Tecnologia
Cezar Taurion é gerente de Novas Tecnologias Aplicadas da IBM Brasil.
Arquivo de formato aberto: solução para um mundo interconectado
A criação de um padrão de documento aberto, que suporte as funcões dos processadores de texto, planilhas e apresentações e seja aceito pelo mercado é uma das soluções para a comunicação entre países, governos e cidadãos de todo o mundo. Por Cezar Taurion.
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Os leitores, com certeza, não se esqueceram da tragédia que aconteceu na Ásia há menos de dois anos quando um tsunami destruiu regiões costeiras e matou centenas de milhares de pessoas. Prontamente, diversos países enviaram equipes de resgate para auxiliar nas buscas por desaparecidos. No entanto, em plena Era Digital, essas equipes se depararam com um problema tecnológico inesperado: muitos dos formatos dos arquivos trocados entre os grupos de resgate não eram compatíveis entre si.
Uma planilha com os nomes das pessoas desaparecidas produzida por uma equipe local de resgate não podia ser visualizada pelo computador do grupo francês ou inglês. Houve erros na leitura das informações que deveriam ser compartilhadas devido ao padrão proprietário do formato dos arquivos trocados e sua incompatibilidade com os diferentes programas usados pelas equipes, como por exemplo, entre versões antigas e mais novas de um mesmo software, como um Word XP e um Word 6. Como resultado, a ação de resgate foi prejudicada e tempo e vidas humanas foram perdidas.
Essa falha tecnológica que ocorreu durante o resgate do tsunami é um reflexo de uma situação que se propaga há 25 anos, com a criação e utilização de diversos formatos de arquivos que têm a mesma função (leitura, planilha, etc.), mas que são incompatíveis entre si.
Para resolver esse problema, interoperabilidade é a palavra-chave em um mundo cada vez mais interconectado. A Interoperabilidade não é apenas uma questão técnica, mas uma base para o compartilhamento de informações e conhecimento e também para a reorganização de processos administrativos.
Este processo passa pela criação de um padrão de documento aberto, que não imponha restrições de licenciamento, que não seja definido em formato binário (não aprisione o usuário a um determinado software ou plataforma), que suporte as funcionalidades atuais e futuras da tecnologia dos processadores de texto, planilhas e apresentações e tenha ampla aceitação pela indústria e pelo mercado.
Esta proposta é definida pelo ODF (Open Document Format), desenvolvida e mantida por uma entidade aberta, não controlada por nenhuma empresa (OASIS) e, portanto, disponível para uso sem pagamento de royalties ou restrições.
O debate em torno dos padrões de documentos abertos é mais forte quando olhamos instituições de governo, que devem manter informações públicas e de forma transparente por dezenas de anos.
A adoção do padrão ODF (Open Document Format) foi muito debatida e contou com diversas iniciativas em desenvolvimento na Europa e nos Estados Unidos. Um exemplo é o governo norueguês, que em nota chegou a afirmar que “formatos proprietários não serão mais aceitáveis na comunicação entre cidadãos e seus governos”.
Os europeus entraram em consenso que “openness” é absolutamente essencial para a competitividade da indústria de TI, bem como para atender as suas demandas de interoperabilidade. O usuário pode adquirir qualquer software e ter acesso, não apenas para leitura, mas também para modificar qualquer documento gerado por outro software, além de poder trocar de software quando quiser. Este cenário remove as barreiras artificiais que existem hoje e que aprisionam o usuário a um determinado software e seu fornecedor.
Por tudo isso, os governos europeus estão adotando políticas agressivas de TI que impulsionem padrões abertos e a adoção de documentos em formato aberto. Recentemente, a Receita Federal francesa anunciou que migrará 80.000 desktops de Office 97 para OpenOffice, o que, segundo eles, economizará cerca de 34 milhões de dólares, quando comparado à migração para Office XP.
O padrão ODF já está sendo aceito e impulsionado por diversas empresas de renome, como IBM, Sun, Novell, Adobe, Oracle e outras. Recentemente estas empresas se reuniram em um evento denominado “ODF Summit” para debater e direcionar ações para impulsionar o padrão ODF pelo mercado. E, com certeza, neste ano veremos muitos outros movimentos de adoção do formato aberto de documentos por governos e empresas do mundo todo, inclusive do Brasil.
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