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Entrevista: Qual é o interesse da Microsoft com o código aberto?

O responsável pelas iniciativas da Microsoft para o mundo open source, Sam Ramji falou ao COMPUTERWORLD que vê o 'código aberto como uma oportunidade'.

Por Fabiana Monte, do COMPUTERWORLD

27 de outubro de 2008 - 07h00
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Inúmeras comparações e rivalidades marcam o mundo da tecnologia. A mais emblemática é a disputa Microsoft versus open source.

Mas há três anos, o cenário começou a apresentar sinais de mudança – a Microsoft diminuiu a resistência e deu início a ações de aproximação com o mundo open source.

Na linha de frente – e de fogo - da empresa cujo símbolo máximo é o Windows está Sam Ramji, diretor da Microsoft para ações relacionadas a Open Source.

À Ramji, cabe a tarefa de mudar a forma como a empresa comandada por Steve Ballmer vê o mundo do código aberto e fazer com que a comunidade open source se aproxime da senhora Windows. Coisa para um verdadeiro estrategista.

COMPUTERWORLD - Como a Microsoft vê o open source atualmente?
Sam Ramji -
A palavra “atualmente” é interessante porque mostra que existe uma história, uma mudança. Eu diria que hoje em dia nós vemos open source como uma enorme oportunidade para a empresa, em dois caminhos: suportar o open source amplamente nas tecnologias Microsoft – e isso não quer dizer apenas Windows Vista e Windows Server, mas também Microsoft Office, Share Point.

Há toda uma extensão de oportunidades pelas quais podemos ver como o open source pode ser benéfico para clientes, para usuários e promover melhores soluções em tecnologias da Microsoft.

Outra categoria que considero nova é vermos o valor em promover a interoperabilidade com plataformas open source, de plataformas Microsoft, como Windows Server, para outras não-Microsoft, como servidores Linux.

Nossos clientes no Brasil e na América Latina têm um mix de diferentes sistemas operacionais, Linux, HPUX, Sun OS - que é mais velho do que o Solaris - e mainframes. Nossa tarefa é fazer esses ambientes trabalharem juntos, dando maior confiança aos nossos clientes em relação aos produtos Microsoft e criando melhores oportunidades para nós.

CW - Grandes nomes do mundo open source fazem parte do laboratório de interoperabilidade comandado por você. Como eles ajudaram a Microsoft a ser mais bem vista pela comunidade open source?

SR - A primeira forma pela qual eles ajudaram foi identificar onde tínhamos gaps tecnológicos, quão boa é a integração de Windows e Linux, quão bem roda o PHP no Windows Server. E onde eles encontraram gaps, identificaram que era preciso corrigi-los. Por meio desse processo, eles nos ajudaram na aproximação com as comunidades open source.

Um ótimo exemplo disso é o Samba, um projeto open source muito popular, com alguns dos melhores desenvolvedores da comunidade open source, como Andrew Tridgell, Jeremy Allison, Andrew Bartlett. E trazer Tom Hanrahan, que anteriormente era diretor de engenharia da Linux Foundation, para trabalhar comigo, permitiu que nós colocássemos em prática algumas idéias que tínhamos a respeito de fazer o Samba e o Windows trabalharem melhor juntos.

O segundo ponto é que essas pessoas são agentes de mudança. Eles provocaram mudanças na Microsoft. Você pode falar com alguém com quem trabalha, que você conhece, que você vê todos os dias, e que traz uma perspectiva diferente.

Novamente, vamos usar o Samba como exemplo. Tínhamos uma documentação que havíamos publicado em um website por alguns anos, sob o padrão de licença MSDN (Microsoft Developer Network), que não dava os direitos necessários para que os desenvolvedores do Samba fizessem o que quisessem.

Acho que, por alguns anos, ouvimos isso como uma empresa, mas Tom Hanrahan nos ajudou a ver – e a ouvir efetivamente e trabalhar de forma colaborativa com essas pessoas - que aqueles não eram os direitos que os desenvolvedores queriam.

