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Segurança

Um hacker que virou bancário

Conheça um profissional que trocou os mais de 160 quilos e as invasões noturnas por um trabalho em um grande banco.

Por Vinicius Cherobino, do COMPUTERWORLD

27 de junho de 2007 - 06h30
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Mais de 160 quilos equilibrados em uma cadeira à frente do computador. Começava quando o relógio marcava meia-noite, horário obrigatório para quem quer aproveitar o pulso telefônico mais barato da madrugada, e ia diariamente até quase quatro horas da manhã.

Tudo começou quando tinha 13 anos, mas se alguém passasse em sua casa quatro anos depois, quando ele estava com 17 anos, a rotina era a mesma. O que fazia? Aprendia o que caia em suas mãos sobre tecnologia, da arquitetura das placas aos primeiros protocolos de internet, com especial interesse em segurança. É assim que Domingo Montanaro, hoje com 24 anos, resume rapidamente sua adolescência.

“Eu não saía de casa para nada. Ficava na internet à noite e dava cursos durante o dia de Word e Excel. Como pagamento, eles me davam aulas gratuitas de Visual Basic e SQL”, conta. Segundo Montanaro, esses anos ‘perdidos’ – com pouca vida social e tempo para amigos – foram responsáveis por dar a base de seus conhecimentos. “Fui nerd, passei anos sendo nerd”, diz. Montanaro defende que esse é um tipo de conhecimento que não se adquire de um dia para o outro, ele só se consolida depois de muitas horas de trabalho, depois de seguidos anos.

Mesmo antes de completar o segundo grau, quando tinha 17 anos, Montanaro abre a sua primeira empresa: a DH+ consultoria. Trabalhando com Linux nos servidores, o grande negócio da empresa era a conexão de redes à internet. “Naquela época, estavam surgindo as primeiras redes em banda larga. Comecei a entender protocolo de internet aí, conectando as estação clientes em servidores de software livre”, relata. Ganhando pouco, desiste do projeto e decide dar o passo seguinte.

Montanaro recebe uma proposta e decide participar da montagem de um novo provedor de internet: o Net Cyber Tel. Conquistado por um aumento substancial em seu salário, o hacker se depara, neste momento, com o primeiro link da Embratel, o primeiro roteador de grande porte e a primeira questão ética relacionada com o conhecimento de invasões e de exploração de falhas.

“Trabalhava naquele frio do data center, era a minha alegria. Mas quando o meu empregador pediu para invadir um concorrente e roubar a base de clientes, brigamos. Até estudei a rede, mas não entrei”, garante. Montanaro confessa que ainda não entendia complexidade ética dessas ações, mas optou por não perpetrar o plano por “sentir” que era desonesto. “Não era o comportamento certo, também por ele não ser correto comigo. Naquela época, começava a entender a questão ética e, hoje, acho que uma invasão só pode acontecer se autorizada”, conta.

O próximo passo de Montanaro foi em um instituto. Ele participou da fundação de uma das primeiras empresas de perícia forense digital, o IBP (Instituto Brasileiro de Peritos). Entrando em contato com grandes corporações brasileiras, inclusive bancos, ele viu invasões reais e grandes roubos de informações. A experiência, defende, foi importante também para se aprimorar em outras habilidades além da tecnologia. “Eu era muito imaturo, reconheço. Um excelente técnico, mas não tinha metodologia e nem relacionamento. Estava me aprimorando”, conta. Durante os três anos que trabalhou na empresa, o hacker iniciou o curso de Administração de Empresas, com foco em sistemas de informação.

Adote um hacker

Hoje, Montanaro trabalha em um dos maiores bancos brasileiros. Colocado em um escritório com diversos monitores e discos rígidos empilhados, ele coordena uma equipe com dois analistas de segurança, testando a segurança do banco, avaliando o nível de risco nas diversas áreas e projetos, além de fazer perícia em problemas ocorridos.

No dia em que recebeu a reportagem do COMPUTERWORLD em sua sala, teve que paralisar sua rotina para auxiliar uma gerente que estava sofrendo ameaças de morte por telefone. “O telefone é IP e estávamos procurando um meio para gravar as ameaças. Cuido de tudo um pouco por aqui”, comenta.

Como a função que ele desempenha não se encaixa no perfil de cargos no banco e, mais do que isso, o trabalho desenvolvido demanda uma outra rotina bem diferente das oito horas por dia, cinco dias por semana, Montanaro buscou um caminho alternativo. Segundo ele, a resposta estava em um acordo: “Aceito ganhar menos do que eu mereço, mas tenho espaço para fazer outras coisas e posso me ausentar por alguns períodos”.

Assim, Montanaro consegue ter flexibilidade suficiente para prestar consultoria, dar palestras e participar de eventos pelo mundo. No final, garante, é possível equilibrar todas as tarefas, dançando entre os períodos de treinamento oficiais, suas férias e folgas oriundas do banco de horas. “Sempre me aconselham: nunca diga que você é hacker para a alta gestão. Não me apresento assim, mas, se perguntam, eu conto. É um risco que tento combater com resultados”, resume.

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