Telecom
Data centers: em busca do dinheiro investido
Gestores de data centers apostam na gestão dos negócios corporativos para vender serviços de terceirização de infra-estrutura tecnológica e, enfim, obter retorno dos investimentos.
Por Ceila Santos, do COMPUTERWORLD
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Cinco anos se passaram e os data centers ainda procuram recuperar o dinheiro investido em suas operações. Estima-se que o setor gastou mais de 1 bilhão de dólares entre 2000 e 2001 com a construção dessas espécies de bunkers que serviriam de sustentação tecnológica para as empresas pontocom do País. "Pelo menos 90% desse dinheiro foi para espaço", avalia Luiz Roberto Martins, presidente do .ComDomínio. "O restante teve que passar por um processo de reestruturação para também não virar pó".
Martins é um dos poucos gestores de data centers que se arrisca a contar a verdadeira tragédia que o setor teve de enfrentar porque a demanda da internet não aconteceu. Em parte, devido à resistência das corporações tradicionais ao conceito de outsourcing. Eraldo Jaquetto, diretor da divisão Data Center da Impsat Brasil, chega a afirmar que "com certeza, houve amortização do investimento no setor". Mas volta atrás e admite que o retorno financeiro ainda não veio. Motivos não faltam para isso: o estouro da bolha da internet, o alto custo do negócio, a escala exigida e a própria competição. Esses fatores levaram muitas empresas a mudar a rota da oferta e a mira de ataque para conseguir, enfim, fazer o dinheiro render.
É o caso da própria .ComDomínio, que no passado recebeu aporte de 40 milhões de dólares da Votorantim, J.P. Morgan e Natura, vendeu a unidade de data center do Rio de Janeiro para a Alog e focou no público de médias empresas para oferta de serviços de hosting. Para isso, a empresa adquiriu 40 pequenas e médias empresas especializadas em hospedagem de home pages nos últimos dois anos. A estratégia resultou em uma carteira de 30 mil usuários, que somados aos dos próprios clientes, totalizaram 48 mil clientes.
A onda de aquisições ainda não acabou e, de acordo com o presidente da .ComDominio, deve continuar, só que em um ritmo bem menor que os anos de 2003 e 2004. "Nosso alvo é angariar 50% dos clientes por meio de aquisições de empresas este ano e, em torno de 30%, em 2006", revela Martins. A base de clientes prevista para este ano é de 60 mil e, em 2006, deve saltar para 85 mil. A oferta de serviços atrelada à hospedagem de servidores foi mantida com foco em médias corporações, que geram uma fonte de receita entre mil reais a 40 mil reais por mês. "É uma área que exige escala, alto capital de manutenção e foi super dimensionada há cinco anos. Mantermos duas instalações não fazia sentido já que a unidade de São Paulo, com cinco mil metros quadrados, supre muito bem nossa demanda", explica.
Mudança de foco
O demais concorrentes do segmento continuam na busca por grandes e médias corporações, mas mudaram o foco da oferta. Agora vendem soluções de outsourcing e querem brigar com os grandes provedores como EDS e IBM. Essa mudança, aliás, foi crucial para a sobrevivência dessas prestadoras de serviços, que precisaram literalmente nascer de novo para se adequar à nova abordagem comercial.
Maurício Monteleone, diretor de manufatura da Optiglobe Proceda, considerada a grande rival entre os gestores de data center, e que agora adotou o nome de Tivit, informa que foram contratados 30 executivos vindos de empresas como IBM, Atos Origin, HP, Accenture e Deloitte para abordar o mercado corporativo de forma coerente à nova oferta de serviços. Além disso, a Tivit criou em maio de 2004 uma fábrica de software com 100 colaboradores para atender a demanda de aplicações oriundas das plataformas de ERP (Enterprise Resource Planing) da SAP e da Oracle. "Capacidade de área física não é mais relevante porque não estamos interessados em vender espaço", sintetiza Artur ribeiro Neto, vice-presidente da Votorantim Negócios, 100% controladora da Tivit. E acrescenta: "o que vendemos é solução crítica. Ou seja, capacidade ociosa (a Tivit tem 50% ocioisa) é sinal de crescimento e é mais ponto a nosso favor".
