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Telecom

A briga pela banda larga sem fio

A corrida da indústria para definir qual será o padrão tecnológico de acesso móvel em alta velocidade abre uma acirrada disputa entre os adeptos do WiMax e os do Flash-OFDM. Será que haverá surpresas nessa disputa?

Por Erivelto Tadeu de Oliveira, especial para o COMPUTERWORLD

13 de março de 2006 - 12h10
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A batalha para viabilizar a banda larga sem fio acaba de abrir novas frentes de trabalho - e gerar novos adversários - no mercado de telecomunicações. Como já se tornou comum no mundo da tecnologia, a disputa em curso envolve a busca para definir qual será o padrão de acesso móvel em alta velocidade. De um lado, está o exército de mais de 450 empresas alinhadas em torno do WiMax, tecnologia aberta capitaneada pelo WiMax Forum, e de outro, o Flash-OFDM, padrão desenvolvido pela Flarion, empresa recentemente comprada por 600 milhões de dólares pela Qualcomm, dona da patente do padrão de telefonia móvel CDMA. Por trás da disputa está um mercado mundial estimado em US$ 9 bilhões até 2009, segundo projeções da consultoria IDC.

Do mesmo modo como ocorreu com os padrões de telefonia móvel CDMA e GSM, para o usuário final o resultado dessa guerra deve fazer pouca diferença. Mas, para fornecedores, desenvolvedores de tecnologia e operadoras, o desfecho da contenda pode ter desdobramentos e implicações sérias. Por enquanto, o que se assiste são apenas aos primeiros lances da disputa tecnológica. Isso porque a versão sem fio do WiMax só deve chegar ao mercado em 2007. A própria Intel, que tem liderado o processo de desenvolvimento do padrão, trabalha com um cronograma em três etapas, no qual os chips para as CPEs (os equipamentos para as instalações do usuário) e as centrais base (base stations) estão programados para chegar até a metade deste ano, enquanto os processadores para notebooks e smart phones só devem aportar no mercado em 2007 e 2008, respectivamente.

O Flash-OFDM, por sua vez, apesar de já estar disponível há algum tempo, ainda é uma tecnologia pouco testada pelas operadoras. "O Flash OFDM foi desenvolvido pela Flarion, uma pequena empresa que por ter recursos limitados deu prioridade aos testes com duas ou três operadoras no mundo e não fez nenhum marketing em cima da nova tecnologia", justifica Paulo Breviglieri, diretor de desenvolvimento técnico da Qualcomm para o Brasil e América Latina. Mas ele avisa que empresa agora vai desenvolver um forte programa de testes e de marketing para tentar despertar o interesse das operadoras fixas e móveis.

A ligeira vantagem no momento do Flash-OFDM está exatamente em já dispor de versões para redes fixas e móveis, e é isso que a Qualcomm pretende explorar. O WiMax tem a seu favor o fato de vir sendo testado por inúmeras operadoras em todo o mundo. Mesmo no Brasil, várias delas vêm desenvolvendo pilotos de banda larga por meio do chamado pré-WiMax, a versão wireless fixa que opera nas freqüências de 3,5 GHz e 5,8 GHz. O grupo Telemar/Oi, por exemplo, realizou testes em laboratório e um piloto no bairro Alvorado, no Rio de Janeiro, em ambiente controlado pela operadora. Algumas, como é o caso da DirectNet, já estão usando a tecnologia para atender expandir a oferta de serviços aos clientes. Adquirida no fim de novembro do ano passado pela Neovia, a operadora de internet por rádio já utiliza o pré-WiMax desde o fim de 2004.

A Intel também tem realizado pilotos de pré-WiMax no Brasil. Em dezembro do ano passado a empresa concluiu os testes em Brasília com a Rede Nacional de Ensino e Pesquisa (RNP) e o Ministério da Educação. Em janeiro, a empresa iniciou um piloto em Belo Horizonte, dentro programa de governo eletrônico do governo federal, o Gesac, em parceria com o Ministério das Comunicações. Embora os testes ajudem a promover a tecnologia, não servem como base para avaliação da versão sem fio que está sendo desenvolvida - o padrão IEEE 802.16e. A razão disso é que, ao contrário do pré-WiMax que opera à velocidade 75 megabits por segundo (Mbps), o WiMax nômade (velocidade de pedestre) funciona com velocidades máximas entre 40 Mbps e 50 Mbps. Isso significa que o novo padrão não vai garantir a conexão sem fio de um laptop quando o usuário estiver num carro em movimento.

"É preciso ter em mente que o WiMax foi desenvolvido de forma a operar com muita velocidade, mas com baixa mobilidade. Na versão 802.16d (wireless fixa) ele é capaz de fazer transmissões em até 75 Mbps, mas não tem mobilidade, enquanto na 802.16e ele tem pouca velocidade, mas oferece certa mobilidade", explica Marcos Kimura, diretor geral de estratégias tecnológicas da Siemens.

É justamente esse o flanco por onde a Qualcomm pretende atacar o WiMax. A empresa sustenta que o padrão não provê o suporte a mobilidade que uma rede sem fio requer. "Isso só vai ocorrer quando for aprovada a especificação IEEE 802.20 (chamado também de MobileFi) que está sendo desenvolvida e para a qual a Qualcomm está propondo variações tecnológicas mais avançadas", afirma Paulo Breviglieri, diretor de desenvolvimento técnico da Qualcomm para o Brasil e América Latina. O executivo defende o Flash-OFDM como uma alternativa tecnológica melhor que o WiMax, salientando que além das mesmas velocidades e capacidade ela oferece suporte a mobilidade.

