Foi dada a largada para a disputa presidencial nos Estados Unidos e em tão pouco tempo já se nota o uso em larga escala de mídias sociais, como Twitter, YouTube e Blogs.
Pergunta rápida: quem foi o primeiro candidato a Presidente da República a ser entrevistado por um estudante universitário em seu próprio dormitório e ter o vídeo postado no YouTube? Resposta: o republicano Ron Paul, que está realizando uma das campanhas eletrônicas mais dinâmicas, mas menos gerenciadas, da disputa à presidência dos Estados Unidos em 2008.
Os esforços de arrecadação eletrônica de recursos do congressista texano são tão anticonvencionais quanto seu uso da mídia. Ao contrário de outros candidatos, que disparam e-mail para potenciais eleitores, Paul tem deixado que eles mesmos conduzam grande parte da campanha.
A campanha de Paul assumiu uma abordagem de baixo para cima, voltada à comunidade, na arrecadação de fundos online. À medida que as doações chegam, a home page da campanha informa quem as fez e quanto já foi levantado, segundo Andrew Rasiej, co-fundador do TechPresident.com, um blog que cobre como os candidatos à presidência estão usando a web e de que modo o conteúdo gerado pelos eleitores está afetando a campanha.
E não é só isso. No Meetup.com, site que promove todos os tipos de alianças da comunidade, Ron Paul é o candidato com mais grupos “meetup” (reuniões no mundo real de pessoas que têm interesses em comum e se encontram no site): são 1.355. Mike Huckabee, ex-governador do Arkansas, aparece em segundo lugar com 261.
Outras campanhas presidenciais também estão explorando a web para criar comunidades e conquistar apoio. A web page do senador democrata Barack Obama (Illinois) convida os eleitores a criar seus próprios blogs no site. Além disso, a campanha abraçou a cultura da rede social Facebook. “Muitos adeptos de Obama estão se comunicando no Facebook e no MySpace e a campanha criou ferramentas para atualizar informação na plataforma Facebook”, diz Rasiej.
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John Edwards, ex-senador pela Carolina do Norte, é um usuário pesado do Twitter, um serviço de mensagem instantânea/rede social que traz um “feel” de tempo real para sua campanha.
A campanha do senador republicano John McCain (Arizona) criou sua própria comunidade online no web site chamada McCainSpace, onde os apoiadores podem criar suas próprias web pages no site e depois blogar ou enviar e-mails para amigos ou outros eleitores potenciais.
De baixo para cima
Mas a campanha de Paul adotou uma abordagem de baixo para cima, extremamente descentralizada, que visa a criar uma comunidade de apoio, ao mesmo tempo em que economiza nos gastos com TI.
“Nossa estratégia é moldada pela necessidade de ser frugal com o dinheiro”, justifica Justine Lam, diretora da campanha eletrônica de Paul. Quando Lam começou a traçar a estratégia eletrônica de Paul, em março de 2007, a campanha contava apenas com 500 mil dólares para trabalhar.
“Sabíamos que não podíamos fazer o mesmo tipo de campanha que Mitt Romney ou John McCain podiam fazer com o dinheiro deles”, explica Lam, usuário de internet iniciante no campo de batalha da política e segunda pessoa a se juntar ao staff da campanha de Paul. Portanto, parcimônia era a senha da campanha online. Ao invés de hospedar os vídeos de Ron Paul no web site de sua campanha e consumir largura de banda valiosa, Lam colocou os discursos e demais conteúdo de vídeo no YouTube.
As regulamentações da campanha presidencial também tiveram um papel importante no esquema de arrecadação de fundos online de Ron Paul. Regras rígidas da Comissão Eleitoral Federal proíbem que os organizadores de campanhas dêem instruções aos adeptos sobre o que devem fazer para ajudar. Como resultado, Lam e outros membros da equipe traçaram a estratégia de sugerir que os seguidores de Paul desenvolvessem suas próprias estratégias de apoio independentes.
A estratégia “ricocheteou pela web e permitiu que as pessoas tivessem a posse da campanha ao invés da campanha lhes dizer o que fazer”, conta Lam, que antes coordenava palestras via webcast para o Institute for Humane Studies na George Mason University.
A iniciativa de arrecadação de fundos online baseada na comunidade funcionou brilhantemente e distanciou a campanha eletrônica de Paul das demais, de acordo com Rasiej e outros especialistas.
Ron Paul provavelmente é o melhor exemplo de candidato presidencial que usou com mais eficácia e-mail e blogs envolvendo a comunidade, observa Karen Jagoda, presidente do E-Voter Institute. E não se trata apenas de difundir a mensagem de Paul via texto, ressalta Julie Germany, diretora adjunta do Institute for Politics, Democracy & the Internet na Graduate School of Political Management da George Washington University.
O uso de mídia social pelos apoiadores de Paul para postar videoclipes sobre ele no YouTube e em outros sites “foi incrível”, acrescenta Germany. O vídeo do YouTube em RonPaulMoneyBomb.com talvez seja um dos vídeos políticos mais eficazes dos últimos anos. E, é claro, Paul é o tema desta inovadora entrevista no dormitório realizada pelo estudante universitário James Kotecki.
