Tecnologia
Gigantes promovem "segunda onda" do Linux
O Linux deixou definitivamente de ser uma aventura de amadores. Incorporado às estratégias de algumas das maiores fornecedores de tecnologia como IBM, HP, Dell e Intel, o sistema operacional avança a passos largos no segmento de servidores. Quem mais sofre com a concorrência é o Unix.
Por Ricardo Cesar
Compartilhe:
Empresas como IBM e Dell ampliam investimentos e fazem com que o software livre se torne o sistema operacional que mais cresce no mercado de servidores
Ricardo Cesar
Aproveitando a onda das empresas pontocom no final dos anos 90, uma grande quantidade de distribuidoras do sistema operacional Linux veio à tona, prometendo desbancar o status quo do mundo da tecnologia. Algumas delas conseguiram resultados estratosféricos em suas ofertas iniciais de ações caso da VA Linux Systems, que viu seus papéis valorizarem quase 700% no primeiro dia de negociações na Nasdaq.
Três anos depois, o cenário é diferente. Dezenas de empresas de Linux fecharam as portas e outras tantas lutam para botar um pouco de azul em seus balanços. A própria VA Linux foi rebatizada de VA Software e tornou-se uma fornecedora de ferramentas de desenvolvimento de aplicações.
Sinal de que o Linux é um fracasso? Pelo contrário. No mundo inteiro, não existe sistema operacional para servidores que aumente sua base mais rapidamente. A grande mudança é que o Linux caiu nas graças das gigantes da informática companhias do calibre de IBM, HP e Dell que adotaram a tecnologia e lhe deram condições de crescer.
O Gartner Dataquest afirma que, em 2002, o sistema respondeu por 6% do mercado mundial de servidores. Em 2007, a empresa de pesquisas estima que sua participação saltará para cerca de 18%, superando US$ 9 bilhões em receitas. No mesmo período, calcula-se que a plataforma Windows em servidores crescerá de 32% para 33%. Um ritmo muito mais lento, porém sobre uma base significativamente maior. No entanto, quem mais sofrerá com esse crescimento é o Unix (veja matéria na pág. 29), sistema que serviu de base para o desenvolvimento do Linux, já que a maior parte do avanço do freeware se dará sobre sua atual base de usuários.
O CEO da Conectiva Linux, Jaques Rosenzvaig, avalia que a atenção das gigantes é um sinal positivo. À medida que clientes importantes passam a perceber o Linux como uma opção válida, as grandes fornecedoras de TI aumentam seus investimentos. É um movimento ditado pelo mercado, diz. Rosenzvaig classifica a quebradeira das pequenas distribuidoras de seleção natural, mas lembra que ainda hoje existem aproximadamente 250 empresas fornecendo Linux no mundo.
Como quem gosta de uma boa briga, a Microsoft saúda o fato de o mercado de Linux ser ditado pelas grandes corporações. Essa mudança é benéfica para a competição, porque acabou de vez com a idéia de que o Linux é um almoço grátis, diz Eduardo Campos, gerente da linha de servidores Windows da Microsoft Brasil. Para nós isso é bom, porque se o cliente olhar todo o pacote, temos uma solução com custo melhor. Ninguém mais acredita que o Linux é de graça.
A estratégia
Pode não ser de graça, mas é cada vez maior o número de empresas que acredita que o produto é bom o suficiente para ser levado a sério. Com as gigantes de TI, o sistema ganhou credibilidade, suporte técnico e ações de divulgação, além de uma via de acesso fácil aos grandes clientes corporativos. Era o que faltava. A estratégia dessas fornecedoras é oferecer o prato principal praticamente de graça e faturar com os acompanhamentos, que incluem instalação, suporte técnico, treinamento e capacitação, consultoria e integração.
