Publicidade

Telecom

2006: O ano da maturidade

Em entrevista, o presidente da Alcatel no Brasil, Jônio Foigel, conta como foi o ano de 2005 e detalha a estratégia para áreas-chave como fabricação local para a área corporativa, TV digital, satélites e telefonia celular.

Por Ana Paula Oliveira, do COMPUTERWORLD

25 de janeiro de 2006 - 08h15
página 1 de 1

A Alcatel começa 2006 com o desafio de integrar toda a operação da GMK, fabricante de URAs  recém-adquirida pela empresa por 15 milhões de dólares, à sua divisão Genesys, responsável pela oferta de soluções para contact centers. Em entrevista concedida ao COMPUTERWORLD, o presidente da empresa no Brasil, Jônio Foigel, conta como foi o ano de 2005 e detalha a estratégia para áreas-chave como fabricação local para a área corporativa, TV digital, satélites e telefonia celular. Além disso, Foigel também comenta alguns dos grandes desafios do setor de telecomunicações neste ano, como a convergência tecnológica, oferta de triple play e a terceira geração na telefonia celular.

COMPUTERWORLD - Como foi o ano de 2005 para a Alcatel?
JÔNIO FOIGEL- O ano de 2005 foi um ano bom, pois tivemos a continuação do investimento na banda larga, de forma bastante aquecida. Acredito que esse mercado vai continuar crescendo, principalmente com a adoção de VoIP, numa fase que eu chamaria de  "a guerra do VoIP", na qual as operadoras precisam se proteger para não perder receitas mas, ao mesmo tempo, têm que se preparar para usar a tecnologia e tirar proveito dela para crescer. Do outro lado, temos o aparecimento de pequenas operadoras irão utilizar essa tecnologia como base para os serviços que irão oferecer.

Então esse equilíbrio ainda não foi finalizado no Brasil, pois aqui a banda larga é oferecida apenas pelas incumbents enquanto outros querem usar essa infra-estrutura de alguma forma. Isso passa, logicamente, por um processo de discussão regulatória, de investimentos, pagamento de taxas, que ainda estamos longe de definir. Então acho que estamos entrando nesse processo, que eu espero que encontre uma solução de forma rápida, para que os investimentos se acelerem. Logicamente você só pode implantar a tecnologia VoIP se tem banda larga. Seja por fio, com ADSL ou sem fio, com WiMAX, seja por satélite, não importa, mas você precisa de uma infra-estrutura de banda larga para poder transitar com essa tecnologia de voz sobre IP. Nossa perspectiva é esperar esse mercado clarear um pouco mais e chegar a um certo equilíbrio para que os investimentos se acelerem ainda mais. Esse é um primeiro mercado.

Outro setor é o crescimento do mercado de acesso, puxado pela área celular. Transmissão era algo que estava já há algum tempo relativamente congelada, então tivemos um ano bastante aquecido nessa área e acho que 2006 deve continuar aquecido seja com transmissão por fibra, seja óptica ou com tecnologia puramente IP, com as redes Metro Ethernet. Em paralelo, temos os serviços normais de operação, manutenção e interface com os sistemas legados, que chamamos de OSS/BSS, que estão em evolução e aí também existe uma oportunidade boa. Tivemos algumas em 2005 e acredito que teremos mais em 2006. Tudo isso servirá para preparar o caminho para a chegada do famoso triple play, ou seja, distribuir multimídia pela rede de telecomunicações. Esse eu acho que será o grande elemento motor do mercado. Nós temos ainda grandes problemas de regulamentação, barreiras enormes a ser derrubadas, porque ainda tratamos isso em dois mundos separados, com empresas diferentes.

A partir daí você tem pressões de mercado, questões como a produção de conteúdo nacional. Então, temos uma série de políticas que são regulamentadas de modo diferente, no âmbito da radiodifusão, das telecomunicações, da cultura, com os incentivos à produção nacional. Temos três mundos diferentes que se sobrepõem. Em primeiro lugar temos que derrubar os medos mas estamos numa fase onde os medos ainda são grandes.

CW - Derrubar esses medos seria o grande desafio nessa questão?
JF - Eu acho que é o grande desafio regulatório, que exigirá principalmente do Ministério das Comunicações um amadurecimento, um realismo, um pragmatismo muito grande. Caso contrário, a tecnologia simplesmente vai passar por cima. Então, em vez de criarmos um arcabouço lógico para desenvolver essas atividades, simplesmente vamos ter as porteiras estouradas com a evolução tecnológica e daí, cada um vai na direção que quiser e depois vai ser muito mais difícil tentar regularizar uma situação. A própria chegada da TV digital já merece uma boa análise para que a gente não repita as besteiras feitas no passado.

Temos que parar com a idéia de que somos uma potência econômica suficiente para produzir uma tecnologia local, de que o Brasil pode fechar o muro e criar seu próprio negócio. Acho que hoje no mercado mundial poucos países ainda ousam fazer isso, talvez a China pelo tamanho de seu mercado, sua escala. Espero que haja maturidade para resolver a questão da TV digital e que se aproveite esse processo para pavimentar a estrada que faça a convergência desses três mundos, olhando logicamente os interesses nacionais.

