Negócios
Vagner Diniz é presidente do Instituto Conip – Conhecimento, Inovação e Práticas de TI na Gestão Pública.
Cidades Invisíveis, Marcola e Piraí
Cada cidade provê as respostas às suas angústias ao seu modo. TI é instrumento de respostas diferentes refletindo um determinado contexto e liderança. Por Vagner Diniz.
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No magnífico livro “As Cidades Invisíveis”, Ítalo Calvino usa um imaginário viajante Marco Pólo para descrever ao seu imperador Kublai Khan como são as cidades do império. Este percebe que as cidades de Marco Pólo eram todas parecidas, imagináveis. Ao que o viajante argumenta:
- As cidades também acreditam ser obra da mente ou do acaso, mas nem um nem outro bastam para sustentar as suas muralhas. De uma cidade não aproveitamos as suas sete ou setenta e sete maravilhas, mas a resposta que dá às nossas perguntas.
Esse texto poético me veio à mente diante da situação de pânico vivido pela população da cidade de São Paulo em maio do ano passado. Impressionou-me o “poder de fogo” do celular e a Internet. Por um lado, o celular foi o veículo essencial tanto para iniciar os ataques do PCC como para pará-los. Instrumento para mobilizar, organizar, aterrorizar, silenciar.
Pela Internet circulou um e-mail com uma velocidade tão impressionante que foi capaz de desmobilizar, desorganizar e apavorar a população. O e-mail, que se afirmava verdadeiro, fazia um apelo para que a população voltasse para casa até as 16 horas porque haveria um ataque em larga escala na cidade às 18 horas. E deu no que deu. Pânico na cidade como nunca visto, até empresas supostamente bem informadas preferiram o senso médio e fecharam as portas.
Uma semana depois estava em Piraí, pequena cidade do Vale do Paraíba fluminense. Em conversa com Franklin Coelho, um dos coordenadores do Programa Piraí Digital, chamou a atenção o uso intensivo da conectividade na cidade. Enquanto grande parte das experiências de inclusão digital em desenvolvimento baseia-se em telecentros para a população carente, Piraí decidiu adotar uma proposta mais inclusiva.
Foram colocados à disposição da população 25 mil e-mails gratuitos, mais do que o número de habitantes do município. Na zona rural, os produtores têm acesso a informações sobre canais de exportação, preço dos insumos, cotação dos seus produtos etc. Nas escolas do município, professores e alunos experimentam as novas ferramentas para pesquisar sobre a história local.
Segundo o site oficial, tudo começou “em meados da década de 90, quando o município sofreu um impacto social e econômico com a privatização da Light. Cerca de 1.200 pessoas foram demitidas e o distrito onde moravam transformou-se numa cidade fantasma. Em um município com 22.500 habitantes, este número de desempregados pode ser considerado uma catástrofe social que exigiria a decretação de estado de emergência.
Por iniciativa da Prefeitura, estruturou-se programa de desenvolvimento local gerando, em quatro anos, número de postos de trabalho equivalente ao de desempregados”. A atual rede de Piraí abrange 39 edifícios públicos e 20 estabelecimentos de ensino com internet rápida, beneficiando 6.300 alunos.
O acesso à rede também contempla 20 edifícios dos quais quatro bibliotecas, uma Casa da Criança, uma APAE, uma Creche, quatro Telecentros e nove Quiosques. Isso representa 398 computadores à disposição não só dos alunos, mas de toda a comunidade. O melhor resultado disso foi a Comunidade Virtual do Conhecimento que criou o Museu Virtual de Piraí.
No dia 13 de junho de 2005 em Nova York, o Projeto Piraí Digital recebeu o premio Top Seven Intelligent Communities, ficando entre as sete cidades mais inteligentes do mundo no ano de 2005.
Cada cidade provê as respostas às suas angústias ao seu modo e ao seu tempo. As mesmas tecnologias foram instrumentos de respostas diferentes refletindo um determinado contexto e liderança. Descartes, no livro Discurso do Método, afirma que “as maiores almas são capazes dos maiores vícios, como também das maiores virtudes”.
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