Telecom
Varejo realiza teste com RFID e atinge 97% de leitura
Um grupo de grandes empresas finaliza teste prático de RFID no Brasil e mapeia os obstáculos para a popularização da tecnologia.
Por Ana Paula Oliveira, do Computerworld
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Ser o pioneiro nem sempre é o melhor. Um dos exemplos mais recentes de que sair na frente pode não ser a estratégia mais acertada nos negócios foi dado no início deste ano pelo Wal-Mart, o maior grupo varejista dos Estados Unidos. Em 2004, a empresa iniciou um projeto que exigia o uso de etiquetas inteligentes e identificação por radiofreqüência (RFID) nos produtos fornecidos pelos cem maiores fornecedores da rede.
O prazo dado para concluir a implementação era janeiro deste ano. Até agora, porém, apenas uma pequena parcela das empresas conseguiu cumprir todas as exigências do Wal-Mart e usar o RFID na prática. Dentre os problemas enfrentados lá fora estão o custo elevado das etiquetas, o uso de padrões não finalizados, equipamentos ainda em desenvolvimento e prazos muito apertados.
No Brasil, a experiência do Wal-Mart serve para alertar as empresas interessadas na tecnologia. Os erros no processo da rede varejista norte-americana podem ser usados como exemplo a não ser seguido na adoção de RFID. Para entender, na prática, como funcionaria a tecnologia nas condições reais de mercado e logística brasileiros, um grupo de empresas formado pelo Pão de Açúcar, Gillette, Procter & Gamble, além da Chep (fornecedora de paletes e contentores) e da Accenture, finalizou em fevereiro um teste local com o uso de RFID.
O grupo, que começou a estudar a adoção da tecnologia há cerca de dois anos, levou seis meses para desenhar o piloto que aconteceu entre janeiro e fevereiro deste ano. Cerca de mil paletes foram etiquetados e monitorados em seu trajeto ao longo de 55 quilômetros da Rodovia Anhangüera, em São Paulo, que separavam os centros de distribuição das fornecedoras dos estoques do grupo Pão de Açúcar. O teste verificou o desempenho das etiquetas, das antenas e do software de leitura.
De acordo com o consultor da Accenture que coordenou o projeto, Eduardo Santos, foram instalados portais RFID nos centros de distribuição das empresas, que acompanharam e acessaram todas as informações do piloto por meio de um aplicativo web desenvolvido para monitoração do teste. “Os resultados foram bastante positivos, com um índice médio de leitura de etiquetas de 97%, o que é um número bastante aceitável para a primeira fase”.
Outra descoberta das empresas durante o piloto foi a interferência do ambiente e de materiais como metal, gel e líquidos na leitura das etiquetas. “Esse é um ponto que ainda tem que ser aperfeiçoado antes de pensarmos na adoção real do RFID”, prevê Santos.
Um dos maiores desafios da experiência, de acordo com as empresas envolvidas, foi integrar as soluções de logística adotadas por cada uma delas. “Não fizemos nenhuma alteração nos sistemas propositalmente. Só assim conseguiríamos descobrir quais eram os ajustes necessários”, conta Nei Santos, diretor de tecnologia do grupo Pão de Açúcar.O piloto identificou que tanto os processos de logística quanto os sistemas de gestão das empresas precisarão ser atualizados e integrados. Além disso, os dados de cada produto precisarão passar por um tratamento padronizado, que também deverá ser adotado por todas as empresas envolvidas.
Moacir Bernardino, gerente de warehouse e distribuição da Gillette, concorda com a visão de Santos, do Pão de Açúcar. “Se desenvolver um projeto desse porte, em uma única empresa, já é desafiador, imagine em um grupo de empresas como as nossas. A tecnologia foi provada, conseguimos perceber os avanços, mas ainda falta escala”, opina.
Tecnologia para o futuro
Como em todas novas tecnologias, escala é um fator crucial para redução de custos. No caso do código de barras, o antecessor do RFID utilizado atualmente na rede varejista de todo o mundo, o tempo médio para adoção em massa foi de quase 20 anos. A expectativa é de que a etiqueta inteligente possa levar outros dez anos para se consolidar em todos os pontos da cadeia, saindo do centro de distribuição dos fabricantes até a mão do cliente final.
Além disso, hoje, o custo de cada etiqueta varia entre 25 e 75 centavos de dólar, que quando devidamente multiplicados em uma operação de larga escala podem representar um custo alto para as empresas. “A idéia é que até 2010 esse preço caia para até um centavo de euro ou quase dois centavos de dólar. A partir daí, o custo passa a ser competitivo”, diz Marcos Salles, gerente de TI da Procter&Gamble, empresa que também está participando da adoção do RFID pelo Wal-Mart, nos Estados Unidos.
Diante desse cenário, os participantes do piloto nacional são unânimes ao afirmar que o RFID não deve chegar ao mercado brasileiro em menos de três anos. “Mesmo em 2008 veremos apenas algumas empresas de varejo utilizando a tecnologia. Esse é o setor que mais tem demanda pela solução. Até lá, somente utilizações internas e bastante pontuais”, prevê Santos, da Accenture. Ao que tudo indica, mesmo após 2008, o RFID ainda conviverá por um bom tempo lado a lado com o tradicional código de barras. Para chegar até a mão do cliente final, as etiquetas eletrônicas terão um longo caminho a percorrer dentro dos sistemas das fabricantes, transportadoras, distribuidoras e redes varejistas.