Em primeiro lugar, devemos incentivar as empresas a continuar desenvolvendo conteúdo nacional; em segundo, pensar nos grandes organizadores desse conteúdo que são as redes de radiodifusão, tanto em TV quanto em rádio; e em terceiro lugar, toda a parte de distribuição e infra-estrutura no qual o setor de telecomunicações tem, claramente, uma grande participação. Essa é a aposta mais importante para o começo deste ano. Espero que tenhamos maturidade para gerenciar todos os lobbies de forma ponderada para criarmos algo que podemos desenvolver juntos e não sermos atropelados pela tecnologia, que já está rompendo algumas barreiras.

Na telefonia celular, acho que este ano o mercado deve começar a frear um pouco o crescimento. Tivemos um crescimento extraordinário, mas a partir de agora, a curva deve começar a mexer, as empresas estão começando a procurar um maior retorno sobre o investimento, grande parte desse capital até hoje foi para subsidiar os handsets, e isso também tem um limite. Então acho que devemos chegar num amadurecimento desse mercado com taxas de crescimento menores, oferta de novos serviços, um equilíbrio mais sensato. Acredito que ainda teremos boas oportunidades e vamos também atender a convergência das operadoras que podem unir as operações fixo e celular, oferecendo soluções que agreguem mobilidade ao triple play ou quadruple play.

CW - Voltando um pouco à radiodifusão, a postura do Minicom é de que a LGT não precisa ser alterada e de que todos os serviços podem ser oferecidos a partir dela. O que você acha disso?
JF - Como eu já disse, acho que isso é fechar as porteiras. O problema é que a porteira vai ser arrombada. Vamos estar atrás de uma barricada, cada um vai ficar atrás da sua, vamos ter um jogo pesado de lobbies, que já está acontecendo. Acho que essa é a solução menos interessante. Acho que ninguém aqui pode negar que é fundamental proteger o conteúdo nacional. O Brasil desenvolve um produto muito bom e isso tem que ser cultivado, incentivado. Mas acho que estamos indo numa direção meio perigosa. A partir daí, corrigir o negócio vai ser meio difícil. Não podemos esquecer que, quando falamos em triple play, falamos de TV paga e não em TV aberta. Então, a questão é que estamos misturando coisas diferentes. A TV aberta não vai mudar em nada. O modelo nacional é um sucesso mundial, pois o custo dela é pago pelos assinantes e não pelos usuários, que para as classes de baixa renda no Brasil é a única solução possível. Agora, o triple play leva em consideração a TV paga, que é destinada a um público específico, com renda para pagar por isso. Como já acontece hoje. A discussão central é então como remunerar o conteúdo da TV paga. Essa é a grande discussão e não misturar a TV aberta com infra-estrutura. Esse é um dos grandes erros que está sendo cometidos. Em nenhum momento o triple play vai afetar a TV aberta, ainda mais no modelo brasileiro.

Agora, é lógico que a TV aberta poderá estar disponível na TV no celular como já é hoje. Estamos discutindo regras do jogo, um medo da TV aberta de que as operadoras montem uma empresa para competir em outro setor. Mas isso já pode acontecer se elas se associarem a empresas de capital nacional, respeitando a lei, enfim. A dificuldade é criar conteúdo, criar know-how. Estamos misturando assuntos diferentes, a discussão não é essa. No mercado americano, quem está ameaçando é a TV a cabo que abala a telefonia, lá a presença da TV a cabo é muito grande. Aqui, a TV a cabo é para a classe A. Aqui tem que existir uma política econômica para diminuir a exclusão digital.

CW - Você podia comentar a criação da unidade de TV digital pela Alcatel? Como isso está posicionado no Brasil? Qual é a estratégia?
JF - A criação de conteúdo para telefonia celular, em algumas áreas, já está consumada. Esse processo está em crescimento e a Alcatel resolveu reunir todas as partes espalhadas que já faziam isso embaixo de uma estrutura única e criar uma unidade focada em oferecer o vídeo ou televisão, incluindo a área de satélite. A Alcatel tinha soluções na área de satélite, soluções na área móvel e criação de conteúdo, todas espalhadas. Colocamos tudo em uma só unidade com um só responsável, para atender as necessidades das operadoras. É essa a idéia. É uma questão de expansão de forma mais organizada, mais aberta, com várias possibilidades.

CW - E no Brasil?
JF - No Brasil ainda não. A unidade foi criada no fim do ano passado e, além disso,  estamos um pouco atrasados nesse aspecto, então existem problemas regulatórios para serem definidos. Precisamos ainda entender o mercado brasileiro. Mas acho que o Brasil vai ter mais novidades ao longo desse ano, a partir do segundo trimestre.

