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Telecomunicações

Quem quer levar a Brasil Telecom?

Enquanto a venda da Brasil Telecom é dada como definitiva, futuro da Telemar ainda é incerto, mesmo sendo uma das operadoras com a estratégia de convergência mais madura do setor. Confusão nas regras vem atrapalhar ainda mais o cenário.

Por Ceila Santos, do COMPUTERWORLD

21 de novembro de 2005 - 10h34
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O "choro" das operadoras pelo impacto irreversível nas receitas, caso o fim da assinatura seja aprovado pelo Congresso ou decretado pelo presidente Luis Inácio Lula da Silva a pedido do ministro Hélio Costa, não se reflete no mercado de ações. No mês de outubro, enquanto o ministro proclamava uma futura chegada do telefone popular - que segundo executivos da Telemar, Telefônica e Brasil Telecom teria um impacto negativo entre 2 e 4 bilhões de reais na receita de cada uma dessas empresas -, as corretoras financeiras alardeavam em seus fóruns recomendações para compra das ações preferenciais da Telemar e da Brasil Telecom.

O relatório da Fator Corretora informava potencial de até 78% de valorização para as ações preferenciais da Telemar. A aposta para a Brasil Telecom também foi bastante expressiva, com crescimento de 77% frente à cotação anterior.

O motivo de tanta euforia, no caso da Brasil Telecom, é a tão anunciada consolidação do setor. Para os analistas, não há nenhuma dúvida de que a Telecom Italia assumirá o controle da operadora. Vale lembrar que essa transação não é tão simples e corre riscos de não acontecer na prática. Já a valorização das ações da Telemar acontece porque antes do anúncio do balanço financeiro, especulava-se que o lucro da empresa chegaria a 1,4 bilhão de reais - quase o dobro do ano passado (a empresa anunciou seu balanço após fechamento desta reportagem).

Há quem diga, entretanto, que a alta de 4,56% nas ações ordinárias da Telemar na bolsa paulista, durante a terceira semana de outubro, deve-se também a possíveis negociações para a venda da empresa. Um executivo que pede para não ser identificado aposta no interesse de investidores asiáticos, mas não aponta indícios para esse movimento. No ano passado, entretanto, o grupo Telemar fechou parceria com a China Telecom e a China Mobile para ligações de longa distância com rota direta e roaming internacional entre as prestadoras dos grupos.

O boato que ganha cada vez mais força entre os que arriscam afirmar que a Telemar nasceu para ser vendida é de que a Portugal Telecom teria interesse na prestadora para se livrar do desconforto existente na relação com a Telefônica, que divide o controle da Vivo com o grupo português (veja mais detalhes à página 10). No entanto, são poucos os analistas que acreditam na venda da operadora. A razão não seria a falta de interesse dos atuais sócios, mas principalmente o desinteresse dos investidores internacionais. "Na verdade, a empresa mesmo após vencer uma série de obstáculos e ter crescido, continua sendo o 'patinho feio' para os investidores. A região em que atua é pobre e a operação de telefonia móvel tem presença regional", cita um dos consultores do mercado, que pede para não ser identificado.

O analista financeiro do Unibanco André Rocha, aponta outros fatores. Segundo ele, o grupo GP, a Andrade Gutierrez, a La Fonte e os fundos de pensão - sócios controladores da Telemar - não são investidores estratégicos e compraram a empresa para valorizá-la e vender no futuro. O problema é o timing para isso acontecer. "A Telemar foi vendida por 53,32 reais por ação, durante o leilão, algo em torno de 17 bilhões de reais. Hoje em bolsa ela vale 14,9 bilhões de reais. Ou seja, houve uma desvalorização. É óbvio que quando os sócios forem vender o controle, não o farão pelo atual valor de bolsa. É preciso esperar o momento certo", observa.

"Nossos investidores são de empresas de altíssimo nível profissional, cujo objetivo claro é criar uma empresa sustentável e de longo prazo. E estamos cumprindo essa missão. A Telemar vem evoluindo ao longo dos anos e se tornando uma empresa sólida", contesta André Bianchi, diretor de estratégia corporativa e novos negócios da Telemar.