Outro consenso em todo o grupo é que de nada adiantará uma empresa sair na frente na adoção do RFID enquanto o restante da cadeia não se adequar à tecnologia. “Não faz o menor sentido para a Procter&Gamble ou para o Pão de Açúcar trabalharem sozinhos. Sabemos que não haverá ganhos expressivos se um de nós decidir acelerar o processo e adotar o RFID individualmente” afirma Salles, da P&G.
Os próximos passos do grupo incluem uma segunda etapa de testes, que descerá mais um nível na cadeia e aumentará a granularidade, saindo dos paletes e indo para as caixas dos produtos, que serão devidamente etiquetadas. Isso deve ser feito até o fim deste ano. Paralelamente, o grupo também convidará outras empresas para participar do processo, ampliando o escopo do piloto e, consequentemente, o número de produtos testados. Isso ajudará a descobrir como outros tipos de materiais reagirão ao uso da tecnologia, interferindo ou não na leitura das etiquetas.
Para Bernardino, da Gillette, o diferencial da experiência brasileira foi sair da teoria e ir para a prática, colocando na rua os caminhões com os produtos etiquetados e suas respectivas notas fiscais, monitorados pelos ambientes controlados com a nova tecnologia.
“Isso foi um verdadeiro projeto de colaboração entre empresas com políticas diferentes”, afirma, acrescentado que a experiência da Accenture com empresas da área farmacêutica de outros países, da Procter&Gamble, e da própria Gillette, que conta com um centro de desenvolvimento de RFID em Massachusetts, nos Estados Unidos, foram de grande ajuda para o teste brasileiro.
Para o mercado brasileiro, a experiência do Wal-Mart mostrou bem que a imposição de uma solução, mesmo quando atrelada à estratégia de um cliente de peso, como é o caso da rede varejista, não acontece no ritmo esperado. Apesar de ter exigido um índice médio de etiquetas eletrônicas de 65% nos produtos dos seus cem maiores fornecedores, muitos empresas afirmaram que só conseguirão entregar entre 10% e 15% do total com RFID. “Esse tipo de resultado comprova que nem todas as ações do Wal-Mart foram acertadas e que o Brasil tem que seguir um ritmo próprio de desenvolvimento da tecnologia”, alerta Santos, da Accenture.
Lições aprendidas no Brasil
- Base de dados precisa receber tratamento padronizado
- Sistemas corporativos precisam estar preparados para compilar os dados das etiquetas
- Custos das etiquetas precisam ganhar escala antes da adoção
- Convivência entre RFID e código de barras ainda será longa
- Benefícios serão sentidos quando toda a cadeia estiver inserida no processo
Benefícios esperados com a adoção do RFID:
- Acompanhamento dos ciclos dos pedidos
- Aumento de eficiência
- Facilidade para planejar a demanda de produtos
- Identificação de possíveis causas de danos dos paletes e mercadorias
- Inibição do roubo de cargas
- Inventário em tempo real
- Mais visibilidade dos prestadores de serviços
- Melhor controle dos ativos
- Redução de perdas
Desafios do mercado brasileiro:
- Alto custo do capital impacta os investimentos
- Menor escala de operação
- Valor unitário médio dos produtos é baixo
Fonte: empresas
RFID sem parar
Ao contrário do setor varejista, que ainda está testando a tecnologia no Brasil, alguns setores, como o rodoviário, já utilizam com sucesso a identificação por radiofreqüência no Brasil. Esse é o caso do Sem Parar, sistema de pedágio eletrônico adotado em várias rodovias do Estado de São Paulo e do Via Fácil, utilizado no Rio de Janeiro, que juntos contam com 220 mil clientes com RFID. Essa base não conta necessariamente com apenas um carro por cadastro.
As etiquetas eletrônicas utilizadas desde 2000 nesses pedágios armazenam os dados do veículo, os dados do usuário e as informações para cobrança ou débito de cada operação. De acordo com Valdir Moreira, diretor de relações institucionais do Grupo STP, existe uma antena leitora em cada cancela que lê esses dados na etiqueta, checa a situação do usuário e verifica se o carro está em situação regular de cobrança e, em caso positivo, abre a cancela. “Se o sistema detectar alguma anomalia, como, por exemplo, um carro de passeio com uma carreta, o que aumenta o número de eixos, ele gera uma foto para verificação”, explica.
Moreira conta que em cada pista de pedágio eletrônico circulam entre 1.200 a 1.500 veículos por hora, contra 250 veículos por hora em uma pista de pedágio manual e 400 veículos por hora nos pedágios com cartão. “O ganho de tempo com a etiqueta eletrônica é inegável, além da praticidade para a concessionária e para o usuário”, detalha o executivo. Ao que parece, os usuários já perceberam a praticidade do sistema. Atualmente, mais de 14 mil etiquetas novas são adicionadas todo mês ao sistema, que já conta com 440 mil etiquetas ativas.
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