A licença MSDN dizia que era possível fazer implementações, mas não publicar códigos, o que é um problema para projetos open source. Com as vozes internas, percebemos que era preciso mudar a licença. Essas pessoas apontaram as alterações necessárias e mostraram que a proposta ainda era boa. Então, esse agente de mudança é o segundo ponto. E isso nos colocou em um lugar melhor na relação com desenvolvedores open source.

Finalmente, o terceiro ponto é a capacidade de falar sobre o que nós fizemos. E, como resultado de termos tomado as medidas certas, membros da comunidade declararam que nós implementamos ações que os ajudaram.

Acho que são esses três pontos – processo, produto e percepção. Mas tem que ser nessa ordem. Primeiro você tem que corrigir o produto, depois, o processo, e, finalmente, pode consertar a percepção. Se fizer em outra ordem, esqueça. Isso é significativo, fazendo assim, cria-se um ciclo virtuoso. Fazemos isso uma vez e as pessoas dizem: “Uau, a Microsoft é séria” e mais pessoas da comunidade vão querer trabalhar para nós. É um momento excitante.

CW - Muita gente aponta você como a pessoa que fez esse processo acontecer na Microsoft. Você concorda e como lida com isso?

SR - Eu recebo muitos e-mails, pelo menos 600 por dia. Minha meta é ler todos e responder o máximo que posso. Nenhuma mudança acontece com uma só pessoa. Eu diria que Bill Hilf abriu a porta e deu início a uma série de coisas que fizeram as pessoas pensarem: “Existem formas diferentes de fazer isso”.

Mesmo na Microsoft, outras pessoas disseram: “Ei, nós deveríamos trabalhar bem com open source”. A diferença é que eu tenho um background de tecnologia e de negócios e sei que, para conversar sobre comunidade e troca de tecnologia, é preciso voltar ao negócio.

Trazendo Microsoft e open source à perspectiva de oportunidade de negócios - quantos servidores, bancos de dados, sistemas de gerenciamento podem ser vendidos -, você volta e faz a coisa certa novamente, você constrói uma interoperabilidade melhor e mais oportunidades.

Acho que, se fiz alguma coisa de forma um pouco diferente que nos ajudou a progredir, foi ter certeza de que sempre tenhamos essas duas perspectivas. Uma coisa que acho importante em uma grande empresa é que se você bater nas portas dizendo ter uma grande idéia, algumas pessoas ouvirão você, outras não. Se você mandar para todo mundo um plano de negócios, apontando de onde vem o futuro, você começa a conseguir essas mudanças. Algumas vezes, você tem que apelar para a forma pela qual a empresa trabalha, de modo a conseguir essas transformações.

Certamente é uma honra para mim as pessoas dizerem que eu desempenho um papel importante e acho que meu trabalho é envolver as pessoas.

CW – Você poderia comentar as iniciativas da Microsoft que envolvem open source?

SR - Vou começar com o laboratório de interoperabilidade no Brasil, que nos orgulha muito. Começamos com a Unicamp, com integração de computação de alto desempenho entre Windows e Linux e outros programas técnicos. Roberto Prado, que coordena o projeto, me educou sobre a iniciativa e me mostrou os resultados obtidos. Eu achei incrível, nunca imaginei que fosse possível levar nossa estratégia tão longe. Esse é um dos pontos pelos quais digo que somos uma comunidade. Temos idéias, afetamos uns aos outros porque alguém diz que é possível.

A partir deste projeto, lançamos laboratórios com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS) e também com a Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) para desenvolvermos pesquisas técnicas sobre interoperabilidade. Os laboratórios de interoperabilidade são inspirados no trabalho desenvolvido no Brasil. Agora temos laboratórios na África do Sul, Filipinas, Alemanha, Itália e teremos outros na Tailândia, na China e Índia. Temos dez laboratórios e outros entrando em operação a cada trimestre.

Parte do que mudou para mim no último ano é que deixei de ser o estrategista técnico para ser a pessoa que lidera open source na Microsoft. Temos 30 pessoas na corporação e mais outras tantas em vários países. É similar ao poder do open source, que tem várias pessoas em todo o mundo – algumas se conhecem, outras não – colaborando, trocando e-mails. Temos uma cultura muito semelhante na comunidade open source da Microsoft.

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