do faturamento da X3ng atualmente.
Os sócios em questão enquadram-se em um perfil empreendedor não tão raro de se identificar no Brasil: aquele que encontra mais oportunidades no exterior do que em seu país de origem. Atuantes na área de desenvolvimento de código sobre plataforma aberta – Zope e Plone –, os dois jovens executivos, ambos na faixa dos 27 anos, conviveram com a maior demanda internacional por seus serviços desde o início da vida empresarial, seis anos atrás.
Na ocasião, os dois ainda estudantes de Ciências da Computação no Rio Grande do Sul e mais um grupo de quatro amigos criaram a empresa em função das demandas de uma empresa nacional – no caso, a própria instituição que cursavam, a Universidade de Caxias do Sul. No entanto, foram ganhando visibilidade e fazendo contatos internacionais a partir do ano seguinte – 2002 -, durante o Fórum Internacional de Software Livre (FISL), realizado em Porto Alegre.
“A tecnologia de código aberto que escolhemos para trabalhar na época, o Zope, só era trabalhada por nós e por mais uma empresa de São Paulo”, comenta Treméa, ressaltando que foi necessário muito suor para aprender por conta própria os traquejos da tecnologia em ascensão.
Durante o próprio evento os seis jovens sócios fizeram contato com alguns dos palestrantes internacionais mais importantes na época, da Zope Corporation, e chamaram atenção por seu potencial. O resultado foi que semanas depois a companhia já estava contratada para realizar a migração do site Zope.org, em seu primeiro contrato internacional. Dos 10 reais por hora suados no projeto para a Universidade de Caxias do Sul, os meninos gaúchos – na ocasião com uma média de 22 anos de idade -, passaram para 50 dólares a hora, o que fez com que eles vissem a grande possibilidade que se existia nos negócios internacionais.
Vulnerabilidades aparentes
Relacionamento foi a palavra de ordem naquele momento em que os primeiros passos internacionais eram dados. Com o projeto para a Zope Corporation, a empresa ganhou visibilidade e, segundo Treméa, chegou a um ponto em que era procurada por clientes potenciais, sem fazer esforços massivos de divulgação no exterior.
O escritório cresceu, contratou estagiários e mantinha um ritmo frenético de trabalho, engatando um projeto após o outro, sobretudo aqueles destinados aos Estados Unidos. No Brasil, porém, o cenário não era nem parecido, e não eram poucas as empresas que torciam o nariz para o software livre, base do trabalho da companhia.
Mas o que por um lado parecia a mina de ouro, com clientes em abundância e ganhos em dólar, trazia instabilidades e uma dependência difícil de ser superada. As dificuldades foram sentidas na pele pelos sócios da X3ng em meados de 2003 com o início da guerra do Iraque. “Aquela situação acabou praticamente fechando o mercado internacional para nós. Ficamos cerca de seis meses sem faturar o suficiente para manter o padrão que estávamos acostumados e acabamos por desmanchar a equipe”, conta. Ao término daquele ano, restaram apenas três sócios que chegavam a conduzir projetos paralelos à empresa como fonte alternativa de renda.
Dorneles Treméa afirma que apesar de toda a má fase passada pela companhia, não pensava em desistir, nem mesmo no início de 2004 quando os outros sócios deixaram a empresa. Com os contatos obtidos ao longo da fase áurea dos contratos internacionais e também por manter seu nome ativo nas comunidades de desenvolvedores, conseguiu abocanhar para a X3ng semanas depois da debandada dos sócios, um contrato na Noruega.
O resultado foi um período de mais de 20 dias na Europa para articular o modelo de trabalho de desenvolvimento que conduziria por aqui em parceria com desenvolvedores da Noruega e Áustria para um dos fundadores do Plone. Com a parceria, Treméa voltou ao Brasil atendendo a essa empresa sozinho de junho de 2004 a fevereiro de 2005, quando articulou uma retomada das atividades com um antigo sócio, Sidnei da Silva, que também mantinha seus projetos de exportação de software sobretudo para os Estados Unidos.
A partir de então, os dois jovens executivos acostumados a passar horas na frente do computador desenvolvendo códigos sozinhos para os clientes internacionais – o recorde de Treméa é de 42 horas ininterruptas -, trocaram Caxias do Sul por Garibaldi, também no Rio Grande do Sul a procura de qualidade de vida e de uma retomada nos negócios abalados pelas circunstâncias do mercado internacional. Como o contato com os clientes internacionais é basicamente virtual ou por telefone, não faz muita diferença a localização geográfica, comenta o executivo.
Uma visão alternativa do futuro
No ano passado, a X3ng faturou cerca de 238 mil reais, trabalhando apenas com a capacidade intelectual e os serviços de desenvolvimento de seus dois sócios – e funcionários braçais, por sinal. Na carteira de clientes, predominantemente, projetos para Noruega, Estados Unidos e alguns pontuais no Brasil.
“A sensação que tivemos em boa parte desses anos trabalhados era de que estávamos vendendo uma tecnologia alienígena no País. É difícil ensinar que a tecnologia existe, já que o desconhecimento sobre ela ainda é grande”, comenta, assinalando, porém, que iniciativas governamentais recentes – como a opção pelo Plone nos portais do Serviço Federal de Processamento de Dados –, têm contribuído para a disseminação da tecnologia.
No entanto, apesar das oportunidades eventuais que possam aparecer por aqui e serem traduzidas em novos negócios e da lição aprendida sobre os riscos trazidos pela dependência internacional, a filosofia da X3ng difere de forma razoável da maioria das empresas no Brasil. Como empreendedor, Treméa não aposta e não almeja em expansão notável no número de funcionários ou incremento expressivo nos lucros.
“Completamos seis anos em 2007. No início não tínhamos a menor idéia do que era a vida empresarial. Eu diria que a idéia é continuar cada vez mais crescendo, prestando serviço de qualidade, mas não me vejo fazendo fortuna ou querendo montar uma empresa maior. Gosto da flexibilidade e da vida junto à comunidade, mas sem a obrigação capitalista. É um estilo de vida”, conclui.
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