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Segurança

Superlotação na internet?

A escassez de endereços para internet no Brasil traz de volta as discussões entre os especialistas sobre a necessidade nova versão do protocolo, o IPv6. Para alguns, o País está atrasado no assunto, para outros, não há razões para se preocupar.

28 de junho de 2004 - 10h49
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André Borges

Houve um tempo em que as placas dos carros nacionais tinham apenas uma letra, seguida de cinco números. Anos depois as placas ganharam mais uma letra e um algarismo caiu. Hoje já são três letras, seguidas por quatro números. Tantas mudanças tiveram dois objetivos: disponibilidade e controle. Afinal, não é tarefa nada simples organizar uma frota nacional que hoje ultrapassa 36 milhões de carros, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran).

Pois as motivações do passado que impulsionaram as ações dos engenheiros de tráfego podem ser as mesmas que direcionem as decisões do futuro junto dos engenheiros de informática. Mas nesse caso, a suposta ameaça de caos de chama internet, mais precisamente IPv4.

O protocolo de internet versão 4 nasceu no início da década de 80, com a finalidade de se tornar um padrão de comunicação entre diferentes redes. Com a chegada da world wide web em 1995, o IPv4 se expandiu e é hoje o padrão mundial. Acontece que a tecnologia tem, entre outras características, limitações de endereçamento IP. Segundo informações da Internet Assigned Numbers Authoriry (Iana), atualmente 68% dos endereços IPs disponíveis em todo o mundo já são utilizados. “É preciso destacar ainda também que o Brasil, quando recebeu seus blocos de endereçamento IP, ficou com apenas 0,8% de todo o montante, o que equivale a cerca de 3 milhões de endereços”, afirma Robson Oliveira, diretor de tecnologia da IPv6 do Brasil, empresa que já tratou de se batizar com o nome daquele que promete ser o novo protocolo do mercado.

Segundo o executivo, a Fapesp, que gerencia os endereços IPs no Brasil, já vem fazendo uma espécie de racionamento de endereços. “Quando qualquer operadora de telecomunicações vai até a Fapesp solicitar endereços IP para oferecer serviços a seus clientes, ela precisa demonstrar que iniciativas tomou para reduzir o volume de endereçamentos que já possui”, comenta Oliveira.

A GVT, por exemplo, confirma a informação. Conforme Silvio Mendonça, gerente de operações de TI da operadora, realmente isso acontece. “Mas temos algumas alternativas para reduzir o uso dos endereços IP”, diz. Entre as opções mais utilizadas pelas operadoras está o Network Address Translation (NAT), que permite concentrar um grande número de usuários em um único endereço IP. Na opinião de Robson Oliveira, trata-se de uma alternativa pouco interessante. “O NAT acaba gerando mais custos, uma vez que exigira triangulação da rede para alcançar o usuário. Você também acaba limitando benefícios com ferramentas como voz sobre IP e conectividade fim a fim, impedindo que se compartilhe arquivos diretamente, por exemplo”, critica.

O que fazer?

Pode ser que a resposta definitiva para as limitações do IPv4 já esteja em curso. Há dez anos o Internet Engineering Task Force trabalha na versão 6 do protocolo. O IPv6 promete, entre outros benefícios, acabar com o problema de limitação de endereçamento, além de ampliar conexões fim a fim, dispensar o uso de NAT e trazer segurança dentro do próprio protocolo. Atualmente, diversos países da Europa e Ásia, além dos Estados Unidos já utilizam o novo modelo, inclusive em escala comercial. “O ambiente de defesa e operações militares dos Estados Unidos, por exemplo, deve operar com os dois protocolos até o fim de 2005 e apenas com o IPv6 até 2008”, comenta Oliveira.

Na América Latina, de acordo com o executivo, o Latin American and Carabien Internet Registry (LACNIC) já está trabalhando para implementar regras que permitam uma distribuição dos blocos de endereçamento IPv6. Por trás das motivações que transformariam o novo protocolo em um caminho irreversível está a necessidade cada vez maior de ter endereços IPs disponíveis, reflexo da chegada da internet a aparelhos como telefone celular, televisão digital, câmeras, carros e por aí afora.

Mas para empresas como a Getronics, tudo isso ainda é apenas teoria. “Em 1994 nós já falávamos em IPv6 em reuniões, que ele viria resolver a questão do endereçamento e do trafego de dados, voz e imagem. Mas o aconteceu é que as redes não convergiram na velocidade que se falava e outras tecnologias foram criadas para eliminar os problemas”, diz Paulo Pichini, diretor geral da Getronics Brasil.

Atualmente, apenas alguns órgãos do governo e a Rede Nacional de Pesquisa testam o novo protocolo, isto é, não há uso comercial no Brasil. “Temos tudo preparado para atender IPv6, mas até hoje nunca faturamos um dólar com isso”, declara Pichini.

A Cisco, uma das empresas que lidera as discussões mundiais sobre o novo protocolo e já oferece toda sua linha de roteadores e switches para IPv6, também não vê possibilidade de migração imediata no Brasil. “É verdade que muitos países têm encorajado o uso total do protocolo, mas certamente haverá coexistência. O IPv4 atende bem o mercado”, reconhece Carlos Mont’Alverne, gerente de engenharia da Cisco Brasil. O executivo ressalta ainda que hoje não existe nenhuma aplicação que rode exclusivamente em IPv6. “Além disso, a migração também é relativamente simples e não exige mudanças muito drásticas”, diz.

É um assunto que promete. Não é por acaso que a próxima edição do Comdex, evento que acontecerá na segunda quinzena de agosto, terá o IPv6 como um de seus principais congressos. “Será a versão brasileira do IPv6 Global Summit, que já passou pela Ásia e pelos Estados Unidos”, diz o diretor do Comdex, Marcus Faria. Eis aqui uma boa ocasião para discutir sobre o assunto.

Por dentro do IP

O protocolo de internet, criado em 1978 pelos estudiosos Vint Cerf, Jon Postel e Danny Cohen, nasceu com a finalidade de fazer o roteamento de pacotes por meio das várias redes existentes. Em 1981 foi publicado o TCP/IP, padrão de comunicação que se tornou a base para criação de outras redes. Nascia o IP versão quatro (IPv4). Como o endereçamento desse modelo era composto por 32 bits e suportava aproximadamente 4,3 bilhões de endereços, iniciaram-se estudos para ampliar a capacidade do protocolo. Dados da Internet Assigned Numbers Authoriry (Iana) apontam que 68% dos endereços disponíveis já foram consumidos. Além de disponibilidade, os engenheiros também buscavam maior qualidade de serviço, facilidades de gerenciamento de endereços, segurança e aproveitamento das novas arquiteturas de hardware. Em julho de 1994, o Internet Engineering Task Force aprovou um novo modelo de endereçamento, o IPv6. No entanto, o próprio mercado tratou de criar alternativas tecnológicas que atualmente dão total suporte ao IPv4, não justificando uma migração para o novo protocolo. No Brasil, apenas alguns órgãos do governo e a Rede Nacional de Pesquisa testam o protocolo.

As promessas  da versão 6
Para alguns especialistas, não faltam justificativas para impulsionar uma migração para o novo protocolo. Entre estas estão:

- Conexão fim a fim
- Mobilidade
- Novo modelo de roteamento
- Dispensa o uso de Network Address Translation (NAT)
- Endereçamento de 128 bits
- Autoconfiguração
- Segurança incorporada ao protocolo
- Múltiplos endereços por interface de rede
Fonte: IPv6 do Brasil

|Computerworld - Edição 410 - 09/06/2004|

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