CW - Vocês finalmente vão produzir para o mercado corporativo nesse ano?
JF - Continuamos com duas políticas - buscar expansão no mercado corporativo e também fabricar. O que está atrapalhando essa fabricação? Vou tentar explicar. A tendência que vemos no setor corporativo é que cada vez mais o hardware passa a ser um hardware de mercado. Você amanhã vai ter um PC que vai ser a base de telefonia, com algum teclado ou equipamento específico, mas com um PC sendo a base principal. Nosso questionamento é se vale a pena desenvolver e comercializar um produto proprietário, num mercado que daqui a dois ou três anos vai ter uma base única para todas as aplicações. Esse é um elemento para nossa indefinição e nossa hesitação. Eu, pessoalmente, tenho minhas dúvidas se valerá a pena partir para isso agora. O que é hoje uma vantagem, amanhã pode ser um empecilho. Essa é a razão da demora. Mas esse é o nosso foco, o mercado corporativo é muito importante para a Alcatel.

CW - Como você vê o impacto da portabilidade numérica no mercado brasileiro?
JF - A portabilidade afeta muito pouco o pré-pago, que é a base dos celulares no Brasil. Para as pessoas de baixa renda, geralmente perder o número não irá afetar sua produtividade. Já nas pequenas e médias empresas podem perder um pouco. A portabilidade com certeza aumentará a competição. Por isso, essa não é uma coisa muito desejada pelas operadoras, embora seja inevitável. Faz parte da própria política de defesa do consumidor. Aumentará a competição principalmente na área de pós-pago.

CW - Você podia detalhar mais a fusão com a Telespazio na área de satélites?
JF - A ligação da Telespazio é uma ligação que não dá para perder. Tínhamos um excesso de players na área de satélites e a união da Alcatel com a empresa italiana foi um movimento natural. Esse mercado está se consolidando de forma drástica. Acho que é uma tendência natural de consolidação e foi uma excelente opção, a escolha por uma empresa forte. Acho que esse mercado ainda vai encolher mais.

CW - E a parceria com a Sun?
JF - É uma parceria tecnológica, já trabalhamos com várias empresas de tecnologia. Nesse momento, optamos pela Sun como parceira para os próximos anos nas plataformas abertas e software incorporados, assim como a Intel participa do consórcio WiMAX, assim como existe o grupo GSM e o da TV Digital européia.

CW - Você gostaria de comentar o IMS?
JF - É um conceito, um nome da moda, a evolução normal de um processo de convergência, ou seja, poder incorporar o mundo IP, você poderia chamar de NGN IP, IP NGN, mas convencionou-se chamar de IMS. Não tem ninguém fora disso, todos os fornecedores fazem ou estão trabalhando nisso. Não é novidade, quem não estiver trabalhando nisso, está morto. Mas, ainda está sendo finalizado, os padrões estão sendo finalizados.Todo mundo hoje já é "IMS like". Mas eu coloco o IMS dentro da plataforma da convergência.

CW - E 3G no Brasil?
JF - Sabemos que a Vivo tem problemas de cobertura em Minas Gerais e em outras regiões e começou a falar muito sobre o assunto para resolver isso. Mas e se ela não tivesse esses problemas? Como fornecedor eu acho ótimo, mas sei que as operadoras ainda não tiveram retorno dos investimentos que fizeram nas redes atuais. A 3G traria mais serviço? Na minha opinião, traria mais velocidade, a TV móvel com certeza estaria muito melhor no 3G do que no Edge. Mas será que o mercado brasileiro tem capacidade para isso? A não ser que comecemos a entregar mais aplicações.
Acho que o 3G estará ligado aos aplicativos novos que serão lançados. Mas também acho que o WiMax e o 3G entram em área próximas. O mercado ainda não tem clareza de até que ponto o WiMax invade o 3G. Eu esperaria primeiro a chegada do WiMax para criar a visão do mercado que definirá a necessidade ou não de 3G. A pergunta mais importante hoje é será que o 3G vai sobreviver comercialmente ou é mais uma transição? O Brasil vai adotar o 3G ou uma outra tecnologia mais avançada que possibilitará novas aplicações? Como fornecedor estaria contente, mas como usuário eu estou na dúvida. Temos outras coisas para resolver antes de entrarmos em um leilão de 3G para atender os clientes classes AAA. Essa evolução vai chegar naturalmente.

Opinião do Leitor
Não há comentários para essa notícia
Publicidade
Publicidade
As mais lidas
60 melhores empresas de TI e Telecom para trabalhar

A elite do RH de TI e Telecom no Brasil

Computerworld e Instituto GPTW apresentam as Melhores Empresas de TI e Telecom para Trabalhar 2009.

Veja o Especial

Confira o ranking:

  1. Chemtech
  2. Kaizen
  3. Microsoft
  4. Cisco do Brasil
  5. Google Brasil
Veja o ranking completo com as 60 empresas

SLIDE SHOWS

Publicidade
coluna tv
Newsletters
Assine a Computerworld