Luis Minoru, analista do Yankee Group, que prefere não deixar clara sua posição sobre a potencial venda da operadora, diz que o pior desafio para a negociação da Telemar são as regras. "É difícil um investidor manter interesse pelo Brasil diante das atuais declarações do ministro Hélio Costa, que joga por água abaixo o plano de negócios de uma operadora quando anuncia a possibilidade de acabar com a assinatura telefônica." A confusão do ambiente regulatório, aliás, é a principal preocupação do setor - não só porque afasta os investidores internacionais, mas também porque não garante o retorno planejado.

Pior ainda é que aqueles que têm coragem de se arriscar nessa névoa de regras só o fazem com a promessa de um retorno maior. Mas nem todos concordam que o enfraquecimento político e financeiro da Anatel, a postergação de regras que estimulam a competição e a falta de diversidade entre os profissionais da agência atrapalham a chegada de novos grupos internacionais no setor. "Não vejo entraves regulatórios para consolidação", afirma Alex Zago, da consultoria Frost & Sullivan.

Pós-venda

Diante de tantas expectativas sobre essas empresas, a questão que se coloca é como será a oferta desses novos grupos de telecomunicações. Caso a Telecom Italia realmente consiga driblar as sobreposições de licenças tanto na telefonia móvel, como no código para ligações interurbanas - TIM e BrT GSM ficaria sob o comando do grupo italiano, o que não é permitido por lei e os códigos para DDD e DDI, 41 e 14, também seguem o mesmo princípio - haverá convergência de oferta entre TIM e Brasil Telecom? Para a maioria dos consultores ouvidos pelo COMPUTERWORLD, não.

O motivo para tal afirmação é simples: nenhuma operadora móvel canibalizaria as atuais tarifas móveis - que chegam a movimentar o dobro das tarifas fixas - para convergir com serviço fixo. "O jogo da convergência implica em redução de preços para obter mais mercado", explica Zago, da Frost & Sullivan. E detalhe: "Uma vez que uma operadora toma essa decisão, todo mundo perde. Na atual conjuntura brasileira, vejo poucos interessados em reduzir o tamanho do faturamento para ganhar maior participação", acrescenta o analista.

Outro consultor que prefere não ser identificado aposta que, confirmada a negociação, a Telecom Italia tentará tirar proveito da sinergia entre TIM e Brasil Telecom, assim como já acontece entre as plataformas de rede da empresa, com sua subsidiária Brasil Telecom GSM. Entretanto, afirma o executivo, essa sinergia só vai acontecer quando todas as operações móveis estiverem no mesmo estágio de rentabilidade e penetração, o que é previsto somente para os próximos dois anos. "A possível compra não deve mudar muito a estratégia de integração com a operação móvel da Brasil Telecom", acredita. Para o especialista, a diferença é que a sinergia será mais lucrativa porque a TIM possui uma base de clientes representativa e tem cobertura nacional. Em sua opinião, o código 41, da TIM, será devolvido para a Anatel, e o foco será o aumento de receita de longa distância da Brasil Telecom com o uso do código 14.

Para o diretor de estratégia corporativa e novos negócios da Telemar, nenhuma operadora está seguindo o caminho 100% convergente. Mas Bianchi ressalta que já há muitas soluções convergentes no mercado, principalmente para os usuários corporativos."É algo interessante oferecer um único terminal que paga tarifa fixa quando estiver na rede fixa e tarifa móvel quando estiver na rede móvel. Sabemos que é um desejo dos clientes e, por isso, já fizemos alguns pilotos", destaca. Porém, a barreira enfrentada pela Telemar é econômica. "Estamos numa região pobre, com pirâmide concentrada na base e os aparelhos convergentes ainda são muito caros, em torno de mil dólares, o que acaba não sendo competitivo", observa o executivo.

O presidente da Brasil Telecom, Ricardo Knoepfelmacher, também enxerga a convergência fixa/móvel como uma das alternativas para o futuro. "Acho primordial a integração das operações móveis e fixas para a oferta convergente", reforça.

Apesar do caminho das duas operadoras não seguir a trilha 100% convergente, essas empresas são consideradas pelo consultor Giovanni Tessitori, da Value Partners, as mais avançadas na integração de plataformas e na abordagem comercial de tecnologia convergente. Tal estrutura se traduz na oferta de serviços fixos, móveis, de voz, dados e imagem num único produto.