A estratégia parece estar dando certo, pelo menos do ponto de vista da atenção online. O serviço de medição online Hitwise Pty. aponta que Paul atraiu quase 38% do tráfego na web entre todos os principais candidatos na terceira semana de dezembro, seguido por Mike Huckabee, ex-governador de Arkansas, com mais de 16%. Obama ficou em terceiro com pouco menos de 11%.
Embora candidatos como Hillary Clinton tenham levantado uma soma total muito maior do que Paul (o relatório de Hillary para a Comissão Eleitoral Federal em 21 de novembro mostra que ela captou mais de 45 milhões de dólares), a abordagem de arrecadação de fundos de Paul apoiada na comunidade gerou mais de 19,5 milhões de dólares no quarto trimestre de 2007, superando facilmente todos os outros candidatos em termos de doações online, contabiliza Rasiej.
Os números comprovam a eficácia e eficiência dos esforços de arrecadação online de Paul. McCain e Paul arrecadaram cada um cerca de 5 milhões de dólares durante um ciclo de captação em novembro. Mas Paul conseguiu isso participando apenas de 82 eventos, enquanto McCain fez mais de 500 aparições.
Segundos colocados
Entre os segundos colocados, talvez o candidato mais em tempo real no momento seja Edwards, graças, em grande parte, ao uso pioneiro do serviço de mensagem instantânea/rede social do Twitter na campanha.
O Twitter é um serviço de rede social gratuito que permite que as pessoas se comuniquem com amigos ou colegas usando SMS, mensagem instantânea, e-mail ou outras aplicações. Um recurso possibilita que os usuários enviem uma breve atualização para o site (até 140 caracteres) via “micro-blogging” e é empregado por Edwards para que as pessoas acompanhem onde ele está e o que está fazendo durante a campanha.
Este tipo de atualização imediata é uma novidade nas campanhas, mas não na vida dos eleitores mais jovens, diz Christopher Malone, professor adjunto de ciência política da Pace University. Edwards está atraindo os jovens com a tecnologia que eles estão acostumados a usar.
“Queremos ter o máximo possível de pessoas expostas à mensagem de John Edwards, acompanhando-o online e se inscrevendo para apoiá-lo”, afirma Aaron Myers, diretor de estratégia de internet da campanha. Para isso, um videógrafo viaja com Edwards, e vídeos sobre seus deslocamentos já atraíram centenas de milhares de visitas no YouTube.
“Temos a oportunidade de alcançar pessoas que talvez não estejam em busca de notícias políticas ou notícias sobre John Edwards em geral”, diz Myers. Resta ver se o uso do Twitter e outras ferramentas web 2.0 vão fazer a diferença para Edwards, pondera Malone. Mas, enquanto isso, ajudam-no a continuar no jogo.
Money Bomb
O divisor de águas da iniciativa de arrecadação de recursos online de Paul foi o “Ron Paul Money Bomb” de 5 de novembro, quando a campanha bateu o recorde de doações em um dia. “Nunca vimos nada igual”, enfatiza Lam. “Levantamos 4,2 milhões de dólares naquele dia com uma 'money bomb' que envolveu os apoiadores de Paul de ponta a ponta. Ninguém nunca tinha feito isso.”
No dia 16 de dezembro, Paul foi ainda mais longe, captando surpreendentes 6 milhões de dólares. O máximo que o ex-governador de Vermont, Howard Dean, reuniu em um dia de doações online durante a disputa presidencial de 2004 foi 500 mil dólares.
A campanha de Dean também foi muito apoiada pela comunidade e voltada para a internet. Na época, os organizadores fizeram teleconferências freqüentes via Meetup.com com os simpatizantes de Dean, com listas de tarefas semanais, conta Lam.
Não é o caso do pessoal de Paul. “Até realizamos conferências via web de vez em quando para contar aos nossos apoiadores o que estamos fazendo na sede da campanha, mas não lhes dizemos o que fazer”, compara Lam.
Um dos fatos óbvios na política pela internet é que fica mais fácil para candidatos “marginais” como Paul empolgar potenciais eleitores do que para políticos mais mainstream como Rudy Giuliani, ex-prefeito de Nova York, afirma John Palfrey, diretor executivo do Berkman Center for Internet & Society na Harvard Law School.
Campanhas com verba e bases de suporte menores “estão mais dispostas a correr o risco de usar a internet de maneira experimental”, revela Palfrey. “Ron Paul está fazendo uma campanha com grande foco online e, em conseqüência, está se tornando muito mais relevante.”
Mas ainda não se sabe se a experiência online de Paul será suficiente para mantê-lo na disputa. “A campanha requer mão-de-obra intensiva para conquistar votos”, reconhece Malone. “Apesar de todo o pioneirismo de Howard Dean na internet, ele não teve força nas ruas suficiente para conquistar votos em Iowa.”