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Tecnologia

Entrevista: antropóloga troca iguanas pela Intel

Genevieve Bell trocou o deserto da Austrália pelo Vale do Silício. Desde 1998, ela viaja o mundo para saber o que as pessoas querem da tecnologia.

Por IDG Now!

21 de setembro de 2005 - 15h52
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Há alguns anos, empresas de tecnologia dos Estados Unidos começaram a perceber que suas idéias de criar casas ou escritórios digitais não se aplicam da mesma forma no resto do mundo. O mesmo ocorre com ferramentas de tecnologia para de gerar lucros ou reduzir gastos em empresas.

Para diminuir esta distância entre os laboratórios de desenvolvimento e o dia-a-dia, existem profissionais como Genevieve Bell, uma antropóloga que trabalha para a fabricante de microprocessadores Intel Corp.

Contratada em 1998, Genevieve tem a função de viajar pelo mundo e conviver em diferentes regiões para descobrir o que as pessoas realmente esperam da tecnologia, não apenas o que as empresas pensam que elas desejam.

Com base nos estudos de campo da antropóloga, profissionais de tecnologia deixaram de perseguir a idéia de criar, por exemplo, escritórios que não utilizam papel.

"As pessoas gostam de papel", disse Bell em uma entrevista ao IDG News Service, em Paris. "É o que os antropólogos chamam de um persistente e teimoso artefato."

Genevieve, que atua na divisão Digital Home Group, acaba de finalizar um estudo que envolveu sua estada em centenas de residências de cidades pela Ásia, observando com o as pessoas vivem a usam tecnologia.

As recomendações da antropóloga direcionaram parte da ferramenta educacional da divisão Home Learning PC, da Intel na China e o projeto Community PC, na área rural da Índia, que deve ser anunciado em 2006.

Outback

Não é só o trabalho desta antropóloga do mundo digital que foge dos padrões. Nascida em Sidney, na Austrália, Genevieve Bell tinha seis anos de idade quando sua mãe, recém-divorciada e PhD em Antropologia, deixou um bairro moderno da cidade e se mudou para o deserto da Austrália para estudar aborígenes. Neste lugar, Genevieve e sua mãe viveram com os índios por seis anos.

"Deixei a escola, parei de usar sapatos e saía para caçar com as pessoas sempre que podia", conta Genevieve. Segundo ela, o jantar costumava incluir iguarias como uma lagarta que vivia entre raízes de árvores e iguanas - que a antropóloga diz terem gosto de peixe.

Aos 19 anos, Geneviene ganhou uma bolsa para estudar nos Estados Unidos. Completou o mestrado no Bryn Mawr College da Pensilvânia e, seguindo os passos da mãe, tornou-se PhD em Antropologia na Stanford University da Califórnia.

Foi na Califórnia, que a tecnologia cruzou o caminho de Genevieve. Em 1998, ela conheceu um empreendedor em um bar no Vale do Silício. Impressionado, o executivo decidiu oferecer o trabalho da antropóloga para empresas de tecnologia locais.

Seis meses depois, aos 31 anos, Genevieve foi contratada pela Intel. Ao lado de um segundo antropólogo, ela iniciou reuniões na hora do almoço para convencer os engenheiros que nem todas as aplicações de tecnologia eram maravilhosas só pelo fato de serem possíveis. "Acho que eles pensavam que nós éramos bons motivos de risada", conta.

Suposições

Com o tempo, a Intel começou a abraçar as idéias de Genevieve. Agora, a empresa emprega uma dúzia de antropólogos, sendo uma parte em pesquisa e desenvolvimento (P&D) e três na área de plataformas, mais próximos ao desenvolvimento de produtos.

Atualmente, grande parte do trabalho de Genevieve se baseia em derrubar mitos de tecnologia cultivados no departamento de engenharia da Intel. Entre os mitos estão a idéia de que as pessoas estão ansiosas pela tecnologia de transmissão de vídeo sem fios em casa ou que toda empresa almeja aumentar a eficiência e diminuir gastos com funcionários.

"Existem todos os tipos de suposições sobre comportamento, incluindo a idéia de que todo mundo quer vender muito, virar franquia e se tornar o próximo McDonald's, ou criar uma empresa e ser adquirido pela Microsoft. Estas noções de sucesso influenciam a forma como a tecnologia é desenvolvida, tornando muito importantes conceitos como escala, eficiência e eliminação de tarefas que podem ser feitas por máquinas", avalia a antropóloga.

Na prática, nota Genevieve, quase um quarto de todas as empresas do mundo são pequenas e, em muitas regiões, existem primordialmente para sustentar famílias, casamentos e dar empregos a parentes.

Trabalho de campo

"A Intel é uma companhia de chips, mas um dos desafios é saber que tipo de dispositivos estes chips vão alimentar, o que eles fazem e como serão utilizados. Existem todos os tipos de resposta em tecnologia, mas para mim há uma série de questões iniciais como: Quais serão as experiências das pessoas usando estes dispositivos? Elas vão querer estes produtos?"

O caminho entre o deserto australiano e o Vale do Silício é longo, assim como a distância entre o mundo acadêmico e uma das mais lucrativas empresas de tecnologia do mundo. Quando visita sua mãe, na região rural da Austrália, Genevieve lembra-se de suas raízes e fica difícil pegar o avião de volta ao trabalho.

"Mas você sabe, a Intel também é um trabalho de campo e nunca deixo de ser antropóloga. Algumas vezes dou uma olhada ao redor do escritório e penso: meu Deus, os nativos daqui não são estranhos?"

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