Tanto a Telemar como a Brasil Telecom já se beneficiam em integrar suas plataformas com a Oi e a BrT GSM, respectivamente, e são pioneiras na oferta de serviços convergentes, que incluem desde a venda de cartões pré-pagos, válidos tanto para telefone fixo como celular, até soluções que incluem voz, dados e imagem num único serviço. Nessa direção também está a chegada da TV por meio das operadoras, oferta que assusta bastante empresas como a Globo.
"Somos distribuidores de tudo que possa trafegar pela rede, tanto fixa como móvel. Se a imagem é uma delas, vamos explorar essa oportunidade", avisa Bianchi. O diretor da Telemar garante que a empresa não pretende desenvolver o conteúdo, apenas distribuí-lo. "Nossa idéia não é roubar o bolo publicitário, mas aumentar a abrangência de penetração para as emissoras."

Knoepfelmacher também enxerga a Brasil Telecom como um canal de distribuição das emissoras de TV - e antecipa que está pronto para oferecer TV via banda larga e só aguarda uma posição da Anatel permitindo ou não a oferta por meio da licença de multimídia (SCM). Por enquanto, a operadora anuncia a disponibilidade de VoIP (voz sobre IP) para o mercado residencial com o objetivo de trafegar voz no acesso de banda larga dos seus 800 mil clientes do Turbo. O lançamento do serviço está previsto para dezembro.

Mas não é só encontrar todas as mídias (voz, dados e imagem) num só produto que o usuário corporativo poderá esperar da Telemar e da Brasil Telecom no futuro. Outra vantagem que essas empresas já apontam é a economia de escala proporcionada pela abrangência nacional de suas redes de dados.

A Brasil Telecom, por exemplo, reforçou o atendimento dos clientes de São Paulo (área de atuação da Telefônica) e do Rio de Janeiro e Minas Gerais (área da Telemar) por meio da integração da sua rede com a da MetroRED, adquirida recentemente, além de implantar novos pontos de presença na sua área de atuação, envolvendo as regiões de Fortaleza, Recife e Salvador. Outra infra-estrutura que foi integrada ao backbone da Brasil Telecom foi a rede IP da antiga Vant - também adquirida pela operadora -, que tem cobertura nacional.

A Telemar também segue a mesma postura de ataque da Brasil Telecom e desde 2003 integrou a rede da Pegasus com cobertura em São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Brasília (as três últimas cidades, área de atuação da Brasil Telecom).

Só que em nenhum momento a operadora planeja explorar essa rede para atender ao usuário final. Bianchi explica que não se trata de um acordo de cavalheiros entre as três todo-poderosas (Telefônica, Telemar e Brasil Telecom), como especulam alguns analistas do setor, mas uma questão puramente financeira. "Após a antecipação de metas houve sim uma disputa nacional entre as três concessionárias, só que somente no âmbito corporativo. Na oferta ao segmento residencial, não vale a pena essa briga, especialmente porque não há retorno", afirma.

O executivo da Telemar ainda revela que mesmo para os clientes corporativos nem sempre a operadora consegue ser competitiva devido à falta de capilaridade quando comparada com a rede da Embratel. A ausência de cobertura também ocorre na telefonia móvel - situação oposta da TIM, única que tem cobertura nacional.

Vivo e Claro tem algumas lacunas no mapa de telecom - o que afeta os negócios na hora de entregar a oferta convergente às corporações. "Ainda que a cobertura seja importante para o cliente corporativo, o investimento em novas licenças ou em aquisições [há muito se especula que a Vivo estaria negociando a compra da Telemig Celular como medida paliativa para suas dificuldades de cobertura] não se justifica. Uma das alternativas que estamos analisando é a utilização de operadoras virtuais, mas essa estratégia depende de regulamentação", revela Bianchi.

Diante desse panorama em mutação constante, a única certeza dessas operadoras é de que independente de quem seja o novo chefe amanhã, a estratégia de convergência baseada numa oferta de serviços rentáveis deve estar pronta e dando resultados concretos hoje.

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