O know how em gestão de TI se tornou tão importante para vender hospedagem de sites que a HP, dona da marca Open View (solução de gerenciamento utilizada pela maioria dos data centers como base tecnológica para gerenciar os serviços oferecidos), foi uma das poucas empresas que investiu no fim de 2003 -- adquiriu o data center da Telemar, naquela época, denominado de Tnext -- e já se prepara para dobrar a área da unidade de São Paulo de 900 metros quadrados porque 95% da capacidade está ocupada. Sylvio Mode, diretor da unidade de Managed Services da HP, garante que a fabricante já amortizou a compra da Tnext com seus 60 grandes clientes, entre os quais, Sadia e Novartis.
Outros fatores contribuíram, certamente, para a manutenção desses prestadores no mercado. O atentado de 11 de setembro, por exemplo, aumentou a procura por soluções de segurança. Além disso, exigências internacionais como Basiléia II e Sarbanes-Oxley, reforçaram a demanda de gestão e de processos e, principalmente, o tempo de maturação do próprio setor. "Os data centers começaram a aprender a vender e o mercado a comprar", sintetiza Luiz Gustavo Dutra, diretor nacional de vendas da Diveo. Para se ter idéia do que representa esse aprendizado, em quase uma hora de entrevista, o executivo da Diveo não citou em nenhum momento palavras como hospedagem ou co-location. No passado, esses termos retratavam a identidade do segmento. Hoje, a referência está em palavras como gestão, processos, segurança e custos.
Dutra explica a oferta de serviços da Diveo - que, assim como os demais data centers, já atingiu entre 50% e 80% de capacidade ocupada dos grandes ambientes de prestação de serviços de TI - avaliando os riscos e custos da empresa: "As corporações descobriram que é mais eficiente e seguro contratar um serviço de um data center que poderá arcar com os custos de depreciação dos servidores, consolidar o banco de dados num único servidor, reduzindo assim o custo das licenças de aplicativos, do que pagar 44 horas para um profissional especializado para resolver um problema de armazenamento", afirma.
A mudança da Diveo, entretanto, não interferiu na evolução dos ASPs (Application Service Provider) - sigla tecnológica que foi considerada estratégia obrigatória para atingir o sucesso no mercado de TI e, hoje, tornou-se sinônimo de fracasso. A empresa é um dos poucos data centers do País que tem parceiros ASPs que deram certo. Trata-se da AP Data, Vocal e a Digital Net, que já hospedam 1,2 mil pequenas e médias empresas indiretamente nos servidores da Diveo. A AP Data aluga aplicação de recursos humanos, que é hospedada na Diveo. Já a Vocal aluga solução de call center para pequenas e médias empresas, que demandam até 30 PAs - pontos de atendimento. A Digital Net se destaca porque vende um curso de infectologia da USP para enfermeiros de hospitais via internet por meio da Diveo.
Vale lembrar que até mesmo a ícone do ERP (enterprise resource planing) chegou a afirmar que pretendia alugar os seus sistemas, sob o modelo ASP, durante o SAP e-business Fórum - evento realizado em São Paulo, no início de maio de 2001. José Ruy Antunes, na época presidente da SAP do Brasil, discursava que os ASPs seriam responsáveis pela oferta do pacote de gestão empresarial da SAP a empresas de médio e pequeno portes. Na época, Antunes afirmou que 15 fornecedoras de soluções ASP estavam sendo avaliadas. Não só a estratégia da SAP não seguiu em frente como também a de todos os demais data center citados nesta reportagem.
Metodologias de processos e muita consultoria também fazem parte do discurso de executivos que comandam as unidades corporativas das operadoras. A Brasil Telecom, que adquiriu a MetroRed, decidiu dobrar o espaço físico dos data centers regionais de Curitiba e Brasília, e a Telefônica Empresas, que registrou alta de 40% no volume de vendas, acaba de sair de um prejuízo de 10 milhões no semestre de 2004 para lucro de 5 milhões de reais neste semestre. Ou seja, o setor ainda não atingiu a maturidade para lucrar, mas já aprendeu o caminho. Prova disso é o novo perfil de clientes do setor, que inclui corporações tradicionais e empresas sustentáveis. Não só: o volume de negócios cresce em torno de 30% ao ano provocando a ampliação da infra-estrutura tecnológica. A capacidade ociosa, que denunciava o fracasso dos data centers, é hoje coisa do passado.
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