Kimura, da Siemens, observa que o Flash OFDM foi pensado de forma a manter todas as características de mobilidade, mas afirma que ele não oferece os mesmos 75 Mbps ou 50 Mbps de velocidade do WiMax. Por isso, a tecnologia da Qualcomm acaba perdendo um pouco de capacidade de transmissão final. De todo modo, o executivo acha a discussão sobre qual é o melhor padrão é um tanto relativa. A justificativa dele é que é preciso considerar qual é o ponto de aplicação que se quer. Como exemplo Kimura diz que se a operadora necessita de uma conexão de banda larga sem fio para cobrir uma região e não precisa de mobilidade total, o WiMax é mais indicado. Por outro lado, se a empresa precisa de muita mobilidade e quer cobrir uma área geográfica muito grande aí, segundo ele, é melhor o Flash OFDM, por causa da faixa de freqüência e de sua característica de mobilidade total.

Afora esses aspectos, Kimura acha que o Flash OFDM leva certa desvantagem em relação ao WiMax. Em primeiro lugar porque a tecnologia foi desenvolvida na faixa de freqüência de 450 MHz, o que no caso específico do Brasil inviabiliza o seu emprego, devido ao fato da faixa já estar ocupada para coberturas rurais por rádios analógicos. "E nada indica que a Anatel vá liberá-la. Pelo menos foi isso que ela deixou claro ano passado, quando a Huawei e a Lucent tentaram convencê-la a mudar para implantarem o CDMA Link (CDMA 450), que aliás compete com o Flash-OFDM", comenta.

O outro ponto - e talvez o que mais pesa contra o Flash-OFDM - é o fato de ser uma tecnologia proprietária. Este, na visão do diretor da Intel, Ronaldo Miranda, é um fator preponderante quando se compara WiMax e Flash-OFDM. Para ele, é quase o mesmo que equiparar o CDMA e o GSM. O argumento dele é que embora o GSM não seja uma tecnologia 100% padronizada, uma vez que começou de forma proprietária e depois que foi aberta, é uma plataforma que qualquer empresa pode desenvolver. "Ninguém paga royalties, ou pelo menos não existe nenhum litígio das empresas precursoras da tecnologia. Eventualmente podem até vir a cobrar, mas até hoje isso não foi feito e todo mundo acha que nunca vai acontecer", pondera Miranda, numa clara alusão ao fato de que a Qualcomm, que criou o sistema celular CDMA e hoje tem sua receita baseada no recebimento de royalties, estaria tentando repetir a estratégia com a banda larga sem fio.

A realidade é que a briga em grande parte é muito mais de conceito do que propriamente de tecnologia. Para Carlos Barroso, diretor técnico-operacional da Neovia/DirectNet, o que está em jogo é a adoção de um padrão aberto, que vem sendo desenvolvido por um consórcio de empresas com presença muito forte no mercado, versus uma empresa que quer definir a sua tecnologia como padrão, de fato, no mercado. "A grande ruptura do WiMax está na interoperabilidade, o que não é possível com uma tecnologia proprietária", diz ele, ao afirmar que o padrão aberto é que vai possibilitar a massificação da tecnologia no mercado e, conseqüentemente, a redução de preços dos produtos e serviços.

Polêmica à parte, o fato é que independentemente de qual das duas tecnologias irá predominar - se é que uma delas de fato terá uma vantagem importante sobre a outra - o caminho das operadoras nacionais rumo à banda larga sem fio ainda é longo e depende de uma série de fatores. O gerente de novos produtos do grupo Telemar/Oi, Gilberto Sotto Mayor, é bastante cético em relação ao WiMax, para quem no momento se fala muito sobre o padrão, mas a verdade é que ninguém ainda tem pra valer. "Teoricamente, o que se diz é que a versão móvel é que realmente vai ter impacto no mercado, mas a minha visão é que o acesso é um segundo plano."

A opinião dele é que primeiro é preciso ter o serviço. Ou seja, se a operadora tiver um serviço que consuma um acesso de banda larga móvel, que o cliente goste e esteja disposto pagar, aí sim se coloca o acesso, que pode ser WiMax, 3G ou outro padrão. "Poder ser que o WiMax venha a ser realmente uma tecnologia importante. Nos Estados Unidos, por exemplo, onde já se fala em TV pelo celular, ele poder vir a ser uma boa solução. Agora, é preciso ter em mente que algumas tecnologias morrem, outras crescem mais lentamente e outras não são tudo o que se espera. O WiMax está na crista da onda, mas ainda é cedo para dizer", diz Sotto Mayor.

2,8 milhões de usuários

Um estudo recente realizado pela consultoria Frost & Sullivan mostra que o WiMax no Brasil tem o potencial de levar serviços de banda larga e voz sobre IP a aproximadamente 2,8 milhões de usuários até 2010. Desse total, a empresa avalia que cerca de 45% estariam concentrados na região Sudeste. Segundo o estudo, essa expansão deverá ser impulsionada pela queda no custo dos equipamentos, bem como pelos provedores de acesso em banda larga sem fio (BWA), que atualmente estão direcionados estritamente a instalações em prédios comerciais e residenciais em áreas urbanas, e tendem a oferecer seus serviços a locais menos verticais.

Além disso, há a necessidade crescente das operadoras de telefonia fixa de adotar a tecnologia para expandir a cobertura de seus serviços a áreas remotas ou com oferta de poucos serviços. "A infra-estrutura que as operadoras de telefonia fixa utilizam para oferecer serviços de voz e internet não é capaz de atender a todo esse mercado potencial," explica Alex Zago, analista de pesquisa da Frost & Sullivan. "A alternativa seria implementar redes WiMax nessas regiões onde não compensaria investir em redes tradicionais."

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