Como em qualquer solução, mesmo as proprietárias, o custo da compra é apenas uma fração dos gastos totais, o grosso do dinheiro não foi subtraído da equação de mercado de quem oferece Linux. De quebra, a idéia de trabalhar com um produto gratuito oferece um bom apelo de marketing.
O Linux é como um sol. Não oferecemos o produto em si, mas tudo o que gravita ao seu redor, diz Marcelo Braunstein, gerente de vendas e marketing de soluções Linux da IBM para a América Latina. Dentre todas as companhias que abraçaram o freeware, ninguém fez isso com tanto entusiasmo quanto a IBM, que investe quase US$ 1 bilhão anualmente na tecnologia. O Linux é o primeiro sistema operacional que roda em todos os hardware da IBM, afirma.
O sistema de código fonte aberto conseguiu entrar até no meio do casamento Intel-Microsoft. A fabricante de chips trabalha com distribuidoras, como a Red Hat, para otimizar o código do sistema para rodar em seus processadores. Somos uma arquitetura aberta e queremos suportar muitos sistemas operacionais. Vemos o Linux como mais uma opção, diz Maurício Bouskela, diretor de negócios para a América Latina da Intel. A razão para o suporte é clara. O caminho mais fácil para uma empresa migrar de Unix para arquitetura aberta é o Linux, explica.
Mesmo assim, a Intel é cuidadosa para não azedar as relações com a empresa de Bill Gates, que seguem prioritárias. Sabemos separar bem as coisas. Nosso investimento em plataforma Microsoft é muito maior, mas vemos o universo de clientes que saíram do mundo Unix e que optaram pelo Linux como um mercado que queremos atender.
Grátis, pero no mucho
No final, apesar de o Linux ser gratuito ou vendido a custo baixo, o pacote completo pode sair caro. Um trabalho da International Data Corporation (IDC) patrocinado pela Microsoft, vale frisar testou o custo total de propriedade (TCO) de servidores Windows 2000 em comparação com outros rodando Linux para cinco importantes atividades corporativas: redes, arquivos, impressão, segurança e Web. O estudo demonstrou que o Windows 2000 oferece custos de 11% a 22% inferiores ao Linux ao longo de um período de cinco anos em quatro das atividades pesquisadas.
O Linux ganhou apenas em servidores Web, nos quais foi 6% mais barato. A IDC afirma que as vantagens do Windows são puxadas pelo custo mais baixo de mão-de-obra, que geralmente é o maior componente individual na cesta de custos de um solução tecnológica.
Mas isso não coloca um ponto final na discussão sobre qual sistema vence no critério custo/benefício ou qual reúne os melhores atributos técnicos. Munição números e pesquisas baseadas em metodologias e cenários diferentes e de difícil comparação não falta dos dois lados da trincheira. A Microsoft diz que os US$ 5,4 bilhões que investe anualmente em pesquisa e desenvolvimento garantem uma capacidade de inovação ímpar. Quem defende o Linux prega que os milhares de programadores aprimorando o produto livremente pelos quatro cantos do mundo formam uma força imbatível.
Apanhados no meio do fogo cruzado, os Chiefs Information Officer (CIOs) estão experimentando um pouco de cada. Só há uma certeza: até onde a vista alcança, a briga pelo lucrativo filão de sistemas operacionais para servidores vai esquentar. Quem garante isso são as maiores companhias de TI do mundo. Por hora, nenhuma delas parece capaz de reproduzir no mundo dos sistemas corporativos o domínio que o Windows obteve em desktops. Para os CIOs, isso significa liberdade para escolher a solução que melhor se adapte em cada caso. Que vença o melhor.
| |||||||||||||||||||||||||||
|Computerworld - Edição 382 - 26/03/2003|
Conheça os 100 melhores CIOs do país
60 melhores empresas de TI e Telecom para trabalhar
A elite do RH de TI e Telecom no Brasil
Computerworld e Instituto GPTW apresentam as Melhores Empresas de TI e Telecom para Trabalhar 2009.
Veja o Especial


